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Brasília 53 anos | Perfil »

O médico de JK

Amigo íntimo e médico da família Kubitschek, Celio Menicucci é um dos pioneiros de Brasília. Foi secretário de Saúde do DF e viveu os bastidores da capital

Matheus Teixeira - Redação Publicação:30/04/2013 14:36Atualização:30/04/2013 14:47

Celio Menicucci no Memorial JK, diante de fotos do ex-presidente: amigo, colega de profissão e conterrâneo de Juscelino, o clínicio geral viu Brasília nascer e crescer ( Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
Celio Menicucci no Memorial JK, diante de fotos do ex-presidente: amigo, colega de profissão e conterrâneo de Juscelino, o clínicio geral viu Brasília nascer e crescer
 

O mineiro Celio Menicucci foi um dos primeiros moradores do lugar que mais tarde se tornaria a capital da República. Foi o décimo segundo médico a pisar em Brasília, em 1958, para cuidar da saúde dos candangos que trabalhavam nas obras da construção da cidade.

 

Ao longo dos anos, o médico acumulou histórias e amigos e é Cidadão Honorário da cidade em que ama viver: “Não saio daqui por nada”, diz. As amizades criadas em Brasília foram muitas: dos pacientes dos hospitais públicos aos mais ilustres homens que marcaram a história do país. Entre eles, o presidente que viabilizou o sonho de desenvolver o interior do Brasil.


Menicucci foi médico da família Kubitschek e amigo pessoal de Juscelino. A amizade começou na época da construção de Brasília e só acabou com a morte do ex-presidente. “Dois dias antes de ele morrer [em 22 de agosto de 1976] , seu assessor me ligou e disse que JK queria me encontrar para lembrarmos o tempo em que cantávamos e dançávamos madrugada adentro”, conta. O encontro não deu certo, e a imagem que ficou na cabeça foi a do homem simples e afável, que se divertia e conversava por horas durante as reuniões com amigos.

Na posse como diretor executivo da Fundação Hospitalar do DF, em 1984, com o então secretário de Saúde: 'Pensei em me aposentar aos 75 anos. Mas, quando fui ver, estava com 80 anos e continuava atendendo' (Arquivo Pessoal)
Na posse como diretor executivo da Fundação Hospitalar do DF, em 1984, com o então secretário de Saúde: "Pensei em me aposentar aos 75 anos. Mas, quando fui ver, estava com 80 anos e continuava atendendo"

As histórias em torno do ex-presidente vêm com facilidade à memória do médico. Numa delas, ele lembra que, poucos meses depois de chegar a Brasília, quando ainda não conhecia Juscelino, estava de plantão na véspera do Natal e recebeu uma ligação: “Atendi e perguntei quem era. Ele respondeu que era o Juscelino Kubitschek. Eu retruquei: É o presidente? Então aqui é o papa”, relata. “Quando me dei conta, era ele mesmo e eu me desculpei. Pelo menos ele não ficou ofendido.”


O clínico geral também conta um pouco da intimidade do criador da capital federal: “Nós nos reuníamos para cantar, dançar e beber. Juscelino não cantava, nem bebia, mas adorava dançar. A dona Sarah era mais retraída, não acompanhava a diversão do marido, mas também era uma pessoa maravilhosa”, lembra. A amizade entre os dois era grande.


Em 1959, Celio Menicucci ganhou uma bolsa de pós-graduação em clínica médica na Inglaterra. Estava disposto a ir, mas não sabia ao certo o que fazer. Se fosse, perderia sua vaga de médico do estado, pois ainda não tinha o mínimo de dois anos de serviços prestados. Como prova de amizade, JK baixou um decreto no Diário Oficial que autorizava Menicucci a ficar um ano e meio longe do emprego, “sem o prejuízo da função”. O médico exalta o amigo por ter conseguido concretizar um sonho que muitos duvidavam: “Juscelino foi o melhor presidente da história do Brasil”, elogia.


Alto, elegante e sempre sorridente, Menicucci, um mineiro de Lavras, não aparenta ter 81 anos. Aposentado pela Fundação Hospitalar em 1983 e pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2006, onde trabalhou por 40 anos, não conseguiu largar a medicina nem os prazeres da vida. “Pensei em me aposentar aos 75 anos. Mas, quando fui ver, estava com 80 anos e continuava atendendo. Acho que não consigo largar a profissão”, diz.

