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SAÚDE | CÂNCER DE MAMA »

O preço da coragem

Três superespecialistas analisam as implicações do procedimento radical feito pela atriz Angelina Jolie. A atitude dela levou o mundo a discutir os testes genéticos e as medidas preventivas contra o câncer de mama, entre elas a mastectomia

Cecília Garcia - Redação Publicação:14/06/2013 16:48Atualização:14/06/2013 17:03

A atriz Angelina Jolie promoveu um debate mundial quando decidiu tornar pública a decisão de ter feito uma  mastectomia preventiva: 'Decidi ser proativa', justificou (Divulgação)
A atriz Angelina Jolie promoveu um
debate mundial quando decidiu tornar
pública a decisão de ter feito uma
mastectomia preventiva: "Decidi ser
proativa", justificou
Apenas quem já passou pela experiência de ter um câncer de mama ou conviveu com alguém que tenha sofrido o problema conhece a dor acarretada pelo diagnóstico. A informação é, muitas vezes, recebida como uma sentença de morte. Por mais desenvolvida que a medicina esteja, o medo se faz presente. E, para os parentes, também sempre fica a dúvida sobre as possibilidades de vir a desenvolver o câncer. No mês de maio, a atriz Angelina Jolie veio a público, por meio de um artigo intitulado “My Medical Choice” (Minha escolha médica, em inglês) divulgado na página de opinião do jornal The New York Times, para contar a sua história com o câncer de mama. A mãe da celebridade, Marcheline Bertrand, lutou contra a doença durante 10 anos e acabou sendo vencida aos 56. Duas semanas após a publicação do texto, a tia da atriz, Debbie Martin, também foi vítima da enfermidade.


Diante do histórico familiar, Angelina fez testes para verificar se era portadora de uma mutação genética que também a faria desenvolver a doença. O resultado indicou 87% de chances para o câncer de mama e 50% para o de ovário. “Uma vez que eu soube que essa era a minha realidade, decidi ser proativa e minimizar o risco ao máximo. Decidi realizar uma mastectomia preventiva dupla”, conta a atriz no artigo.


No caso dela, escolher fazer uma mastectomia faz sentido. O que não significa que seja o procedimento indicado para todas as mulheres, ainda que tenham histórico familiar. Antes de partir para a mastectomia subcutânea dupla, segundo o oncologista e fundador da clínica Oncotek, Eduardo Johnson, deve ser realizada uma pesquisa genética em busca de mutações dos genes BRCA 1 e BRCA 2. O teste de identificação, no entanto, é indicado em situações bem específicas. A recomendação é realizar a pesquisa da mutação na família que teve o câncer. “Se a mãe não tiver a mutação, as filhas não a terão e o exame não será necessário”, explica o oncologista. Felizmente, a frequência de positividade na pesquisa dos genes BRCA 1 e 2 é muito baixa. Das mulheres que têm histórico familiar, apenas 10% terão a mutação.

O oncologista Eduardo Johnson, da Oncotek, acredita que a decisão da atriz foi acertada: apesar disso, nem toda mulher com histórico familiar precisa de uma prevenção tão radical (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
O oncologista Eduardo Johnson, da Oncotek, acredita que a decisão da atriz foi acertada: apesar disso, nem toda mulher com histórico familiar precisa de uma prevenção tão radical

Em caso de positividade no resultado do exame, para o oncologista, a mastectomia subcutânea é considerada a melhor opção, aliada a uma abordagem psicológica. A alternativa para as pacientes que recusam a cirurgia seria fazer acompanhamento a cada seis meses, com ecografia, mamografia e, às vezes, ressonância magnética. Alguns medicamentos também podem ser usados para reduzir a incidência, mas teriam de ser tomados por muito tempo e com possíveis efeitos colaterais.


“O termo mastectomia induz a paciente a achar que vai ficar mutilada. Ela não poderá amamentar, mas, esteticamente, fica bastante aceitável”, explica Johnson. O procedimento retira a glândula mamária deixando toda a pele, aréola e mamilo, além de um resíduo de tecido mamário nesse local. Após a retirada da glândula, coloca-se um expansor, que distende a pele por um período de três a seis meses, para depois se colocar uma prótese de silicone. Em algumas pacientes, o implante pode ser realizado já na cirurgia inicial. O mastologista Sérgio Zerbini, da Ginevitae, explica que as dúvidas mais frequentes das pacientes estão associadas a informações equivocadas, relatos de experiências de conhecidas. “É necessário individualizar”, alerta, ressaltando que de forma geral os resultados estéticos são bons.

