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A voz das minorias

Sem medo de polêmicas, o deputado federal Jean Wyllys defende, dentro e fora da Câmara dos Deputados, temas como casamento homossexual e os direitos trabalhistas das prostitutas. Ideias que fazem dele um parlamentar amado e odiado - na mesma medida

Leilane Menezes - Colunista Publicação:16/04/2013 18:23Atualização:16/04/2013 19:17

Jean Wyllys não tem medo de suas escolhas: 'Ninguém pode me negar o que me faz feliz. 
Devemos enfrentar o mundo, porque quem vive com medo vive pela metade', diz (Minervino Junior/Encontro/DA Press)
Jean Wyllys não tem medo de suas escolhas: "Ninguém pode me negar o que me faz feliz. Devemos enfrentar o mundo, porque quem vive com medo vive pela metade", diz
 

O gabinete 646 da Câmara dos Deputados tem um apanhador de sonhos pendurado na entrada. O aparato indígena, feito em madeira, pedras, fios e penas, serve para espantar espíritos indesejados e filtrar energias negativas. Foi criado para apaziguar a guerra entre duas tribos inimigas. No Congresso Nacional, tem função semelhante: foi o amuleto escolhido pelo dono do escritório, o deputado federal Jean Wyllys (PSol), de 38 anos, para harmonizar o ambiente. Algumas folhas de arruda, sal grosso ou qualquer proteção extra seria bem-vinda.


Jean Wyllys está na mira do conservadorismo, mas diz estar blindado. “Sou da pedra dura, como dizem na Bahia”, afirmou. Não há um dia de calmaria na agenda do parlamentar, militante de causas sem unanimidade. Jean carrega marcas de convicções no peito, literalmente. O broche de fuxico colorido que ornamenta o paletó é apenas um símbolo, mas ajuda a reafirmar valores.


Saído de um reality show, o jornalista e professor universitário, com mestrado em linguística e três livros publicados, tem três anos de mandato e faz muito barulho. Chegou desacreditado, graças ao preconceito que recai sobre participantes de programas televisivos como esses. Superou expectativas e surpreendeu pelo eco de seu trabalho. “Não partilho da visão de que o programa (BBB) emburrece. Sempre estudei cultura de massa e quis participar para entender a paixão que o BBB desperta, é como o futebol”, explica.  Não raramente, Jean se apropria de versos musicais para se expressar.“Sabia que o programa me tiraria o prestígio intelectual que havia conquistado. Mas ‘tolice é viver a vida assim, sem aventura’ ”, diz, cantarolando O Último Romântico, de Lulu Santos.


Ao sair vencedor do BBB, em 2005, Jean ignorou a fama. Voltou a dar aulas em universidades. Cinco anos depois, lançou-se candidato, sem fazer menção ao reality show. Gastou R$ 25 mil na campanha, não teve horário na TV, nem grandes recursos. Acreditava estar apenas “treinando” e não pensava em se eleger. Pegou carona na expressiva votação de Chico Alencar (PSOL). Com 642 mil votos para Alencar, o PSOL teve direito de empossar também o segundo mais votado, Jean Wyllys, com 13 mil votos.


Durante o Big Brother Brasil, com Grazzi Massafera: 'Quis entender a paixão que o BBB desperta' (Jaq Joner/TvGlobo)
Durante o Big Brother Brasil, com Grazzi
Massafera: "Quis entender a paixão que o
BBB desperta"
O Congresso Nacional jamais havia tido entre seus integrantes um homossexual assumido e militante. Clodovil Hernandes rejeitava carregar qualquer bandeira. Ao defender as próprias verdades, Wyllys teve espaço na mídia e ganhou popularidade. Dentro da Câmara, porém, a conquista do respeito é mais difícil. “Ter um deputado homossexual causou e ainda causa mal-estar. Os colegas reconhecem o conteúdo de Jean. Mas estamos em um ambiente predominantemente machista e a orientação sexual ainda causa desconforto para muitos. Volta e meia deputados fazem piadinha no banheiro, longe dele, é claro”, relata o deputado Chico Alencar. Jean vai na contramão do estereótipo do político tradicional. Os escândalos que o envolvem estão relacionados a declarações afiadas. Com algumas frases, ele desestabilizou a Casa. Uma das situações mais recentes ocorreu quando Jean defendeu lei de sua autoria que pretende regulamentar a atividade de profissionais do sexo. “As prostitutas, embora estigmatizadas e marginalizadas, são uma categoria menos odiada que os homossexuais. E tem outro fator: eu diria que 60% da população masculina do Congresso Nacional faz uso dos serviços das prostitutas, então acho que esses caras vão querer fazer uso desse serviço em ambientes mais seguros.” A declaração rendeu protestos de colegas.


