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Brasília 53 anos | LITERATURA »

Um olhar forasteiro

Um dos maiores escritores estadunidenses do século XX veio à nova capital e fez relato de suas impressões da cidade que, para ele, vislumbrou o futuro. Como estão agora os lugares que mais o impressionaram?

Dominique Lima - Redação Publicação:22/04/2013 16:24Atualização:22/04/2013 16:47

O espírito de coragem dos candangos, que assumiram inúmeros riscos ao deixarem seus lares em diversos cantos do Brasil em busca de oportunidades na nova capital, destaca-se no relato que o escritor John dos Passos faz sobre a inauguração de Brasília. O autor e jornalista norte-americano fez duas visitas à cidade as quais, somadas a outras viagens dele pelo país, foram descritas no livro O Brasil em Movimento, de 1963, lançado recentemente em nova edição e tradução pela Editora Benvirá.

Considerado por especialistas um dos maiores expoentes da literatura do século XX, o contemporâneo de Ernest Hemingway, nascido em Nova York e descendente de portugueses, abusou da habilidade nas descrições para apresentar ao mundo o Brasil dos anos 1950 e 60. Dos Passos esteve na nova capital pela primeira vez em 1958, durante a obra de construção da cidade, e a outra em 1962, com a capital recém-inaugurada.

Em narrativa fluida, ele demonstra conhecer não só o país que visitou, mas as pessoas que nele vivem, ou viveram. As experiências compartilhadas por ele à época valem hoje como bússola para apontar aquilo que é novo e o que continua igual há mais de meio século. Ao conhecer a cidade ainda em obras de 1958, comparou a experiência com a condução por uma cidade do futuro. “Foi como visitar Pompeia ou Monte Albano, mas ao contrário. Em vez de imaginar a vida que existia dois mil anos atrás, víamo-nos imaginando a vida que haveria ali daqui a 10 anos”, escreveu.

A impressão que se tem ao ler a série de relatos é que Dos Passos se encantou com o povo brasileiro e, em especial, com pioneiros de Brasília. Ele expõe a aura de esperança que tomara os primeiros anos da nova capital. Com o ceticismo esperado de um observador maduro, que percebe nas mais variadas nuanças aquilo que o entrevistado talvez não queira mostrar, descreveu as habilidades políticas de Juscelino Kubistchek, fez alusão a Niemeyer como o “escultor que trabalha com material de construção”, conheceu e passou a admirar Israel Pinheiro.

Mas, acima de tudo, o escritor se deu a oportunidade de conversar e saber mais sobre o homem comum. Viu e descreveu o candango, aquele que chegara ao cenário vermelho do cerrado com nada e sem a menor certeza de que a empreitada seria bem-sucedida. “Encontramos um ar de alegre agitação em todas as pessoas com quem falamos. Tudo parecia novo e fresco. A maioria delas construíra suas próprias casas. [...] foram para aquele lugar ermo a centenas de quilômetros de suas casas porque acreditavam em Brasília.”

 

Catedral Nossa Senhora Aparecida

 (Minervino Junior/Encontro/DA Press/ Arquivo Publico do Distrito Federal)

“A catedral de Niemeyer, uma enorme coroa de concreto protendido, permanece inacabada. O projeto requer vidro para preencher os espaços entre as altas pilastras. Já impressiona como está. Fico em dúvida se um dia ela será concluída.” As dúvidas do norte-americano se mostraram vãs. A catedral foi finalizada, ganhou elogiados vitrais da artista plástica Marianne Peretti. Foi reinaugurada em dezembro de 2012, após três anos de reformas.

 

Lago Paranoá

 (Breno Fortes / CB / DA Press/ Mário Fontenelle / ArPDF)

Dos Passos mostra-se surpreso com a existência do lago em 1962. Ele se lembra de conhecer o buraco vazio quatro anos antes, quando acreditou nos engenheiros que lhe disseram ser impossível construir o lago porque a água acabaria drenada pelo terreno. “Ele [o lago] é azul. Eu temia que se tornasse lamacento. Reflete as nuvens do deserto, os poentes vistosos e o céu brilhante nas noites do planalto.”

 

Universidade de Brasília

 (Minervino Júnior / Encontro / DA Press/ Arquivo CB / DA Press)

A universidade, inaugurada oito meses antes da visita de John dos Passos, impressionou o autor por conta do currículo inovador, que sofreu mudanças desde então, especialmente na época da ditadura militar. Os maiores elogios, no entanto, foram para os serviços de dormitório e alimentação. “No refeitório, alguns professores nos ofereceram uma das melhores feijoadas que já comi. [...] Se o ensino se provar tão bom quanto sua culinária, a Universidade de Brasília deve ir longe.”

 

Rodoviária

 (Fotos: Minervino Júnior / Encontro / DA Press/ Arquivo Publico do Distrito Federal)

Quando visitada por John dos Passos, a Rodoviária do Plano Piloto ainda recebia ônibus interestaduais e tinha movimento exponencialmente menor que o de hoje. Ele destaca a praticidade e animação do ambiente, além das marcas impostas às brancas paredes pela poeira vermelha. E foi ali, da vista privilegiada da plataforma, que percebeu característica importante de Brasília que permanece até hoje: o privilégio do transporte automotivo. “Não há como ver a cidade sem ser de carro. Em Brasília, um homem sem carro é um cidadão de segunda classe. Os habitantes mais pobres terão de desenvolver rodas em vez de pés.”

 

Hotel Nacional

 (Minervino Júnior / Encontro / DA Press/ Postal Colombo / Reprodução)

Um dos marcos na história da cidade, o Hotel Nacional foi onde John dos Passos se hospedou durante a segunda visita, realizada em 1962. Além de elogiar o serviço e as instalações do local, com sua “piscina em forma de rim”, o autor deixou-se levar pela imaginação e pela descrição de seu guia, “Dr. Israel Pinheiro”, como o escritor o chama. E faz projeções imaginárias dos arredores do prédio, que até então estava cercado de canteiros de obras. “Da porta da frente [do hotel], você descortina uma colina coberta por restos de construção que algum dia será a moderna Montmartre de Lucio Costa, e depois por grandes prédios de escritórios tipo Park Avenue.”

 

 

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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017