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CULTURA | LITERATURA »

Leia e passe adiante

De tanto passar de mão em mão, os livros ficam "ensebados". Essa é a origem do nome das lojas que vendem, compram e trocam obras usadas. Hoje, os sebos são polos de cultura da cidade

Cecília Garcia - Redação Publicação:20/05/2013 14:13Atualização:20/05/2013 17:18

Em Brasília, há uma porção de sebos que vendem de livros didáticos a preciosidades esgotadas nas editoras: a presença de grandes livrarias não abalou o negócio (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Em Brasília, há uma porção de sebos que vendem de livros didáticos a preciosidades esgotadas nas editoras: a presença de grandes livrarias não abalou o negócio

É preciso tempo livre e uma paixão inabalável pelas letras para apreciar tudo aquilo que os sebos têm a oferecer a seus visitantes. Poucos minutinhos só para descobrir se a edição esgotada de tal escrito está à venda não são suficientes. Um passeio pelos sebos é prazeroso e exige espaço na agenda. Neles, passado e presente se juntam numa atmosfera de quase encantamento. Aquele livro que fez parte da infância, o best-seller de dois meses atrás que lhe chamou atenção, o vinil que seu avô costumava ouvir no cair da tarde. Nos sebos, tudo isso se mistura entre numerosas prateleiras e milhares de volumes.


Em Brasília, os sebos conservam o costume dos livreiros à moda antiga, aqueles que sabem onde está cada exemplar, que não confundem livros de psicologia com autoajuda, que sabem soletrar o nome de cada autor. E quem pensa que a força das livrarias virtuais tende a encerrar a função dessas lojas engana-se. Eles ainda se mantêm muito bem, obrigado. A internet, que a princípio poderia ser a grande vilã da história, tornou-se aliada. A maioria dos estabelecimentos já tem seu espaço na rede, como mais uma forma de expor seus produtos. Mas nada que afete o movimento nas lojas, onde os chamados "ratos de livraria" passam bons momentos folheando obras à venda.


A saída dos volumes nesse tipo de comércio é impulsionada no fim e início de ano com a procura pelos livros didáticos, ótima opção para quem quer economizar, e segue com a busca dos universitários na época de volta às aulas. Nos outros meses, cada um dos estabelecimentos nota o comportamento de seus clientes e investe em tipos diferentes de leitura, além de aliar alguns outros serviços à tradicional venda de livros. Surpresas sempre aguardam aqueles que se aventuram pelos sebos. Exemplares raros, autografados ou com dedicatórias são verdadeiros tesouros a serem desvendados nas prateleiras desse tradicional tipo de comércio.

 

Livros, livros e mais livros

 

Nas paredes, do chão ao teto, em balcões e corredores, em cima de mesas, dentro de um banheiro desativado. Só assim para conseguir acomodar os mais de 200 mil exemplares do Cope Livros. O sócio-gerente do local, Adrian Carvalho, conta que os exemplares chegam de várias fontes, sobretudo de herdeiros não muito interessados em literatura. Desse processo, resultam várias das pérolas do sebo. Para Adrian, são esses pequenos tesouros que garantem a resistência desses comércios, juntamente com a venda de obras que já não estão no catálogo das editoras. “Temos a vantagem de ter tanto os livros novos como os que não são mais encontrados nas livrarias”, orgulha-se.

Cope Livros

 

Em funcionamento: há 17 anos
Vende: livros, CDs e DVDs
Carro-chefe: livros de arte
Onde: 409 Sul

 

Desapego é a alma do negócio

 

A pequena loja na Asa Norte engana os desavisados. Livros nas paredes laterais e no balcão são apenas um aperitivo dos mais de 60 mil títulos. A maior parte fica abrigada num depósito em Planaltina. Parte desse acervo veio da biblioteca do proprietário, Gilvan Ema – pelo menos 3 mil obras “pediram para ir a outros donos”. Também saídos de sua casa estão todos os LPs. Elomar, Bob Dylan e Renato Andrade são alguns dos artistas que têm representação por aqui. Mas É o Tchan e Netinho também aparecem em CDs sobreviventes à década de 1990. A raridade também é característica do local, onde até mesmo uma Bíblia em papiro já fez parte do acervo.

