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ENTREVISTA | WAGNER BARJA »

Uma cultura 360 graus

Diretor do Museu Nacional critica a "editalização" dos projetos culturais e defende que o critério de seleção seja baseado na qualidade das obras: "Burocraria e arte não combinam"

Gustavo T. Falleiros - Redação Publicação:09/05/2013 15:20Atualização:09/05/2013 15:54

'O Estado tem por premissa dar acesso. Agora, não se pode contemplar um artista que não tem mérito. Afinal, alguém está pondo o seu CPF embaixo daquilo e é dinheiro público' (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
"O Estado tem por premissa dar acesso.
Agora, não se pode contemplar um
artista que não tem mérito.
Afinal, alguém está pondo o seu CPF
embaixo daquilo e é dinheiro
público"
Wagner Barja está aberto ao diálogo e não tem medo da entropia, da deriva – o que importa é o prumo do barco. Essas habilidades fazem dele a figura certa para tocar a grande oca plantada no miolo de Brasília, entre a Catedral e a Rodoviária. O Museu Nacional do Conjunto Cultural da República veio ao mundo nu e vazio, em 15 de dezembro de 2006 (aniversário de 99 anos de Oscar Niemeyer).
Como diretor e curador, Barja soube preencher o lugar com sonhos e arte.


Aos poucos, a população tomou gosto e fez do complexo uma praça de verdade, um monumento ao calor humano. Como isso aconteceu, ele mesmo explica nesta entrevista concedida em dois momentos. No primeiro, recebeu a reportagem em seu gabinete, sentado sob imponentes serigrafias de Rubem Valetim. “Isso aqui é uma proteção, é o meu congado.”


O segundo encontro foi no aconchego do lar, sob os olhos fiéis do cão Simbá e à base de café e pães de queijo, cigarro de palha entre os dedos. A prosa atravessou a tarde e terminou em lusco-lusco, na indeterminação entre o dia e a noite – imagem que muito agrada o Wagner artista.

O museu começou para valer em 2007. Já é um tempo...


Parece até que sou vitalício.

Qual perfil de museu o senhor idealizou quando assumiu?


É um museu de arte contemporânea. Que assume, em seu programa museológico, uma matriz de tipologia modernista em transição para o contemporâneo. Nós já temos a coleção (500 obras) incorporada ao patrimônio. E temos um programa de exposições que funciona muito bem. Agora mesmo está em exibição a coleção do MAB (Museu de Arte de Brasília), cujas obras estão sob a guarda do Museu Nacional. Não há uma sala fixa para exposições do acervo, mas isso não quer dizer que não seja posto a público pelo menos duas vezes ao ano e com curadorias diferenciadas. Isso traz uma dinâmica, oferecendo ao público vários recortes. Justamente por falta de outros equipamentos públicos, a demanda pelo espaço é muito grande. São muitas as exposições temporárias na agenda anual.

E qual é a peneira das exposições temporárias?


É a qualidade, sempre.


E a produção local, sustenta essa renovação?


Acho que Brasília cresceu muito em termos de produção artística. Hoje, nós nos equiparamos aos grandes centros culturais, como Rio e São Paulo. Guardadas as devidas proporções, Brasília tem um plantel de artistas bastante expressivo. Este ano, estou sentindo uma certa dificuldade na pauta (para exibir essa produção), mas daremos um jeito.

Dificuldade de agenda?


De agenda mesmo. Nossa política expositiva tenta contemplar essa produção e tirá-la da falta de espaços. Embora essa produção seja qualificada, falta espaço para ela se projetar aqui, na cidade. Não só o MAB, mas a Galeria Athos Bulcão – todos passando por reforma. A própria CAL (Casa de Cultura da América Latina), da UnB, que era um espaço muito proativo, também fechou por um período e agora vai reabrir. Estamos agora na expectativa da reabertura e da reforma desses espaços.


Passamos por uma entressafra?


Um compasso de espera. Eu não diria entressafra porque a produção não parou. Nós temos outros espaços culturais, como o CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), a Caixa Cultural, o Museu dos Correios, o Espaço Cultural Marcantonio Vilaça (no TCU), a própria Câmara dos Deputados e os shoppings. Mas é uma cidade que depende muito do poder público para funcionar. A iniciativa privada ainda não é ativa como em outros centros.

'A universidade precisava ser mais cidade, menos academia, enfim, se projetar 
mais na cidade' (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
"A universidade precisava ser mais cidade, menos academia, enfim, se projetar mais na cidade"

E o senhor credita isso a quê?


À falta de informação mesmo, de que a arte é um componente importante para a construção da sociedade.

O Museu Nacional foi recebido de braços abertos pelo brasiliense, não?