O médico em sua casa, no Lago Sul, entre os filhos, Fernando e Simone (em pé), 
e com três dos seis netos, Caroline, Thiago e Jaqueline (sentados): inspiração para a família (Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
O médico em sua casa, no Lago Sul, entre os filhos, Fernando e Simone (em pé), e com três dos seis netos, Caroline, Thiago e Jaqueline (sentados): inspiração para a família

O dia a dia dele fora da clínica também é agitado: “Estou sempre com os amigos, tomando cerveja, fazendo churrasco”, conta. Nas horas livres, o que mais gosta de fazer é pescar: “Tenho uma fazenda na beira do rio Paracatu (MG). Se não consigo companhia, vou sozinho mesmo”. E ele não tem modéstia. Diz que já pegou um peixe de 50 kg, e garante que não é história de pescador. “Saiu até no jornal à época”, comprova, mostrando uma cópia da reportagem.


Além de ser Cidadão Honorário do DF, Celio Menicucci é nome de prédio na 311 Norte. As honrarias, segundo ele, são fruto da contribuição que deu à cidade. Carismático, mora há 55 anos em Brasília e se tornou figura conhecida na capital, por causa da profissão. “Quando saímos para passear, ele fala com todos na rua. É impressionante”, afirma a filha mais velha, Simone.


Menicucci foi um dos fundadores do Hospital Distrital, hoje Hospital de Base, e do Hospital Santa Lúcia. Ele se lembra dos acidentes mais frequentes do início de Brasília: “Queimaduras eram muito comuns, porque as casas eram de madeira e o clima sempre foi seco”, diz. Ele também ocupou importantes cargos públicos. De 1984 a 1988, foi diretor executivo da Fundação Hospitalar do Distrito Federal. Depois, foi secretário de Saúde no governo de transição de Ronaldo Costa Couto, em 1985. Na época da construção de Brasília, conta, havia poucos médicos na cidade. O expediente era de 8h diárias, eram “horas muito corridas”. Segundo ele, a demanda era grande: “Fazíamos tudo, desde atendimentos simples até cirurgias complexas”, diz.


Por influência do avô, duas das seis netas seguiram o caminho da saúde: “Ele é nossa inspiração. Como se fosse nosso pai”, revela a neta biomédica Caroline Salgado. A irmã dela, Jaqueline Salgado, estudante de enfermagem, confirma a admiração: “Ele sempre foi um exemplo para mim”. Elas também falam como é conviver com o avô. “Ele está sempre para cima, de bem com a vida”, elogia Caroline.
Dos três filhos do médico, dois são dentistas e uma é arquiteta. Simone Menicucci, dentista, exalta a criação que recebeu do pai. “Ele nos deu uma educação excelente, sem igual. É um exemplo de ser humano.”

 

O DRAMA DE TANCREDO

 (Arquivo/DA Press)

 Era terça-feira, 12 de março de 1985, quando Celio Menicucci, diretor executivo da Fundação Hospitalar do DF, recebeu uma ligação do médico particular do primeiro presidente civil eleito após a ditadura, Tancredo Neves (ao centro na foto). O clínico Renault Mattos Ribeiro pediu a Menicucci que preparasse, com urgência e sob sigilo absoluto, um quarto para operar Tancredo, que estava com dores abdominais. O combinado era que Tancredo fosse até o hospital na terça-feira à noite para ser operado no outro dia de manhã. À noite, Menicucci recebeu outra ligação: “Ele informou que o presidente eleito teria se recusado a ir ao hospital, que estava sentindo essa dor há dias e que esperaria a posse, pois tinha medo de os militares não entregarem o poder para alguém doente”, conta. Segundo ele, tratava-se de uma infecção simples. “Se ele tivesse operado na quarta-feira teria sobrevivido”, diz. Mas isso não aconteceu. Na véspera da posse, 14 de março, as dores pioraram e Tancredo foi internado no Hospital de Base. Pouco mais de um mês depois da internação, em 21 de abril, o presidente morreu.

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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017