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Donos da bola

A proximidade das copas das Confederações e do Mundo trouxe o futebol para o centro das atenções em Brasília. Mas os gramados sempre atraíram os políticos: dos 12 times do Candangão, cinco têm como cartolas ex-donos de cargos no Executivo e Legislativo ou pessoas próximas a autoridades

Ana Maria Campos - Lilian Taham - Publicação:09/05/2013 16:29Atualização:09/05/2013 16:43

Administrador regional de Ceilândia, Ari de Almeida: 'Foi no esporte na Ceilândia que ganhei projeção e respeito para fazer política' (Kleber Lima/CB/D.A Press)
Administrador regional de Ceilândia, Ari de Almeida: 'Foi no esporte na Ceilândia que ganhei projeção e respeito para fazer política"
 

“Vamos ganhar essa Copa!” Assim o governador Agnelo Queiroz (PT) e o empresário Paulo Octávio (DEM), ex-vice-governador do DF, encerraram em coro o evento de abertura da exposição JK e o Brasil Campeão, durante as comemorações do aniversário de 53 anos da capital. Mais do que um encontro protocolar entre dois ex-adversários, a cerimônia de inauguração, no Memorial JK, do acervo sobre a Copa do Mundo de 1958 na Suécia representou uma aproximação política que pode levar a uma aliança nas eleições de 2014.


Em times opostos na disputa de 2010, ambos enalteceram a figura “péquente” do ex-presidente Juscelino Kubitschek, em cujo mandato a seleção brasileira trouxe pela primeira vez a taça Jules Rimet para o país, enquanto a nova capital era construída no Planalto Central. Foi um passo para estarem no mesmo time no próximo ano. Não só na torcida pela seleção de Felipão. Paulo Octávio sonha voltar à cena política com um mandato parlamentar, provavelmente de deputado distrital.


Em toda a história do DF, nunca a bola esteve de forma tão presente no campo da política. Às vésperas da Copa do Mundo, Brasília se tornou a capital do futebol. O Estádio Nacional Mané Garrincha é a menina dos olhos do governador Agnelo Queiroz (PT), projeto que mais recebe recursos do orçamento do DF, como incentivo para exibir a cidade a investidores internacionais, criar empregos, renda e gerar impostos.


O Mané Garrincha é um monumento que vai marcar a década e o mandato de Agnelo, como a Ponte JK fez história nos tempos rorizistas. Para o governador, ministro do Esporte de Lula entre 2003 e 2006, a capital vive um momento de euforia com o futebol, como a era da construção da capital. “A partir da inauguração do estádio, Brasília vai brilhar na Copa e vamos trazer mais desenvolvimento e mais qualidade de vida para o DF”, acredita Agnelo.


A euforia com o mundo esportivo, a construção de uma arena para 72 mil torcedores e a proximidade da Copa das Confederações e da Copa do Mundo de 2014 contaminaram os gabinetes acarpetados. Hoje, o DF tem apenas um representante no Campeonato Brasileiro de Futebol – na terceira divisão. O Brasiliense Futebol Clube, comandado pelo ex-senador Luiz Estevão, está na série C. Mesmo assim, o esporte tem prestígio.


Dos 12 times que disputam o campeonato do DF, batizado de Candangão, pelo menos cinco têm entre seus cartolas autoridades públicas ou ex-donos de cargos no Executivo e Legislativo. Com participação garantida na final do campeonato, o Brasília Futebol Clube foi comprado por Luís Carlos Alcoforado, advogado e amigo de Agnelo.

Conselheiro do Tribunal de Contas do DF, Paulo Tadeu tem história no Sobradinho: ele e o irmão, Ricardo Vale, cartola do time e secretário-adjunto de governo, foram jogadores (Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Conselheiro do Tribunal de Contas do DF, Paulo Tadeu tem história no Sobradinho: ele e o irmão, Ricardo Vale, cartola do time e secretário-adjunto de governo, foram jogadores

O clube venceu o primeiro turno no Candangão e ganhou a chance de disputar a partida mais importante de encerramento do torneio, em 18 de maio, estreia do gramado do Mané Garrincha. Se, de um lado, haverá torcida petista, é possível que do outro também haja bandeiras vermelhas. Entre os bem colocados na competição estão o Sobradinho Esporte Clube, que tem como presidente o secretário-adjunto de Governo do DF, Ricardo Vale.