O mastologista Sérgio Zerbini, da Ginevitae,  explica que as dúvidas em relação ao câncer de mama ocorrem porque as mulheres se baseiam em outros casos: 'É preciso individualizar' (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
O mastologista Sérgio Zerbini, da Ginevitae, explica que as dúvidas em relação ao câncer de mama ocorrem porque as mulheres se baseiam em outros casos: "É preciso individualizar"

Não apenas quando a mulher apresenta a mutação, mas todas as vezes em que há chance de ter a doença, pelo histórico familiar, é importante discutir as medidas de redução de risco. Essa é a opinião do oncologista do hospital Sírio Libanês Alessandro Leal. “Essa não é uma decisão unilateral. Ela tem de sem compartilhada com o médico mastologista, oncologista e geneticista”, ensina.


O médico afirma também que hoje estão em avaliação medidas preventivas ao câncer de mama nesse grupo de risco, que incluem o uso de sustâncias reguladoras do crescimento mamário e exames de imagem mais sensíveis que a mamografia, como a ressonância magnética. Mas a mastectomia profilática ainda é a opção normalmente preferida. “Nela é mais fácil a reconstrução da mama, não mexendo tanto com a identidade corporal da mulher.”

Para o oncologista Alessandro Leal, do Sírio Libanês, é importante, sim, discutir a redução do risco de câncer para as mulheres: além da mastectomia profilática, existem exames mais detalhados  (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Para o oncologista Alessandro Leal, do Sírio Libanês, é importante, sim, discutir a redução do risco de câncer para as mulheres: além da mastectomia profilática, existem exames mais detalhados


Tire suas dúvidas

Mastectomia profilática subcutânea


O oncologista Alessandro Leal explica que o procedimento, também chamado de adenomastectomia, consiste na retirada da glândula mamária, mas se preservam o mamilo e a aréola. No entanto, a preservação do complexo areolo-papilar faz com que exista um risco residual de câncer de mama em casos de mutação genética, já que sobra tecido ductal mamário. Mesmo sendo benfeita, o risco ainda não é nulo

 

Indicação


Para a mulher com alto risco de desenvolver câncer de mama ao longo de sua vida, o mastologista Sérgio Zerbini recomenda que se passe por uma avaliação ou aconselhamento genético em que o especialista, o geneticista, analisará a real chance de um dia vir a ter a doença e solicitará exames complementares para avaliar ou confirmar o risco

 

Quem deve fazer o exame

 

A paciente deve se encaixar em pelo menos um dos seguintes critérios: ter dois parentes de primeiro grau diagnosticados com câncer de mama e pelo menos um com menos de 50 anos; ter três ou mais parentes de primeiro e segundo graus com câncer de mama, independentemente da idade; câncer de mama em homem, sendo este parente de primeiro ou segundo graus; ter parente de primeiro grau com câncer de mama bilateral; e a combinação de dois ou mais parentes de primeiro ou segundo graus com câncer de ovário. “Tanto a família paterna quanto a materna importam para a parte genética”, ressalta o oncologista Eduardo Johnson

Como é o exame

 

Segundo o oncologista Alessandro Leal, hoje, os testes de sequenciamento genético
do gene BRCA 1 e 2, entre outros, são realizados por meio da coleta de sangue ou análise de DNA presente na saliva. Nele, é avaliada a anatomia do gene e são detectadas mutações pontuais, mínimas. Depois de identificadas, são analisadas em bases de dados e compara-se com a mutação da paciente para verificar se é patogênica. A mutação de alguns desses genes também pode indicar risco de câncer de ovário. Os testes não estão disponíveis de forma ampla na rede pública, mas são executados em alguns hospitais universitários e particulares. Nos privados, o exame custa entre R$ 4 mil e R$ 7 mil, a depender da extensão do teste, da quantidade de genes testados.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017