Com 80% de presença nas sessões e apenas uma falta não justificada em 2012, Wyllys foi escolhido o melhor deputado do ano, em votação popular, de um portal de notícias sobre política. Deixou em segundo lugar Chico Alencar, que lhe garantiu vaga no Congresso. Atualmente, ganhou ainda mais projeção. É o principal oponente do pastor Marco Feliciano, presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minoria (CDHM), acusado de ser homofóbico e racista. “Feliciano está externando de uma forma tosca o que muita gente ali pensa: que o gay é uma aberração, que a homoafetividade é uma doença prejudicial à sociedade. Tudo o que fez a humanidade avançar, de início, causou esse tipo de reação”, avaliou Chico Alencar.


Esse não é o primeiro embate de Jean. O deputado Jair Bolsonaro já o ofendeu pessoalmente diversas vezes, em discussões acaloradas, em plenário, sobre direitos dos homossexuais. “Eu não teria orgulho de ter um filho como você”, disse Bolsonaro a Jean, durante uma sessão. A família de Jean pensa diferente. Quando vê a imagem do filho na televisão, Inalva de Matos Santos, de 65 anos, custa a acreditar que seu menino está tão longe. Ela tenta acostumar-se a vê-lo atrás da tela de vidro. Primeiro, a mãe o viu no Big Brother Brasil. Agora, acompanha-o em pronunciamentos, direto da casa mais vigiada do Brasil, o Congresso Nacional.


Inalva jamais imaginou ser mãe de um deputado. Quando os vizinhos lhe dão parabéns pelo filho “bem-sucedido”, ela fica tímida. As críticas são filtradas pelas irmãs e irmãos de Jean, para não preocupar a matriarca. “Nós ficamos preocupado com ele. Nenhuma mãe gosta de saber que o filho é ameaçado, destratado. Ela não entenderia que ele é amado, mas também é odiado”, disse Joseane Matos Santos, a irmã mais velha de Jean.


Jean não fala sobre o destino do R$ 1 milhão que ganhou como vencedor do BBB. Revela apenas que, com uma porcentagem do dinheiro, construiu uma casa melhor, bem diferente da estrutura de taipa na qual cresceu, para agradar à mãe. Em meio à rotina corrida, entre Brasília e o Rio de Janeiro, sempre há brechas para visitar a família. Passa o Natal e os feriados na casa da mãe, em Alagoinhas, a 200 km de Salvador.


É impossível contar a história de Jean sem falar de Inalva, pois foi nela que tudo começou. Miúda, a nordestina de pele queimada e pouca leitura, que estudou somente até a quarta série, “lavava de ganho”, como dizem os baianos sobre as mulheres que lavam roupa para outras famílias, por trocados. O menino observava a cantoria da mãe e de outras lavadeiras, enquanto elas usavam a água do rio para limpar calças, vestidos e camisas de gente um pouco mais rica. Ele era um entre seis irmãos. Aos 10 anos, já trabalhava, vendia doces e folhinhas do Sagrado Coração de Jesus, para ajudar a sustentar a casa. “Sempre tivemos consciência de que éramos vítimas de uma injustiça social”, relembra o deputado.


Para mudar o quadro social do qual faziam parte, Jean e seus irmãos apostaram na educação. O deputado estudou em um colégio incomum, criado com objetivo de formar uma elite que viesse da pobreza. A seleção era rígida. Somente os melhores alunos de escolas públicas eram convocados. Desde cedo, Jean amava literatura. “Ler era a fuga que eu encontrava para a minha diferença”, relata. Sem dinheiro para livros, frequentava a biblioteca da igreja católica, da qual era membro entusiasmado: fez todos os passos do catecismo. Atualmente, declara simpatia às religiões de matrizes africanas. “Respeito os ateus, mas não suportaria viver em um deserto de crenças. Deus é o conjunto de todas as coisas. Eu faço parte de Deus”, avalia.


O pai de Jean, José, era pintor de carros, sabia assinar o próprio nome e não muito mais do que isso. Apaixonado por automóveis, deu ao primeiro filho homem o nome do carro favorito, o Aero-Willys. A relação entre Jean e José nem sempre foi tranquila. José era alcoólatra, não se firmava em empregos e fazia a família sofrer com isso. “Nós brigávamos, mas conseguimos nos entender antes de ele morrer, em 2001. Hoje, entendo que ele era um homem de desejos maiores, aos quais a vida não correspondeu”, afirmou Jean, com os olhos marejados.