Tanto o presidente do clube quanto o irmão, Paulo Tadeu, hoje conselheiro do Tribunal de Contas do DF, têm história no Sobradinho. Ambos foram jogadores. Na década de 1980, Ricardo era atacante. Paulo Tadeu era meia-direita. Na adolescência, eles jogavam bola e militavam no PT. Hoje, no banco da política, depois de abrir mão do mandato de deputado federal, Paulo Tadeu pode ser substituído em campo pelo irmão, que tem sido incentivado a concorrer a um mandato de deputado distrital. “O Ricardo teve uma aproximação forte com o time quando foi diretor de esportes da administração regional de Sobradinho no governo Cristovam, entre 1995 e 1998”, conta Paulo Tadeu. Torcedor fanático do Corinthians, o conselheiro do Tribunal de Contas diz que também é apaixonado pelo clube que tem origem na cidade em que nasceu. “Meu coração é dividido em dois”, brinca.


Para evitar que todo esse amor vire um escândalo, Paulo Tadeu diz que seu irmão não aceita patrocínios com recursos públicos, mesmo os oferecidos pelo Banco de Brasília (BRB) para todos os times da primeira divisão do Candangão. “Só há ajuda privada. O Sobradinho tem um apoio grande do Uniceub, com uma diretoria experiente com o esporte pelo sucesso do basquete da universidade”, afirma.


No Ceilândia Esporte Clube, vencedor do Candangão 2012, a ligação com o PT também é evidente. Um dos cartolas do time, Ari de Almeida integra uma corrente independente do PT, porém influente no partido que está no poder no DF. Licenciado do cargo de secretário-geral do PT-DF, ele é administrador regional da Ceilândia.

Ari atua no time ao lado de um dos dirigentes, José Beni, presidente do Conselho Deliberativo do Ceilândia, que deixou o PT pelo PDT em 2005 junto com o senador Cristovam Buarque (DF). “Foi no esporte na Ceilândia que ganhei projeção e respeito para fazer política”, afirma Ari de Almeida.


No futebol e no poder no DF, há petistas por toda parte. Assessor do presidente da Câmara Legislativa, Wasny de Roure (PT), Erivaldo Alves é vice-presidente da Federação Brasiliense de Futebol (FBF). Número dois também no comando do PT-DF, Erivaldo, dirigente do Santa Maria Esporte Clube, teve o apoio disputado como bola dividida na eleição da FBF em setembro do ano passado, quando o meio político participou em peso das campanhas. Vice da chapa adversária, Erivaldo acabou pulando para o grupo que saiu vencedor, encabeçado pelo peemedebista Jozafá Dantas.


Advogado do PMDB e membro da executiva regional do partido, Jozafá concorreu num Fla X Flu com o empresário Eduardo Pedrosa, filiado ao PSD. Irmão da deputada distrital Eliana Pedrosa (PSD), ele perdeu por uma diferença pequena de votos, graças à anulação de uma procuração em favor de um cartola. Por causa do empenho pessoal de Agnelo na vitória de Jozafá, que impôs uma derrota ao irmão da oposicionista Eliana Pedrosa, muita gente considerou que a batalha refletiu no mundo do futebol uma divisão da política.


Antigo aliado de Roriz, com quem Agnelo duelou na campanha de 2010, Luiz Estevão também foi um eleitor perseguido na eleição da Federação Brasiliense de Futebol, como dirigente do Brasiliense e pela influência que exerce no comando do Samambaia Esporte Clube. Nesse embate, Estevão jogou no time de Agnelo para eleger Jozafá Dantas, com quem bate uma bola há muito tempo.

