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Cultura | Artes Plásticas »

O artista dentro do cangaceiro

Faceta pouco conhecida do cineasta Vladimir Carvalho, o trabalho com escultura e xilogravura revela outros talentos. Em breve, suas obras serão expostas

Severino Francisco - Publicação:13/05/2013 16:25Atualização:13/05/2013 17:12

Vladimir Carvalho: o trabalho com esculturas e xilogravuras não é tão conhecido (Raimundo Sampaio/ Encontro/ DA Press)
Vladimir Carvalho: o trabalho
com esculturas e xilogravuras
não é tão conhecido
Vladimir Carvalho é diretor de alguns documentários clássicos sobre a história de Brasília e do Brasil: Conterrâneos Velhos de Guerra, Barra 68, Rock Brasília – A Era de Ouro, A Bolandeira e O Engenho de Zé Lins (sobre o escritor José Lins do Rego), entre outros. Fazer cinema no Brasil não é fácil e cada filme se transforma em uma batalha épica, que Vladimir enfrenta com a tenacidade de cangaceiro paraibano. Com sua fé no cinema, ele é capaz de filmar a trajetória de um personagem durante 15 anos e mover montanhas de entraves. O que só os amigos íntimos sabem é que, para recuperar as energias, Vladimir se dedica a desenhar, pintar, gravar, entalhar e, sobretudo, esculpir. Ou seja: dentro do cineasta há um artista plástico.


De qualquer pedaço de madeira abandonado, ele arranca pungentes figuras de São Francisco, São Miguel, Jesus Cristo, Nossa Senhora, Dom Quixote, Sancho Pança, Antônio Conselheiro, beatos, Lampião, Maria Bonita e Corisco, provocando o espanto diante da beleza que só os verdadeiros artistas conseguem suscitar: “Mas tem certeza de que foi você mesmo quem fez estas esculturas?”, indagou, de olhos arregalados, incrédulo, ferido pela beleza, Caetano Veloso, colega de Vladimir no curso de filosofia em Salvador, nos anos 1960. Em um debate no Centro Cultural Banco do Brasil, Vladimir levou algumas esculturas de Antônio Conselheiro, dos beatos e de cangaceiros, como se fossem personagens de Deus e o Diabo na Terra do Sol, filme em que o ator Othon Bastos fez uma interpretação antológica do Corisco: “Não é possível, esse cangaceiro sou eu?”, indagou Othon Bastos.
Mas, se quisermos conhecer um pouco dessa faceta de Vladimir temos de evocar, inapelavelmente, a figura do seu pai, Luis Carvalho, um paraibano de Itabiana, mistura desconcertante do visionarismo de Dom Quixote com um certo senso pragmático empreendedor de Sancho Pança. Luis Carvalho ou Lula, para os íntimos, era jornalista, ilustrador, cinéfilo, entalhador, pintor, inventor, dono de uma fábrica de móveis e esquadrias e escultor: “A minha infância recendia a cedro”, lembra Vladimir, pois o pai sempre estava entalhando ou extraindo algum personagem da madeira.

O cinema e as artes plásticas: Vladimir herdou os talentos múltiplos do pai (Raimundo Sampaio/ Encontro/ DA Press)
O cinema e as artes plásticas: Vladimir herdou os talentos múltiplos do pai

Luis Carvalho só cursou o ginásio, mas tinha muitas luzes. Gostava muito de desenhar folguedos populares nordestinos. Comunista e independente, bateu cabeça, mas nunca aceitou trabalhar como empregado de ninguém: “A única coisa que ele deixou foi uma casa hipotecada”, conta Vladimir. É uma forma de dizer, pois, na verdade, o mestre Lula deixou um rico legado de imaginação, humanismo e gosto pela arte.


Certo dia, um amigo empresário, dono de uma fábrica de conhaque em estado de falência, o procurou desesperado em busca de ajuda: “Você, que é cheio de ideias, me ajuda a sair dessa”. Lula pegou uma revista Life, extraiu as figuras de um negro que se insinuava para uma bela negra e bolou um rótulo. Resultado: as vendas do conhaque explodiram e o amigo foi salvo da bancarrota. Durante as festas de São João, Luis editava um jornalzinho chamado O Balão, em que as seções editoriais eram divididas por cores diferenciadas, com 100 exemplares em azul, verde, vermelho ou amarelo. Em uma delas, Vladimir escreveu o seu primeiro artigo, em 1947, sobre os repentistas nordestinos.

De qualquer pedaço de madeira, uma obra de arte:  'O meu traço é bruto, ríspido e rústico, mas não é de formação' (Raimundo Sampaio/ Encontro/ DA Press)
De qualquer pedaço de madeira, uma obra de arte: "O meu traço é bruto, ríspido e rústico, mas não é de formação"

Luis Carvalho morreu, inesperadamente, aos 49 anos, quando Vladimir tinha 14 e seu irmão, o futuro fotógrafo e diretor de cinema Walter Carvalho, 1 ano. Foi um golpe: “Eu estava no auge da minha admiração e o Waltinho conheceu nosso pai pelos meus olhos”.
A revelação da expressão plástica irrompeu na vida de Vladimir da maneira mais inesperada. Em 1964, estava com o cineasta Eduardo Coutinho nas filmagens do documentário Cabra Marcado para Morrer quando estourou o golpe militar. Todos fugiram. Ele levou Dona Elisabeth e os filhos, personagens do filme, para o Rio e se refugiou em um sítio próximo a Campina Grande. Atravessava os dias sem atividade e, ao descobrir uma árvore de cajá e tábuas de cedro, para não enlouquecer, começou a esculpir santos. Ele mesmo ficava admirado com a capacidade de desentranhar personagens míticos da madeira. Na época, um parente que trabalhava na Aeronaútica foi até os arquivos da corporação, maquiou uma foto de Vladimir e ele passou a circular com a carteira falsa e o nome de José dos Santos: “Se eu for lá, o pessoal vai me chamar: ‘Fala, seu Zé dos Santos’”, comenta Vladimir. “Eu não sabia que tinha esta habilidade.”