Considero que essa dinâmica se deve à centralidade do museu na cidade, à acessibilidade – nós estamos do lado da Rodoviária. E é um museu que não cobra ingressos. Que está em um espaço popular e não deixa de abrigar exposições de alto nível. Entendemos que temos de fazer o melhor para essa população toda. E uma das coisas que nos comove é poder atender a esse público. Calculo que 80% vêm das cidades satélites. É um museu que não trabalha com roleta para limitar a visitação das pessoas.

Interessante que a curadoria não indica uma ânsia de ser popular…


Acho que popular e erudito é uma separação inexistente. Tanto faz eu mostrar um produto de alto alcance popular quanto um de alto hermetismo, erudição, que vai ser assimilado do mesmo jeito.

Qual foi o maior sucesso de público?


A exposição do mestre Lucio Costa. Embora outras também tenham alcançado grande êxito. Mas Lucio Costa teve 110 mil pessoas em um período de dois meses e meio, então foi um recorde.

E o destaque deste ano?


Tem a exposição do Gilberto Gil (Gil70), que ficou em cartaz até 28 de abril. Não era uma retrospectiva, mas uma antologia da obra dele. Foi um cara que ajudou muito este museu no início. À época, ele era ministro no governo Lula, e eu pude participar muito da construção do programa cultural como representante eleito dos artistas plásticos (nas câmaras setoriais). Isso me deu uma segurança muito grande para assumir – eu tinha apoio do ministro para quebrar essa pedreira.


Qual foi o maior obstáculo enfrentado?


A ignorância. As pessoas ignoram que esse é um equipamento que já foi assimilado pela cidade. Alguns segmentos da elite ainda não entenderam o que é esse museu, o que ele representa para a cidade.

Como o senhor se tornou curador?


Nem sei responder. As coisas acontecem, às vezes, de uma forma muito acidental. Acho que o curador que não entende o artista é como o advogado que não atende o cliente. De uma certa forma, a curadoria ajudou a sedimentar o artista e vice-versa. Um gestor, um diretor de museu, não precisa ser necessariamente um artista. Um casal não precisa estar necessariamente apaixonado para se casar. Mas, se isso acontecer, é bem melhor.

'O curador que não entende o artista é como o advogado que não atende o cliente' (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
"O curador que não entende o artista é como o advogado que não atende o cliente"

Qual é a intersecção entre o olhar pessoal e os critérios da instituição?


É muito sutil. Se não ouvirmos as pessoas, não conseguimos fazer um bom trabalho. É preciso escutar com os olhos, o que é uma coisa muito difícil.

Vamos falar do lado artista...


Tenho muita relação com a palavra, com as artes gráficas, com o cinema. “Ah, esse cara é louco, joga em todas as posições.” Mas essa é uma espécie de personalidade artística muito comum na minha geração. O importante é que você se reconheça naquilo que faz. Não preciso ir ao ateliê todo dia para provar a mim mesmo que sou artista. Acho que consegui ultrapassar essa barreira. Quando faço uma curadoria, continuo no campo da criação. Nunca me senti excluído por isso. Pelo contrário, só me dá mais gás.

Quem foi o seu mestre?


Eu fui aluno do Rubem Valentim (gravador, pintor, escultor baiano). Ele me ensinou a ter um pouco de disciplina. Eu tive grandes mestres. Teve o Aluísio Carvão (pintor, escultor, cenógrafo), que é um paraense, uma referência fantástica. A Katie van Scherpenberg (artista plástica paulista) também...

Quando foi isso?


Nos anos 1980, no Rio.

Quando o senhor veio em definitivo?


Eu vim várias vezes. A última foi em 1989 fazer a campanha de revitalização do Espaço Cultural da 508 Sul, a convite da então secretária de Cultura Laís Fontoura Aderne. Ali é um espaço muito importante porque está ligado à formação da produção local. Existe uma transversalidade mesmo – a arquitetura foi feita para as artes conversarem: a dança, a música, o teatro, as artes plásticas. Aquilo é um espaço de experimentação. Mas a experimentação acabou hoje. Hoje tudo é projeto, tudo é edital. Nós precisamos revitalizar essa alma. Onde está a experimentação hoje?

Na universidade?


A universidade precisava ser mais cidade, menos academia, enfim, projetar-se mais na cidade. Os egressos da universidade no campo das artes são muito talentosos, mas não têm o espaço necessário para se projetar de uma forma satisfatória.

Para isso existem os fundos de apoio?


A Secretaria (de Cultura) realmente avançou muito nesse sentido. Há relevância na descentralização dos recursos, que estão sendo distribuídos em todo o DF. Existe recurso e não há mais aquele gargalo – hoje, se o dinheiro não é gasto, fica para o ano que vem. Antes, tinha de ser devolvido. É muito importante poder usufruir desse fundo, mas as regras poderiam ser mudadas. Porque arte e burocracia são duas coisas que não combinam. Isso cria dentro da cadeia produtiva outro profissional importante, que é o produtor, para assumir esse lado burocrático. Penso que a cultura dos editais poderia também dar vez à meritocracia. Nem sempre o grande artista sabe colocar o projeto no papel.

