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Cultura | Artes plásticas »

Aventuras das noites brasilianas

Wagner Hermusche fez da capital uma fonte de inspirações. O resultado é um trabalho único, que vai do bucolismo aos dramas do homem contemporâneo

Severino Francisco - Publicação:29/04/2013 16:27Atualização:29/04/2013 16:44

Hermusche é  desenhista, pintor, fotógrafo, produtor, editor gráfico e designer de moda: uma alma elétrica na silenciosa Brasília (Minervino Júnior/Encontro/DA Press
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Hermusche é desenhista, pintor, fotógrafo, produtor, editor gráfico e designer de moda: uma alma elétrica na silenciosa Brasília
 

A noite de Brasília é silenciosa e espacial. Mesmo nos horários de rush, o barulho dos carros soa distante e as figuras humanas carregam algo de espectral. Em vez de pintar a claridade solar dos horizontes abertos, o artista Wagner Hermusche sempre preferiu a magnitude das noites brasilianas, quase que permanentemente refratadas pelas luzes da cidade. A arte de Hermusche é inspirada numa visão impressionista, fragmentária, cinematográfica e estilhaçada de Brasília.


Ele desenha a capital com o gesto visceral dos grafites, das granulações do vídeo, das rasuras do traço e da inconclusão de um esboço. Há algo de erro nesses desenhos que humanizam Brasília. O que reponta nas noites brasilianas é uma outra Brasília, refundada em cima da Brasília criada por Lucio Costa e Oscar Niemeyer: cinética, eletromagnética, lisérgica, impressionista e expressionista. Hermusche injeta uma alma elétrica na paisagem silenciosa e noturna da cidade.
O espaço em que ele se move nas noites brasilianas e o seu posto de observação são as janelas do apartamento, do ônibus ou de seu carro em movimento. Sua visão evoca o ritmo instável e a sensibilidade elétrica do rock'n'roll. É como se fossem retratadas por Renato Russo, se ele tivesse habilidade plástica.

Releitura de um letreiro bem conhecido da cidade, o do Conjunto Nacional: 
a obra Neons é um poema gráfico (Wagner Hermuche/Divulgação)
Releitura de um letreiro bem conhecido da cidade, o do Conjunto Nacional: a obra Neons é um poema gráfico

Se compararmos as noites de Brasília com a de outras capitais, vamos constatar algumas diferenças marcantes. A de São Paulo, por exemplo, é um caos de máquinas, ruídos, sirenes e luzes. No poema Prece do Mineiro no Rio, Carlos Drummond de Andrade escreveu que o Rio de Janeiro era uma cidade onde “voz e buzina se confundem”.
A noite de Brasília é engolida pelo espaço aberto com as suas luzes pulsantes. É essa atmosfera que Hermusche capta em seus desenhos, numa estética neon-concreta: “Desde adolescente, fui atraído por tecnologias eletroeletrônicas, cibernéticas. Já vivendo em Brasília, eu pegava no sono com a Rádio Mundial, ouvia soul music junto a todas aquelas interferências, zumbidos e ruídos de emissão das distantes rádios de ondas curtas do Terceiro Mundo.”

Obra da série Sol o Céu de Brasília: o cosmos, o universo, a noite, tudo serve de inspiração (Wagner Hermuche/Divulgação)
Obra da série Sol o Céu de Brasília: o cosmos, o universo, a noite, tudo serve de inspiração

O desenho de Hermusche se desenvolveu após a realização de dois curtas-metragens em 1979: o Cine Teatro Mamãe Esperança e o Das Noites Brasilianas. No primeiro, ele acompanhou o trabalho dos garis durante a madrugada; no segundo, fixava o imaginário noturno da cidade. Ambos produções de 10 minutos filmadas em Super 8 e impregnadas pela tradição estética dos cineastas Andrei Tarkovski e Alfred Hitchcock. Sempre embalado pelos sons elétricos de Frank Zappa, Hermusche registrou a cidade por meio de imagens em movimento. Em seguida, com fotografia, para, depois, entregar-se a uma interminável produção de desenhos usando pastel oleoso sobre papel negro.

 

Seus primeiros desenhos tinham uma dose de bucolismo, ocupados com uma mera representação plástica da cidade, mas já emanavam sinais que sugeriam a opressão do concreto e do vazio. Mais adiante, ele mergulha num ambiente mais complexo, imprimindo uma dramaticidade e uma crítica contundente. O Cidadão X, de 1986, mostra um motorista algemado ao volante de seu automóvel sob o bombardeio caótico das luzes do tráfego da cidade. Em outra obra marcante dos anos 2000, Neons, substitui as logomarcas dos neons do Conjunto Nacional de Brasília. Em vez das propagandas luminosas, escreve em um poema visual as palavras: Sexo, Dúvida, Carne, Amor, Tesão, Corrupção, Mentira, Poder, Amor, Vida, Perda, Ambição, Liberdade. “Essa obra refletia as questões planetárias primordiais nos valores do homem contemporâneo e no Brasil, o que se experimentou entre 1980 e 2004, com as esperanças da abertura política da Nova República e o desencanto com os desdobramentos da participação social.”

Delicadeza e força na obra de Hermusche: este painel ilustra o quarto da filha de Ana Cláudia Lima e Alves (Raimundo Sampaio/Encontro/Da Press)
Delicadeza e força na obra de Hermusche: este painel ilustra o quarto da filha de Ana Cláudia Lima e Alves

Essa noite lisérgica, fragmentada, estilhaçada, marcada pelos traços vermelhos profundos, contínuos como um solo da guitarra elétrica do rock’n’roll é resultado da sensibilidade da geração do flower power e suas revoluções por minuto na década de 1960/70.