A preferência pelos santos surpreende em alguém com a imagem de comunista. Todavia, ele próprio trata de injetar um pouco de contradição humana: “O meu pai era comunista e a minha mãe era muito religiosa, imbuída de grande compaixão. Levava comida para os pobres e os presos. Então, sou um comunista indeciso entre essas tendências. Adoro santo, em todos os meus documentários, se tiver uma imagem por perto, eu filmo”. O que o fascina nos santos? A paixão. O santo é esteticamente translúcido. Vladimir é especialmente sensibilizado pelas figuras de São Gabriel e de São Francisco, o santo que doou todos os bens e desvelo aos pobres: “Em um encontro, eu propus que São Francisco fosse adotado como o patrono dos documentaristas, pois somos a parte pobre do cinema”.

Esculturas do cinesta Vladimir Carvalho: figuras de santos 
e de personagens da literatura (Raimundo Sampaio/ Encontro/ DA Press)
Esculturas do cinesta Vladimir Carvalho: figuras de santos e de personagens da literatura

A xilogravura nordestina é a base das gravuras de Vladimir. “Quando era criança, brincava de carimbo, pegava uma casca de cajá e imprimia meu nome. A xilo é feita com o mesmo processo, passa a tina e imprime, corta.” Contudo, ele mesmo alerta que, embora agrestes, as de sua lavra estão longe de serem primitivas, pois ele tem formação estética erudita. Quando desceu de João Pessoa para Salvador em busca de um canudo universitário, escolheu o curso de filosofia porque contemplava dois interesses: a estética e a questão social: “Nunca me esqueço de que meu pai me explicava que crítico não é alguém que esculhamba com tudo; o crítico é um intérprete da cultura, das artes plásticas, da poesia e do romance. O meu traço é bruto, ríspido e rústico, mas não é de formação. Posso não ser um grande gravador, mas me sinto tocado por isso e sou um compulsivo”.


A xilogravura nordestina é a base de seu trabalho nas artes: aqui, um autorretrado (Raimundo Sampaio/ Encontro/ DA Press)
A xilogravura nordestina é a base
de seu trabalho nas artes: aqui,
um autorretrado
No curso de filosofia, teve, na condição de colegas e amigos, o compositor Caetano Veloso e o ensaísta Carlos Nelson Coutinho. Até os dias de hoje, sempre que vem fazer show em Brasília, o amigo baiano se encontra com o paraibano. Vladimir confirma que a fama de preguiçoso do compositor não é uma lenda: “Caetano nunca chegava à faculdade antes das 11h”, lembra Vladimir, com humor. “A gente saía da faculdade e encontrava Maria Bethânia com uma sainha de normalista. Caetano não se preocupava com esse negócio de estudar. Tinha o caderno cheio de letras de música. Ele é um gênio. Quem tinha que se angustiar com isso era eu, um migrante paraibano que precisava do canudo para encontrar um rumo na vida.”


Nos tempos em que se mudou para o Rio, Vladimir conversou com Glauber Rocha e, no seu tom tipicamente conspiratório, ele olhou para os lados desconfiado, pôs a mão no ombro do amigo e ordenou: “Pode vir porque nós te daremos cobertura”. Quando chegou ao Rio, Vladimir se dirigiu à praia de Copacabana e ficou com o único e surrado sapato exposto à maré. Glauber advertiu: “Tome cuidado, Vladimir, porque você não tem dinheiro para comprar outro”. Ao abrir o livro Revolução do Cinema Novo, de Glauber, Vladimir levou um susto quando leu seu nome: “Lembro de Vladimir Carvalho, o Rosselini do sertão, Vertov das caatingas, Flaherty de Euclides da Cunha”.


A produtora Objeto Sim está organizando uma exposição com a obra plástica de Vladimir para ser apresentada em Brasília e em outros estados. A formação estética enriquece muito o trabalho dele nas filmagens dos documentários. “A culpa toda é do mestre Lula, foi ele quem me transmitiu todas essas inquietações”, declara Vladimir.

 

Depoimentos

 (Elio Rizzo/Esp. CB/DA Press)

"Vladimir é um amigo que eu via muito na universidade e vejo pouco hoje. No entanto, é um amigo constante. Há pessoas que parecem engrandecer-se ao aderir à luta pela justiça social. Ele engrandece os ideais com sua adesão. Isso pode-se sentir em seus filmes” Caetano Veloso, músico

 (Arquivo/CB)

"Lembro-me de Vladimir Carvalho, o Rosselini do sertão, Vertov
das caatingas, Flaherty de Euclides da Cunha” Glauber Rocha, cineasta
 

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017