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TURISMO | DESTINOS »

O vilarejo que respira arte

A 100 km de Brasília, há um pequeno paraíso chamado Olhos D'Água. O atrativo principal é o artesanato, mas há muitos outros encantos a serem conferidos lá

Rodrigo Craveiro - Redação Publicação:08/05/2013 16:34Atualização:08/05/2013 18:24

Boa pedida para descansar: o ar bucólico do povoado erguido em um vale é cercado por pequenas cachoeiras e habitado por pessoas simples e acolhedoras (Fotos: Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
Boa pedida para descansar: o ar
bucólico do povoado erguido
em um vale é cercado por pequenas
cachoeiras e habitado por pessoas
simples e acolhedoras
Uma igreja no centro da praça ainda de grama, o cruzeiro de madeira, casinhas coloridas, a feira com produtos típicos e artesanais, um grupo de senhoras praticando tai chi chuan numa manhã ensolarada de sábado. Qualquer desavisado pode imaginar que se trata de uma pequena cidade do interior, das mais charmosas. E é isso mesmo! Com pouco mais de 3,5 mil habitantes e a apenas 102 km de Brasília, Olhos D'Água é um vilarejo com vários atrativos turísticos e respira arte por todos os cantos.


Nas mãos de Lourenço, que molda o barro com maestria e suor; na genialidade de Fatinha, que transforma a palha em delicadas imagens sacras; na doçura do sorriso de Dona Nêga, a senhora que cria bonecas de pano com um estilo próprio, fiel às raízes do campo; na habilidade de Madalena, que se debruça sobre o tear. O ar bucólico do povoado erguido em um vale e cercado por cachoeiras, o charme do restaurante que é uma galeria de arte e o aconchego de pousadas têm atraído cada vez mais visitantes.


Em Olhos D'Água, o respeito à natureza e a reciclagem parecem ditar o ritmo da vida. Os artesãos têm por filosofia extrair recursos sem agredir o meio ambiente. Filha e neta de tecelãs, Maria de Fátima Dutra Bastos (mais conhecida como Fatinha) sempre escolhe a lua minguante para colher o milho e as plantas do cerrado, como o cedrinho, a folha da magnólia, a douradinha e o ingá. Nas colheitas, ela seleciona as folhagens respeitando o rebrotamento. “A natureza me ensina muito. Se você planta o milho na lua certa, não terá problemas de fungo. A fibra de bananeira tem de ser aberta, lavada no cloro, secada à sombra e coberta por impermeabilizante”, explica, ao revelar que segue os conselhos recebidos da avó.


A artesã Fatinha representa bem a pequena omunidade: seu processo de criação ocorre de forma instantânea, natural, sem projetos ou desenhos (Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
A artesã Fatinha representa bem
a pequena omunidade: seu processo de
criação ocorre de forma instantânea,
natural, sem projetos ou desenhos
Depois de descobrir que poderia obter milho com outras cores naturais, Fatinha conseguiu as sementes e hoje extrai até cinco tons diferentes da palha. A natureza é matéria-prima para esculturas da Virgem Maria, de São Jorge, de Santo Antônio, entre outros santos, todas à base de palha e de fibra de bananeira. A busca pela perfeição está em cada detalhe: na reprodução de movimento das vestes das imagens inspiradas no barroco, nos passarinhos ciscando a túnica de São Francisco de Assis, no pequeno presépio, na mandala do Divino Pai Eterno. O processo de criação ocorre de forma instantânea, durante o manuseio do material, sem projetos.


O talento de Fatinha lhe rendeu três vezes o Prêmio Top 100 de Artesanato, concedido pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), e uma participação no programa de TV global Mais Você, de Ana Maria Braga. O gosto pela arte começou quando criança; hoje, ela emprega cerca de 10 pessoas e, além de trabalhar como artesã, comanda a pasta de Cultura e Turismo do município de Alexânia, na qual firmou o compromisso de resgatar a Feira do Troca, o mais tradicional evento do vilarejo.