Hermusche começou a desenhar aos 22 anos ouvindo rock: “Zappa embalou toda a minha criação na década de 1980. Elétrica, crítica, nervosa, angustiada, inquieta e urbana. Obsessivo com a luz, os riscos sugerem mostradores digitais piscando. O cosmos, o universo, dando uma real dimensão da pequenez da condição humana e, ao mesmo tempo, a grandeza da criatividade, sensibilidade, inteligência e imaginação do Homo Sapiens”.


A arte de Hermusche desdobra-se em quatro vertentes simultâneas: as noites brasilianas, os ruídos contemporâneos, o abstracionismo na pintura e a tradição nipônica. Na série Hashira-e Brasília, de 2011, seguindo a tradição da gravura vertical japonesa, inseriu, na figuração do espaço urbano, os ipês, os cambuís, os pepalantos, as caliandras, entre outras flores do cerrado. São cenas poéticas que, às vezes, compõem ambientes de contemplação e meditação. Uma pausa para o estresse e o drama cotidianos. Um quarto de dormir, uma cena de amor entre um espectro e sua parceira de carne e osso. Uma janela onde em primeiro plano vemos uma flor de lótus e um livro espiritualista sobre uma mesa e lá fora o trânsito implacável.


Mas não confunda a exuberância de cores e signos urbanos com o sentido decorativo e a glorificação do consumo da pop arte. É precisamente o inverso. Brasília é usada como espaço teatral dramático para encenar o espetáculo das grandes corporações influenciando, interferindo, induzindo e manipulando os indivíduos no mundo contemporâneo.


Com os originais de suas obras em coleções privadas e públicas, o artista publicou gravuras e múltiplos de suas obras. Esses múltiplos são encontrados nas livrarias da cidade, em tiragens maiores, planejadas para facilitar o colecionismo pelo público jovem nascido em Brasília que estabeleceu intensa identidade com as obras. Num evento, um jovem, questionado sobre o porquê de adquirir as gravuras, respondeu com ar de surpresa: “É minha cidade! Nasci aqui!”.


Numa visão remota, Hermusche se lembra em Brasília, montado na Vespa cinza do pai, observando soldados na Esplanada dos Ministérios. Outra evocação é a de andar de bicicleta pela terra vermelha das trilhas do cerrado.


Com uma herança multiétnica e multicultural, cresceu em um ambiente favorável aos devaneios da imaginação e começou a desenhar no curso científico do Colégio Elefante Branco. Garatujava cartuns e caricaturas, inspirados no traço nervoso dos fradinhos do Henfil. Fez vestibular para biologia. Aos 21 anos, já com dois filhos, deixou a universidade para desenhar e produzir móveis para viver. Tornou-se desenhista, pintor, fotógrafo, produtor, editor gráfico e designer de moda. Hoje tem um empório/galeria na Asa Norte do Plano Piloto, onde vende os múltiplos produtos de sua arte.


Há pintores que moram em Brasília, mas não tematizam a cidade. Hermusche participou do movimento Cabeças durante a década de 1980, que ocupou, pacificamente, as superquadras de Brasília com música, artes plásticas e perfomances teatrais e poéticas. Mas ele nega que tenha havido algum projeto consciente de afirmar uma identidade brasiliense. O desejo de representar a capital modernista surgiu da maneira mais natural e espontânea.


Morou na Alemanha de 1986 a 2007, sempre vivendo de sua arte. Voltou a Brasília pelo sol do Planalto Central do Brasil, da vegetação, da qualidade de vida. Embora seja crítico em relação ao futurismo formal de Brasília: “Brasília foi concebida de forma bucólica, romântica, sem uma noção realista sobre o impacto que o futuro traria. Ainda considerada melhor qualidade de vida urbana no Brasil, não é referência para uma cidade ecocibernética, na qual poderia ter sido direcionada para o século XXI.”


Simultaneamente à sua produção artística, Hermusche ocupa-se com projetos de grande envergadura, tais como a pintura mural Botânica do Cerrado, na fachada sul do Conjunto Nacional de Brasília e uma exposição temática sobre a mitologia e cultura dos rios brasileiros: “O artista contemporâneo não separa arte de ideologia, ética e consciência ecológica. Não podemos ruminar ideias importadas e produzir uma arte anacrônica e descontextualizada. Há que se criar um verdadeiro pensamento brasileiro, coerente com nosso meio, nossas enfermidades e potenciais. Nossa vocação.”


Nas artes visuais, atualmente ocupa-se com uma série de desenhos e fotografias com o título Ruídos Contemporâneos, na qual Brasília é vista como um espaço teatral para a encenação do drama contemporâneo. Uma ficção urbana em que cidadãos vivem impregnados e viciados em comportamentos, aditivos, drogas químicas e psíquicas, intoxicados por pesticidas sem odor e sem sabor misturados ao seu cotidiano. “Uma úrbis controlada por corporações que manipulam os anseios, os desejos do homem contemporâneo, que o mantém vulnerável e sem defesa, esquecido dos equipamentos que o protegem contra o poder predatório.”


Mas, dentro dessa trama que se desenrola nos cenários das noites brasilianas, há também – e principalmente – as janelas de fuga, as janelas que se abrem para a consciência, para a beleza e o amor. Janelas que apontam para perspectivas de mudanças de paradigmas na psique, nos corações e mentes do homem contemporâneo.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017