 

Luiz Estevão

Empresário

Dono do Brasiliense

O empresário e ex-senador Luiz Estevão, que saiu da política para os gramados: 'Nasci dentro do futebol' (Janine Moraes/CB/D.A Press)
O empresário e ex-senador Luiz Estevão, que saiu da política para os gramados: "Nasci dentro do futebol"

Foi por influência familiar que Luiz Estevão, hoje dono do Brasiliense, se aproximou do futebol. Em 1917, o avô do ex-senador foi diretor do Clube do Remo, no Pará. Entre 1928 e 1930, o pai dele, Luiz Octávio Estevão, atuou como goleiro do Fluminense. O tio Mário Estevão também jogou no time carioca. Era ponta-esquerda, de 1946 a 1947.
O pai de Luiz Estevão ainda exerceu funções de direção no clube e o próprio empresário chegou à vice-presidência da CBF, no início dos anos 1990. “Nasci dentro do futebol”, conta Estevão, para quem lidar com a gestão do futebol no DF sempre foi um desafio: “O futebol nasceu no final do século XIX e durante 70 anos, quando Brasília surgiu, quem gostava de futebol já havia se afeiçoado por outros times, os jogos já eram transmitidos pela tevê, então o futebol local sempre teve de brigar por espaço e público”.


Embora sem tradição nos campeonatos nacionais, Brasília, como acredita Luiz Estevão, é um celeiro para formar bons jogadores. Ele cita Kaká e Lúcio como  exemplos. Depois de se envolver no escândalo do TRT de São Paulo, motivo pelo qual foi condenado a pouco mais de três décadas de prisão, Luiz Estevão deixou a política. Teve o mandato de senador cassado em 2000 e voltou-se para suas empresas e para a gestão do Brasiliense.


Mas, também nesse campo, o empresário sofreu acusações. Em março do ano passado, o Ministério Público Federal ofereceu denúncia contra o ex-senador pela suposta prática de crime de lavagem de dinheiro, por intermédio de seu time. Na época, o empresário reagiu às acusações classificando o episódio como “despropositado” e “fantasioso”.

 

Luís Carlos Alcoforado

Advogado

Dono do Brasília

O advogado Alcoforado, com o ex-goleiro Serjão durante eleição da federação de futebol 
de Brasília: há dois anos no comando do Brasília (Iano Andrade/CB/D.A Press)
O advogado Alcoforado, com o ex-goleiro Serjão durante eleição da federação de futebol de Brasília: há dois anos no comando do Brasília

“Queria mesmo é ser jogador, mas Deus não me deu talento”, lamenta o advogado Luís Carlos Alcoforado. Mas, se ele não interagiu com o esporte pela porta do gramado, encontrou outros caminhos. Aos 13 anos, fez suas primeiras participações como radialista. Seu sonho era seguir a carreira do pai, mas foi desencorajado pelo próprio genitor a se tornar um jornalista desportivo, que desejava um futuro mais promissor para o filho. “Não consegui ser jogador, não consegui ser radialista, me sobrou ser cartola, sempre quis ter um time de futebol”, conta Alcoforado, que hoje é dono do Brasília.


Alcoforado está no comando do time candango há quase dois anos. Ele aposta que todo clube de futebol pode ser uma grande fonte de receita se houver boa gestão. Considera que, para chegar lá, o segredo é investir na base para colher no futuro. “É preciso formar seus próprios jogadores, nos times infantil, juvenil e juniores, dar a pedagogia futebolística”, acredita o cartola.


Campeão da Copa JK, primeiro turno do campeonato candango, série D, Alcoforado planeja subir um degrau na escada alfabética do futebol a cada ano e chegar, quem sabe, à elite do futebol. “É preciso acreditar em nosso potencial humano, temos excelentes jogadores em potencial. Se soubermos trabalhar esse talento, podemos chegar sim à série A”, confia.


Para o dono do Brasília, a capital federal nunca viveu um momento no qual esteve tão próxima do futebol. Na visão do cartola, a cidade entrou em um círculo virtuoso com a aproximação das copas das Confederações, em junho, e do Mundo, no ano que vem. “Brasília passa a ser um centro de irradiação, onde serão feitos grandes investimentos. Ter a imagem vinculada ao bom futebol é fundamental para a economia globalizada, grandes marcas investem em futebol”, constata o advogado.

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017