O escultor Lourenço usa argila para fazer suas peças, em um processo que dura até 15 dias: 'A inspiração acontece' (Fotos: Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
O escultor Lourenço usa argila para fazer suas peças, em um processo que dura até 15 dias: "A inspiração acontece"

Foi brincando com o barro na casa de Dona Vilu, uma escultora amiga da família, que Sebastião Lourenço Silva tomou gosto pela arte. Hoje, Lourenço, como é conhecido em Olhos D'Água, mantém um ateliê em sua casa, onde produz e vende peças em argila, como uma grande de São Francisco de Assis, comercializada a R$ 150. O processo de produção dura quase 15 dias. A escultura da mulata segurando uma galinha que faz as vezes de floreira custa R$ 55. “Não tenho compromisso com a identidade da peça. A inspiração acontece”, diz.


A cerca de 100 metros do ateliê de Lourenço, Maria Araújo da Silva, a Dona Nêga, chega a chorar ao falar de seu trabalho. Aos 76 anos, é a bonequeira mais conhecida do lugar .“Eu fazia bonecas para minhas meninas brincarem. Em 1974, participei da Feira do Troca e vi que podia vender”, conta. Questionada sobre como ela dá vida às bonecas com vestidos de cores diversas, que remetem à mulher do campo, ela responde, com simplicidade: “Ué, é de cabeça mesmo”. Dona Nêga aproveita o retalho de algodão para fazer o corpo e os vestidos. Os preços de suas obras variam de R$ 3 a R$ 10. A paixão pela arte foi herdada da mãe, Dona Regina: “Eu fico fazendo assim e lembrando de minha mãe. Ela ficava perto de mim e falava que a minha tinha ficado melhor que a dela. Colocava nome nas bonecas todas”, conta. A fidelidade a um estilo próprio e à identidade goiana são as marcas de seu trabalho.

 Dona Nêga é a bonequeira mais conhecida da região, e sua arte é acessível: os preços 
variam de R$ 3 a R$ 10 (Fotos: Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
Dona Nêga é a bonequeira mais conhecida da região, e sua arte é acessível: os preços variam de R$ 3 a R$ 10

No fundo da casa de Madalena Conceição Alves Magalhães, uma máquina rústica de tear dá forma a um tapete multicolorido. Faxineira da escola de Olhos D'Água, ela é autodidata. “Vi uma amiga tecer e aprendi a fazer sozinha, em 1986”, afirma. “Eu trabalho por encomenda e sempre vendo minhas coisas só por aqui mesmo.”


As peças que mais saem são os móbiles de bruxa, de saci, de bailarinas e de violeiros, todas elas criações próprias, comercializadas a R$ 35. Os tapetes, feitos com barbante soberano, são vendidos a R$ 15. Madalena ensinou vários tecelões do vilarejo, algo que ela diz ter sido “gratificante”.

O casal Paulo Sérgio e Ana Isabel, do restaurante ComTradição: resgate da forma tradicional 
de preparar os alimentos (Fotos: Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
O casal Paulo Sérgio e Ana Isabel, do restaurante ComTradição: resgate da forma tradicional de preparar os alimentos

João Rodrigues, apelidado de Nequete, trocou a dura lida na lavoura pela marcenaria em Olhos D'Água. Diante de uma imensa mesa em formato de carro de boi, vendida a R$ 1.600, ele conta que se especializou em restauração e em utilizar peças antigas para recriá-las em forma de móveis. Uma cadeira de balanço estilizada sai por apenas R$ 200. Apesar de não ter o propósito comercial, o ex-bombeiro Gumercindo Quintão, uma das figuras mais folclóricas do vilarejo, também é um artista. Basta perceber a roda de bicicleta que “brota” da parede de sua casa ou as rodas d’água transformadas em janelas. No quintal, ele reforma uma ambulância ano 1938, que foi usada durante a Batalha de Monte Castello, na Segunda Guerra Mundial. O homem que plantou mais de 1.400 árvores em Olhos D'Água tem um sonho: reformar a ambulância, torná-la um motor home e sair mundo afora.

