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ESPORTE | CICLISMO »

A noite sobre rodas

Aumenta em Brasília a adesão ao exercício noturno em grupo. Todos os dias, a cidade protagoniza um espetáculo com bicicletas no cerrado escurecido

Jéssica Germano - Redação Publicação:24/05/2013 15:47Atualização:24/05/2013 16:09

No Congresso, no Parque da Cidade ou nas vias dos lagos: pedalar virou hábito na noite brasiliense (Fotos: Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
No Congresso, no Parque da Cidade ou nas vias dos lagos: pedalar virou hábito na noite brasiliense
 

Passa pouco das 20h e um céu limpo convida para um ar fresco fora dos apartamentos cercados por cobogós. O trânsito começa a debandar para as garagens e os longos eixos brasilienses ganham espaço. Sem chuviscos ou frio mais intenso, a noite vira cenário para a atividade outdoor. Com capacete, iluminação e apetrechos especiais a postos, uma onda de aproximadamente 60 magrelas ocupa uma pista do Eixo Monumental e segue rumo ao Congresso Nacional, para uma jornada de pouco mais de 25 quilômetros.

O ponto de encontro e partida é o mesmo há oito anos, quando o primeiro grupo de amigos se reuniu. De segunda a sexta-feira, sempre às 20h30, o Pedal Nortuno sai do estacionamento 4 do Parque da Cidade, em frente ao restaurante Gibão. Sem cobranças de mensalidade ou obrigatoriedade na frequência, vai quem quer e em apenas um caso a missão é abortada: se houver indícios de chuva. Nessa situação, segundo Kátia Rodrigues, uma das seis coordenadoras do grupo, o próprio pessoal já sabe que não vai acontecer o pedal.

Descontraída, ela explica de forma rápida a essência da iniciativa: “O que a gente faz é um passeio. E o ritmo do grupo é o do menos resistente”. Sabido isso, o que vem da noite fica por conta da mudança do trajeto – e de cenário –, que é diária. “É para não ficar monótono”, explica a coordenadora. Todos os dias, um e-mail com cinco mil destinatários informa o roteiro por onde o Pedal Noturno irá passar.

André Fugimoto e Kátia Rodrigues, coordenadores do grupo Pedal Noturno: 
o ciclismo é uma das atividades mais democráticas em Brasília (Fotos: Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
André Fugimoto e Kátia Rodrigues, coordenadores do grupo Pedal Noturno: o ciclismo é uma das atividades mais democráticas em Brasília

Como o foco é a movimentação do corpo com destaque para o entretenimento dos integrantes, cartões-postais como a Catedral e a Esplanada costumam entrar na lista. Além disso, todas as quartas há uma parada estratégica para o Pedal Gastronômico. A ideia é levar os integrantes a alguma barraquinha de rua para lanchar e interagir mais. Cachorro-quente, macarrão rápido, churrasquinho e boas conversas costumam estar no cardápio.

Guiados por um puxador, que se comunica durante todo o trajeto por meio de um rádio com o último ciclista da turma – chamado de cozinha –, o grupo não pode é se separar. A união faz a força, acreditam, e os deixam mais visíveis para os motoristas nos automóveis. Assim, a convivência é constante. E gera frutos. Laços de amizade são formados, incentivos se firmam e novas motivações surgem.

Também coordenador no grupo, André Fugimoto lembra-se das histórias de superação que aparecem no círculo. Há recém-divorciado com depressão vencida, sobreviventes de doenças como o câncer e quem tenha perdido mais de 20 quilos contra a obesidade. “Tem todo tipo de gente no grupo”, pontua, afirmando que o pedal é possivelmente uma das atividades mais democráticas atualmente em Brasília. “Tem gente de todas as idades”, complementa Kátia, limitando apenas as crianças, por conta da segurança.

Para as amigas cariocas Regina Matos e Denise Del Negro, atuais moradoras da capital, o mutirão noturno serviu para manter a atividade que já tinham implementado à rotina no Rio de Janeiro. Sem carro, a bicicleta era o meio de transporte mais utilizado por elas. Praticantes há pouco mais de um mês da modalidade, a empresária e a publicitária afirmam que a dificuldade no ciclismo brasiliense está apenas nos trechos mais íngremes. “No nosso trajeto no Rio não tinha subida”, conta Regina, comparando às descidas e tesourinhas do quadrado sem esquinas.
 Para a carioca Regina Matos, o mutirão noturno foi um estímulo para a prática do esporte (Fotos: Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
Para a carioca Regina Matos, o mutirão noturno foi um estímulo para a prática do esporte

Para quem já pratica o esporte há um tempo e ganhou resistência, o Pedala + funciona como próximo passo. Saindo do mesmo local e horário que o Noturno, o grupo funciona às terças e quintas, mas em ritmo mais intenso que passeio. Nele, os integrantes não pedalam menos do que 30 quilômetros e costumam buscar sempre mais.