Os editais não deveriam servir ao artista em formação?


A política cultural precisa ter 360 graus. Acho que todos deveriam ter acesso na própria medida de suas capacidades.

Os editais interferem no conteúdo dos produtos culturais?


Tudo o que está em desequilíbrio precisa ser mudado. A “editalização” cria, sim, uma retranca. Não dá para ter um time com Neymar, Pelé e Garrincha na retranca – os caras iriam enlouquecer. O Estado tem por premissa dar acesso. Agora, não se pode contemplar um artista que não tem mérito. Afinal, alguém está pondo o seu CPF embaixo daquilo, e é dinheiro público. Então, o juízo sobre essas escolhas é que tem de ser mudado. Não adianta, por exemplo, ter um bom prêmio de incentivo às artes se não há um bom júri. E, hoje, o ajuizamento das coisas vai muito pelo detalhe burocrático.

Voltando ao assunto Brasília. Como surgiu esse namoro com a cidade?


Não sei. Vem desde garoto. Brasília estava para o carioca como se fosse a lua. Eu lembro que vim pela primeira vez aos 10 anos. Foi uma cidade que realmente revolucionou, mudou o status quo do Brasil, interiorizou o país – a nossa periferia antes estava no centro. Foi realmente muito importante em termos de uma nação latino-americana, pois temos essa centralidade continental. E nos deu essa noção de um Estado forte – Estado forte não é aquele que oprime, é o que liberta as pessoas nos seus direitos.

O senhor certa vez disse: “Nós temos tudo na mão, é só colocar gente inteligente para fazer”...


Sabe o que eu queria dizer? As pessoas começaram a fazer política profissionalmente sem a prévia estrutura cultural. E Brasília nasce de um fenômeno cultural, de um diálogo com o mundo. A audácia da arquitetura e do urbanismo vem de um projeto social, não vem do nada. E ainda enxergam Brasília como uma coisa formalista, platônica. Lucio Costa já era Lucio Costa antes de Brasília, entende? Não foi à toa que ele ganhou o concurso. Ele já tinha sido protagonista do Salão de 1931 (a 38ª Exposição Geral de Belas Artes, também chamada de Salão Revolucionário) no Rio de Janeiro. Essa geração mudou o paradigma. Nós temos a responsabilidade de manter a chama acesa, e não ficar só no projeto formalista. Quando eu falo que nós temos tudo na mão, penso em Anísio Teixeira, em Paulo Freire (ambos educadores). Temos onde beber – temos fontes inesgotáveis de pensamento contemporâneo. Os nossos ídolos ainda são os mesmos. E as aparências não enganam – a música do Belchior fala tudo.

Mas e a dimensão utópica da cidade? Essa permanece?


Depende. A utopia de uns pode não ser a de outros. A utopia de um cara que mora numa cidade de IDH baixo pode não ser a de quem mora no Plano Piloto. Utopia é questão de consenso. Brasília é vista muito pelo ângulo da estética, mas tudo o que é estético em Brasília está relacionado a uma realidade social-democrata de urbanismo, uma visão do Lucio Costa. Quando ele cria o Congresso, há uma escala – o gabarito do Congresso tem um conceito, a Casa do Povo tinha de estar mais alta (do que o Senado, que representa os Estados). Mas as pessoas não interpretaram esses conceitos. Por isso que eu digo: está tudo dado, com régua e compasso. Os cálculos de Joaquim Cardozo... A ousadia, a audácia já está calculada. Brasília surge num momento em que as cabeças eram realmente pensantes, pena que isso não perdure.

 

 (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
QUEM É

 

Wagner Pacheco Barja
60 anos
Casado com Maria Gorette Azevedo Barja, 5 filhos


ORIGEM
Rio de Janeiro (RJ)


FORMAÇÃO

Artista plástico e curador

Tem mestrado em arte e tecnologias da imagem pela Universidade
de Brasília (UnB)

É notório saber em plástica, teoria, história da arte e arte-educação
pelo Conselho Superior de Educação do MEC


CARREIRA
É membro do Conselho Nacional
de Políticas Culturais do Ministério
da Cultura (MinC) e representante nacional da Câmara Setorial
de Artes Visuais

Foi coordenador pedagógico da Casa de Cultura da América Latina – CAL/UnB (2000-2004) e diretor do Espaço Cultural da 508 Sul (1997-2000)

Dirige o Museu Nacional do Conjunto Cultural da República desde o início de suas atividades, em 2007

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017