Sebão

 

Em funcionamento:  há 14 anos
Vende: livros, CDs e DVDs
Carro-chefe: Romances e esotéricos
Onde: 409 Norte

 

De filósofo a livreiro

 

Quando perguntam a Luiz Alves Moraes por que ele entrou no negócio dos livros, a resposta é rápida: "Era um péssimo professor de filosofia". Dono de sebo desde 1996, o tempo de experiência no ramo e o gosto pela leitura permitem-no realizar um diagnóstico dos clientes brasilienses. Acordam mais tarde, consomem muita filosofia e, assim que um patriarca na família morre, os livros são os primeiros bens vendidos. Outra característica: a pechincha. "Vamos negociar" é uma das expressões mais ouvidas. Os 100 mil livros e discos estão em dois andares e dois depósitos, mas nem tudo está ao alcance dos compradores. "O disco do Menudos não está à venda", avisa logo.

Pindorama

 

Em funcionamento: há 24 anos
Vende: livros e LPs
Carro-chefe: livros de ciências humanas
Onde: 505 Sul

 

Onde a raridade não tem vez

 

Pode parecer contraditório, mas na Achei Livros Usados, de Fernando Henrique de Jesus, as obras raras não frequentam as prateleiras. E apenas livros fazem parte do acervo local. DVDs, CDs, fitas cassete e discos tinham pouca procura, assim como as raridades, que não dão retorno imediato. O estabelecimento é prático, bem organizado, ótimo para quem procura coisas atuais. "Podemos não ter um livro de 1800, mas aqui encontra-se Cinquenta Tons Mais Escuros", conta Fernando. As 28 mil obras são divididas em dois andares e a sua seleção leva muito das características do dono. Quando era jovem, já era apreciador de Jorge Amado. Esse gosto se reflete nas prateleiras.

Achei livros usados

 

Em funcionamento: há 15 anos
Vende: apenas livros
Carro-chefe: literatura nacional
e internacional
Onde: 715 Sul

 

Miscelânea cultural

 

O letreiro na porta engana. O Sebinho é muito mais que uma loja de livros usados. Tomando quase o térreo inteiro do bloco onde se encontra, divide seu espaço entre o acervo e uma cafeteria. Além dos 90 mil títulos, VHSs, DVDs, camisetas e quadrinhos encontram espaço no estabelecimento. Cida Caldas, dona do sebo, começou o negócio numa quitinete. Queria um comércio que não exigisse muito capital. Hoje, o espaço abriga exposições, palestras e cursos. Para Cida, os sebos são espaços onde o inesperado está sempre à espreita. “Isso se reflete nos olhos que brilham quando um cliente encontra uma obra que fez parte de sua vida.”

Sebinho

 

Em funcionamento: há 27 anos
Vende: livros, CDs, DVDs, VHSs,
HQs e camisetas
Carro-chefe: livros universitários e raros
Onde:  406 Norte

 

Conhecimento do ramo

 

Ao procurar o Armazém do Livro Usado é obrigatório parar e conversar com o dono, Jorge Brito. Grande conhecedor do ramo, editou quatro edições do Guia dos Sebos do Brasil, publicação que mapeava todos os estabelecimentos do ramo no país. Não apenas a história desse filão em Brasília, Jorge sabe muito sobre livros, revistas antigas e tudo o mais que povoa os sebos. Ali, é possível encontrar 40 mil títulos de livros, revistas e histórias em quadrinho. Mesmo com o advento do virtual, o dono acredita que o frequentador de sebo não troca a experiência do passeio, da posse do livro, pela internet. 

 

Armazém do livro usado

 

Em funcionamento:  há 15 anos
Vende: livros, revistas e HQs
Carro-chefe: quadrinhos e livros
de humor merecem atenção especial
Onde: 402 Norte

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017