Segundo o especialista em fisiologia do esforço Guilherme Molina, pedalar a qualquer hora do dia é bem-vindo em uma rotina que busca ser saudável. “Independente de a pessoa ser atleta ou praticar o ciclismo como lazer, ela já tem grandes benefícios, principalmente cardiovasculares, que melhoram a função circulatória”, explica. Questionado sobre a prática em horário noturno, em que a maioria das pessoas está descansando, o professor da Universidade de Brasília (UnB) é firme ao dizer que existem, sim, diferenças nos horários das atividades físicas, entretanto, não são significativas a ponto de serem consideradas. “Biologicamente, à noite temos toda a redução do funcionamento organismo, mas, socialmente, isso pode mudar”, explica. Mas, segundo ele, as demandas contemporâneas de afazeres podem reformular a dinâmica do corpo. E lembra que, praticando 150 minutos semanais de exercício físico, conforme recomenda a Organização Mundial de Saúde, todos os benefícios de uma vida ativa são garantidos. “Saúde, controle e redução de peso, além de interação social e da parte lúdica que o fato de pedalar em grupo proporciona”, enumera os benefícios. “Você só tem a ganhar com a prática”, afirma o professor, lembrando, porém, que o importante no ciclismo é respeitar o próprio ritmo.

O triatleta Walter Alves se diz  especialmente atraído pelo ciclismo: 'É um bem-estar que ninguém consegue explicar, é um tempo só seu' (Fotos: Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
O triatleta Walter Alves se diz
especialmente atraído pelo ciclismo: "É um
bem-estar que ninguém consegue
explicar, é um tempo só seu"
Para quem faz do ciclismo uma prática recorrente ou busca competições, a melhor área para treinos são as faixas do Lago Sul e do Lago Norte, segundo frequentadores. Sem nome oficial, mas conhecido como Speed (velocidade, em inglês), um grupo de 20 pessoas, em média, reúne-se às terças e quintas para sair do início do Lago Sul e enfrentar um ritmo intenso por 66 quilômetros. No grupo que parte pontualmente às 19h30, estão atletas e competidores que buscam superar o próprio desempenho, todos os dias, e costumam chegar à velocidade de 40 km/h.

Depois de sofrer uma lesão na coluna e ter de abandonar os esportes com impacto, o funcionário público Anísio Ramos encontrou nas pedaladas a forma de continuar o hábito que sempre teve de ser fisicamente ativo. Atualmente, após participar de diversos campeonatos e ser bicampeão em uma grande competição de ciclismo, ele não reduz a frequência e já se prepara para o próximo desafio. “É como uma cachaça, vicia”, comenta, satisfeito com o próprio rendimento.

Para o triatleta Walter Alves, o que mais atrai no ciclismo é a qualidade de vida que o esporte proporciona. “É um bem-estar que ninguém consegue explicar, é um tempo só seu”, tenta dimensionar. Por conta do horário de trabalho, Alves encontrou no período pós-expediente a oportunidade de se dedicar aos treinos de bicicleta, já que pela manhã corre e nada. Sempre acompanhado de pessoas que entendem o seu ritmo, pois têm a mesma rotina rígida de dormir bem e não ingerir bebidas alcoólicas – incluindo os fins de semana, quando outros grupos se reúnem para pedalar de manhã cedo –, ele se diz satisfeito com o que o esporte lhe agregou. “Hoje eu tenho bem mais amigos.”

 

Anísio Ramos participa de diversos campeonatos e é bicampeão em uma grande competição de ciclismo: preparo constantes para os próximos desafios (Fotos: Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
Anísio Ramos participa de diversos
campeonatos e é bicampeão em uma
grande competição de ciclismo: preparo
constantes para os próximos desafios
Grupos de pedal

 

 Pedal Nortuno: Sai de segunda a sexta-feira, às 20h30, do Parque da Cidade, com roteiros diferentes. Ideal para iniciantes

 Pedala +: Sai as terças e quintas, às 20h30, do Parque da Cidade. Indicado para quem já pedala há um tempo

 Speed: Sai às terças e quintas, às 19h30, em frente ao CNPq, na QI 1 do Lago Sul. Recomendado para atletas em treino

 

Para pedalar à noite 

 

 Equipe-se
Capacete, luzes de segurança na bicicleta, roupa clara e pneus em bom estado são fundamentais para evitar acidentes

 Respeite
As regras no trânsito para ciclistas costumam ser as mesmas dos motoristas: pare em faixas de pedestre, semáforos, e evite ao máximo andar em calçadas

 Siga o fluxo
Pedale sempre no mesmo sentido da via na qual está, permitindo assim que o motorista o veja

 Alimente-se
Antes do exercício, procure ingerir alimentos com fonte de carboidrato, que geram energia. No fim, busque proteínas, responsáveis por repor massa muscular. Para resultados específicos, procure um especialista


 Descanse
O bom resultado da atividade do corpo está diretamente relacionado à sua recuperação. Procure dormir de 6h a 8h por noite

 Integre-se
Evite pedalar sozinho à noite. Além de ser mais seguro em relação à violência e acidentes, a atividade em grupo permite novos laços sociais

 Previna-se
Carregue sempre com você um nome e telefone para contato, em caso de acidente. Para conservar a anotação por mais tempo, indica-se o uso de sacos plásticos como isolamento do suor

 

Usufrua da ciclofaixa!

 

 Funcionamento: domingos e feriados nacionais, das 7h às 16h

 Trecho: da Catedral Rainha da Paz até o Congresso Nacional
 Distância: hoje, o percurso conta com 14,5 quilômetros, mas o projeto total é de 38,5km
 Extensão: até meados de agosto a faixa deve se integrar às W3 Sul e Norte

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017