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Gastrô | Brasília 53 anos »

O gosto da cidade

Ao lado de restaurantes cada vez mais sofisticados, sobrevivem as tradicionais comidinhas de Brasília. Servidas no balcão, em feiras ou na rua, têm estreita ligação com a história da capital

Cecília Garcia - Redação Publicação:03/05/2013 15:28Atualização:03/05/2013 15:47

Jovem e miscigenada, Brasília incorporou ao seu cotidiano hábitos alimentares bem característicos. Alguns deles são verdadeiros rituais. Um tanto informais, eles convivem perfeitamente com o requinte cada vez maior do cardápio da capital. É perfeitamente possível, portanto, que alguém saboreie um prato da alta gastronomia num dia e no outro caia de boca numa pizza degustada no balcão, de pé mesmo.


Da mesma forma, é a cara de Brasília a aglomeração em plena madrugada em torno de uma carrocinha de cachorro-quente. O pastel com caldo de cana, por sua vez, é uma dobradinha que praticamente já faz parte do patrimônio imaterial da cidade. No mês em que se comemora o aniversário da capital, Encontro Brasília resgata as comidinhas dos locais onde a informalidade é parte do menu – um contraste interessante numa capital onde o poder é o prato principal.

 

Um Kibeirute, por favor

 (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)

O restaurante árabe Beirute, na 109 Sul e na 107 Norte, comandado pelo cearense Francisco Frota Marinho, é um dos mais tradicionais de Brasília. Em funcionamento desde 1966, o bar tem um cardápio que se adapta ao gosto e aos pedidos dos fregueses. E foi para atender à clientela mineira do bar que surgiu um de seus maiores sucessos. O quibe tradicional grelhado passou a ser recheado com queijo, acompanhado de alface, tomate, azeitona e palmito – receita do famoso Kibeirute.


“O nome foi escolhido por poesia”, garante Chiquinho, como é mais conhecido o dono do estabelecimento. O local é ponto de encontro depois do trabalho, reuniões de família e amigos. A clientela, apesar de diversificada, movimenta os garçons vestidos de terno vinho com o mesmo pedido. Eles vão e vêm levando quibes para as mesas. Acompanhado de refrigerante, essa é a refeição favorita de Juliana Jaegger, de 8 anos. Já Dilceu Jaegger, pai da menina, além do Kibeirute, sempre pede o filé à parmegiana ou a kafta, outros pratos tradicionais do restaurante. Os dois têm o costume de ir ao local após o horário de aula de Juliana, quando aproveitam para lanchar e brincar no parquinho.

 

Que tal um acarajé?

 (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)

Há 40 anos, a soteropolitana Eunice Moreira Conceição aprendeu com uma amiga, ainda na Bahia, a arte de fazer um bom acarajé. Na época, nem imaginava que um dia teria sua comida apreciada na capital do país. Vinte e cinco anos depois, a baiana veio a Brasília ensinar uma irmã a fazer o tradicional bolinho. Acabou gostando tanto da cidade que fincou raízes por aqui. Fixou sua banquinha na Feira da Torre, território de outras conterrâneas.


Acompanhado de vatapá, tomate cortadinho e jiló, pode ser servido quente ou frio. Mas não se engane. Não se trata de temperatura, e sim da quantidade de pimenta. Eunice conta que o público consumidor de seus produtos é o brasiliense. “Se fosse depender dos turistas, morreríamos de fome”, brinca. Sempre bem-humorada, ela afirma que não tem controle de quantos acarajés vende por dia. Em alguns, é mais parado. Em outros, o movimento é uma loucura. “Minha filha, quem vive de aventura é assim, com altos e baixos.”

 

O cachorro-quente da noite

 (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)

De domingo a sexta-feira é possível desfrutar, na 405 Sul, de uma refeição típica da cidade: o cachorro-quente do Landi. Junto das três irmãs, Landi Inácio de Oliveira montou sua carrocinha em 1987, como renda complementar a seu trabalho numa padaria. O negócio começou a atrair o público e se tornou referência. Aproveitando a experiência anterior, aprendeu a fazer o pão e a batata palha. Junto aos ingredientes caseiros, o milho, o queijo muçarela derretido e o molho formam a versão completa do produto.


A fama do local é grande, e até uma espécie de drive-thru improvisado tem lugar ao lado da banquinha. Os carros estacionam e buzinam, os atendentes vão até os clientes, anotam os pedidos e fazem a entrega. Tudo muito ágil. O estudante de direito Alexsandro Araújo aproveita bem essa rapidez associada à qualidade da comida. Depois de tanto tempo frequentando o local, já criou relação de amizade com todos os que lá trabalham. Antes de ir à faculdade, nos intervalos entre as aulas e, às vezes, na saída da igreja aos domingos, recorre ao lanche. O pedido é sempre o mesmo: “Cachorro-quente completo, por favor.”

 

A famosa pizza do balcão

 (Zuleika de Souza/Encontro/DA Press)

“Ô, vascaíno, me vê uma dupla!” O chamado repetido várias vezes durante a noite, quase como um código, serve para pedir ao dono da Dom Bosco, Hely Veríssimo, duas fatias de pizza muçarela, uma colada na outra, como se fosse um sanduíche. A apreciação do lanche é feita sem frescura. Em pé, sem talheres, segurando no guardanapo e quase queimando os dedos. Assim é há 53 anos, desde que Hely e o irmão Enildo começaram o negócio. A ideia sempre foi simples, aproveitar bem o pequeno espaço disponível na loja. Sem cadeiras, a movimentação é intensa e rápida. O único sabor de pizza nunca foi um problema nem fez com que o lugar perdesse sua clientela cativa. Uma geração inteira tomou gosto e passou aos filhos e até aos netos.
O antropólogo Pedro Grandi é daqueles que herdou a preferência.

Quando criança, chegava a comer 12 fatias da pizza numa única visita. “Hoje, como três e já fica saindo pelos ouvidos”, diverte-se. Mesmo não morando mais na Asa Sul, sempre que passa pela 107 Sul, endereço da primeira loja – hoje, também, no Sudoeste, na 103 Sul e em Águas Claras –, mata a saudade do suculento pedaço de pizza e brinca com o vascaíno. Para encerrar, Pedro deixa a dica: “É melhor pedir a fatia simples que a dupla, porque aí o queijo não escorre”.

 

Pastel com caldo de cana, dobradinha de sucesso

[FOTO5]

É muito difícil encontrar um brasiliense que nunca tenha experimentando a dupla pastel e caldo de cana na rodoviária do Plano Piloto. Não qualquer combo, mas o oferecido pela pastelaria Viçosa há mais de 40 anos. A movimentação é mais forte nos horários de café da manhã, almoço e jantar. Mas existem aqueles que buscam um lanche rápido a qualquer hora e enchem os balcões do lugar. Executivos que procuram o Na Hora, além de transeuntes e trabalhadores da rodoviária. São mais de mil pastéis vendidos por dia, e o de queijo é o mais procurado.


Patrícia Rosa é a segunda geração de sua família a comandar o negócio, que começou com o pai. Ela conta que o mineiro Sebastião Gomes da Silva, quando perdeu o ônibus para ir à sua lua de mel, conheceu o ambulante Eugênio Apolônio, vendedor de pastel no local. Gostou tanto do que provou que propôs sociedade a ele, assim que voltasse de viagem. Esse foi o início de uma das mais tradicionais comidinhas de Brasília.

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