O deputado não tem vergonha de se revelar vulnerável. Quem vê Jean em plenário, voraz e combativo, ácido nos comentários, não imagina, mas ele é emotivo. Sensível à poesia do cotidiano e amante da música brasileira, a qual recorre novamente quando explica por que entrou na política. Jean havia recebido convites de ACM Neto (DEM), que recusou por diferença de ideologia, de Aloizio Mercadante (PT) e de Marina Silva (à época no PSOL) para se filiar a partidos e ampliar sua voz. Entendeu como um sinal e quis arriscar. “Porque mistério sempre há de pintar”, diz, ao citar Gilberto Gil.


Jean Wyllys jamais se deitou em um divã. Convive em paz consigo mesmo e com a rejeição alheia. Desde muito cedo, aprendeu a enfrentar quem lhe negava o direito de sentir o inevitável. Criança, não se via como a maioria dos meninos. Não gostava de futebol, era delicado, sensível e criticado entre primos e tios. “O insulto sempre foi uma constante, por isso sei lidar tão bem. Minha mãe e minhas irmãs me defendiam negando quem eu era, pois não sabiam o que fazer”, lembrou. Jean, pelo contrário, não esconde quem é. “Ninguém pode me negar o que me faz feliz. Você deve enfrentar o mundo, porque quem vive com medo vive pela metade”, diz.


Wyllys não quer o amor de todo mundo. “Só de quem eu amo”, ressalta. Não perde o sono nem por conta das frequentes ameaças de morte, recebidas em redes sociais. Desde o início do mandato, o deputado convive com essas manifestações. Elas aumentaram após a queda de braço com Feliciano. Jean pediu reforço à segurança da Câmara. Recentemente, circulou na internet a falsa afirmação de que Jean Wyllys havia defendido a pedofilia em entrevista a uma rádio. Também o acusaram de ter chamado cristãos de “doentes”. Nenhuma das afirmações foi dita pelo deputado, que usa a mesma ferramenta, a internet, para se defender, diariamente.


O deputado faz parte de oito frentes parlamentares. Diz dormir apenas quatro horas por noite, para manter as demandas do Congresso e a militância em dia. Falta de tempo até para namorar. Quando está em Brasília, mal sobra espaço para uma cerveja no Beirute. Balada candanga, só duas vezes, em três anos. “Só chegam perto de mim para falar de política”, brinca. No Rio de Janeiro, onde estão os amigos de longa data, apenas saídas de meia hora, para botar o papo em dia. Há três anos, Jean não tem namorado. Mantém-se esperançoso. “Nesse enorme Brasil, tem que ter um coração batendo em sintonia com o meu”, deseja.


Jean quer dar netos a dona Inalva. Com ou sem marido, aos 40 anos, adotará uma criança. Quer desfrutar dos direitos pelos quais abre mão da doçura na tribuna.

 

Entre amigos e inimigos

 

 (Carlos Moura/CB/DA Press)
 

“Ainda vai demorar um tempo para a cidadania brasileira entender a dimensão do mandato de Jean. É o primeiro que se envolve em uma luta intensa contra descriminação. Representa um marco no Congresso Nacional. Ele tem consciência da responsabilidade que carrega. Tem muita seriedade no trabalho que desenvolve, além de profundidade intelectual.”

Érika Kokay (PT)

 

 

 

 

 

 

 (Richard Silva/divulgação)
 

“Jean representa um quadro político denso. Tem formação teórica muito sólida, marxista, mas que não é forjada em nenhuma estrutura partidária. Ele consegue circular por várias áreas do Congresso, não se detém somente a um tipo de luta. Embora seja alguém lapidado por preconceitos, não os reproduz. Ele conhece a força da opressão. O que o diferencia é aonde conseguiu chegar.”

Manuela D’Ávila (PCdoB)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 (Paulo de Araujo/CB/DA Press)
“Jean ganhou um prêmio no BBB, mas não usou isso em campanha eleitoral. Nem tem uma perspectiva de aumento patrimonial a partir das ideias que desenvolve. Faz política por causas coletivas, vinculadas à dignidade humana. Escolheu o caminho mais difícil. É um deputado rigorosamente de opinião. Além disso, escreve muito bem, em um universo onde a maioria escreve muito mal. É uma bela figura.”

 

Chico Alencar (PSol)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 (Edilson Rodrigues/CB/DA Press)
“Eu não teria orgulho de ter um filho como ele, nenhum pai teria. Não faço oposição a ele, mas às ideias que ele defende. Sou contra a adoção de crianças por casais gays e contra o casamento gay. Ele (Jean) agora está de beicinho, porque quer legalizar a profissão de prostituta. Devia lutar para que menos mulheres entrassem nessa vida. Ele só quer desgraçar a família.”

 

Jair Bolsonaro (PP)

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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017