Madalena Conceição é autodidata e, por suas mãos, belos tapetes ganham forma: 
'Vi uma amiga tecer e aprendi a fazer sozinha', conta (Fotos: Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
Madalena Conceição é autodidata e, por suas mãos, belos tapetes ganham forma: "Vi uma amiga tecer e aprendi a fazer sozinha", conta

João Rodrigues, o Nequete, é especializado em restauração e em utilizar 
peças antigas para recriá-las em forma de móveis (Fotos: Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
João Rodrigues, o Nequete, é
especializado em restauração e em
utilizar peças antigas para recriá-las
em forma de móveis
Para comer e dormir, as dicas são fáceis, pois há poucas opções, de fato. Uma delas é oferecida por Edelvais Jeker, dona da pousada Coisas de Olhos. Em uma casa charmosa e aconchegante, as diárias saem por R$ 100 com café da manhã. Mais que uma pousada, ela tem ali um centro cultural, vende sua própria arte – peças em madeira, estandartes de santos e vasos de suculentas – e expõe as obras dos artistas do vilarejo. O quintal é um convite ao deleite, com um jardim e uma cama verde instalada à sombra de uma árvore. Segundo Edelvais, para admirar as estrelas.


Basta atravessar a rua e dar mais alguns passos para chegar ao ComTradição Restaurante, Galeria e Bistrô. A casa é fiel ao estilo rústico. Uma parede reproduz, inclusive, o adobe e os móveis coloniais. Não menos surpreendente é a gastronomia praticada pelo casal Paulo Sérgio Barbosa e Ana Isabel Nunes Barbosa. “Procuramos resgatar a forma tradicional de preparo dos alimentos feitos pelos portugueses, indígenas e negros. Evitamos o uso de alimentos industrializados e a comida leva até oito horas para ficar pronta, em um cozimento lento no fogão a lenha", explica Paulo Sérgio, proprietário, que também é o chef de cozinha. O carro-chefe do ComTradição é o barreado, preparado com carne de porco, de vaca ou galinha caipira. Custa R$ 50, e o cliente pode se servir à vontade.

 

Feira do Troca

 (Fotos: Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
 

A comunidade de Olhos D'Água se mobiliza com vários meses de antecedência para a Feira do Troca. Moradores de Brasília e de outras cidades costumam prestigiar o evento, durante o qual são trocados produtos da cidade, como roupas e utensílios domésticos bons, por artesanato.


“Na 79ª edição, que ocorre entre 31 de maio e 2 de junho, nós pretendemos resgatar a nossa feira. Será um resgate da música, da comida e do artesanato. Teremos shows com músicas de raiz, vamos valorizar os produtos da roça e montar um rancho de biscoitos antigos e de comida típica”, conta a artesã Fatinha, secretária de Cultura e Turismo de Alexânia.


Haverá atrações inclusive para crianças e oficinas de fiandeiras, tecelãs, cerâmica, bordados e trabalhos em palha. A Feira do Troca acontece sempre nos primeiros domingos de junho e de dezembro.
 

Quando Drummond citou Olhos D'Água

 (Minervino Júnior / Encontro / DA Press)

“Anunciada de casa em casa, e depois de grande expectativa, realizou-se a feira. Como o nome indicava, não era preciso dinheiro para obter qualquer coisa. Bastava trazer um objeto feito pelo próprio morador, e a compra se fazia em termos de permuta. Um tear feito a canivete foi barganhado por um terno completo e um par de calçados. Outro artista achou colocação para a sua escultura em madeira representando a cena hoje quase impossível de se ver: dois homens serrando uma tora com grupião, para fazer tábuas. Esgotada a produção artesanal, os locais passaram a oferecer ovos e galinhas: fim de feira e festa. Uma mulher muda exprimiu sua alegria com sinais, pedindo um beijo.”

 

Carlos Drummond de Andrade, em artigo publicado pelo  Jornal do Brasil, em 21 de janeiro de 1975

 

Gumercindo Quintão, uma das figuras mais folclóricas de Olhos D'Água, também é artista: 
uma roda de bicicleta 'brota' da parede de sua casa
 (Fotos: Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
Gumercindo Quintão, uma das figuras mais folclóricas de Olhos D'Água, também é artista: uma roda de bicicleta "brota" da parede de sua casa
 

COMO CHEGAR

 

Siga pela BR-060 (Brasília-Goiânia) e dirija 87 km até chegar a Alexânia. Vá até a avenida 15 de Novembro e vire na Presidente Juscelino. Em seguida, à esquerda, vá em frente até chegar à Rodovia GO-139. Siga cerca de 10 km até a rotatória. Vire à esquerda e dirija por mais 4 km.

 

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017