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Comportamento | Voluntários »

Gente jovem reunida

Muito mais do que uma simples doação de tempo, o voluntariado em Brasília mudou de perfil. É a mocidade quem agora encabeça esse movimento, que tem como lema a troca de experiências

Jéssica Germano - Redação Publicação:19/06/2013 15:41Atualização:19/06/2013 16:34

Luíza Zanello, Bruno Gastão, Caroline Medeiros, Laís Brandão, Ferdinan Lago e Jayron Lima: os sábados desses jovens são dedicados a fazer 'palhaçada' para pacientes do Hospital do Gama (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Luíza Zanello, Bruno Gastão, Caroline Medeiros, Laís Brandão, Ferdinan Lago e Jayron Lima: os sábados desses jovens são dedicados a fazer "palhaçada" para pacientes do Hospital do Gama
 

Já cantava Elis Regina que é a força da juventude o estilingue capaz de mudar o futuro. E é essa mesma geração que busca viver em vez de sonhar. Em meio à sombra acomodada dos pais, ela também sente o cheiro da nova estação e se apega à certeza no novo. A composição de Belchior, eternizada na voz da Pimentinha, não é hino nem serve diretamente de inspiração, mas fala sobre o sentimento que move uma turma entre 15 e 30 anos de idade que tem escrito a história da solidariedade brasiliense por linhas diferentes.


Grupos de voluntários em ações sociais não surgiram agora na cidade. Nos últimos anos, porém, o perfil deles mudou. Até pouco tempo associado a pessoas aposentadas, que procuravam meios de ajudar o outro para, a princípio, preencher o tempo, o trabalho voluntário tem nos últimos anos atraído uma legião mais nova para ocupar lacunas que o Estado ainda hoje não supre. E engana-se quem ache que trata-se de uma simples “doação de tempo”. É uma troca, afirmam esse jovens, garantindo não ser mero clichê. Em Brasília, é a mocidade que está encabeçando esse movimento.


Para Amanda Borges, o trabalho voluntário é uma troca: 'Você descobre que tem algo para ensinar' (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Para Amanda Borges, o trabalho voluntário
é uma troca: "Você descobre que
tem algo para ensinar"
“Se essa geração se construir com princípios, com valores éticos bem pautados, apta para chegar ao poder daqui a 30, 40 anos, colocando o caráter na frente do dinheiro, o ser na frente do ter, aí nós teremos um país realmente construído na gentileza, no calor humano.” É nessa crença de mudança que o grupo [hi]School se apega, segundo as palavras de Pedro Manzur, 23 anos, diretor e coordenador geral do projeto. Os voluntários do grupo visitam, gratuitamente, escolas do ensino médio de todo o Distrito Federal para falar sobre motivação, integridade e respeito ao próximo – valores exemplificados em figuras como Albert Einstein, Steve Jobs e Gandhi.


Atualmente, dos mais de 100 integrantes que acordam cedo para irem às escolas antes do primeiro turno de aula e se dedicam em outros horários a outras ramificações do projeto, 90% têm entre 17 e 26 anos. Para Manzur, essa decisão de fazer parte do grupo tem a ver, primeiramente, com o idealismo comum aos jovens. “Eles têm enxergado no [hi]School o meio de fazer a mudança que querem ver no mundo”, pontua. Segundo a avaliação do coordenador, é essa participação específica que tem feito o projeto ser bem-sucedido e evoluir significativamente nos últimos anos, pulando de quase 3 mil alunos atendidos em 2011 para mais de 12 mil no ano passado. “É o espírito jovem do projeto que faz as coisas darem certo. Esse é o motor da ação”, acredita Pedro Manzur.


Aos 23 anos, Pedro Manzur coordena o [Hi]school: esperança de um futuro melhor para o país (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Aos 23 anos, Pedro Manzur coordena
o [Hi]school: esperança de um futuro
melhor para o país
De acordo com o professor e coordenador de responsabilidade social e serviço comunitário do Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb), é “incontável” o crescimento de pessoas que tem se envolvido em programas sociais antes dos 30 anos no Brasil. “Os jovens hoje têm uma atuação voluntária muito maior do que há poucos anos”, garante Jailton Almeida. Destrinchando o conceito, ele lembra que o voluntariado se firma, basicamente, na percepção que uma pessoa tem de enxergar que detém alguns benefícios, justos à comunidade, mas que são inacessíveis a outros. “Então, ela sai de si própria e vai defender os direitos que são de outro”, explica.


Esse senso de justiça, associado à conscientização cada vez mais forte da realidade social do país, é o que tem estimulado as ações sociais Brasil afora, afirma o especialista. Almeida destaca ainda a formação da nova classe média brasileira, que há pouco tempo era familiar a um ambiente menos favorável. “São pessoas que passaram por algum estágio de limitação financeira, ou de alguma situação social, e que hoje já não passam mais”, contextualiza, para concluir que elas estão mais propensas a colaborarem socialmente.


Já engajada em projetos sociais, a estudante de comunicação social Amanda Borges, 22 anos, conheceu o [hi]School por meio de uma amiga. Para a jovem, o trabalho voluntário, além de ajudar o próximo, é a confirmação de que nenhum aprendizado é em vão. “A gente costuma pensar que não tem nada de importante para passar para a outra pessoa, mas aqui você vê que as suas experiências servem de alguma coisa para quem ainda não viveu certas etapas na vida”, avalia.

Os voluntários da Sonhar Acordado trabalham com crianças carentes: atividades culturais, socioambientais, recreativas e esportivas ( Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
Os voluntários da Sonhar Acordado trabalham com crianças carentes: atividades culturais, socioambientais, recreativas e esportivas

Para Cândida Andrade, de 29 anos, professora e integrante da Sonhar Acordado, organização internacional de voluntariado jovem para atender a crianças carentes, o que a aproximou do projeto foi um questionamento pessoal. “Foi uma forma de encontrar um sentido para a vida, de saber qual é o meu papel no mundo”, recorda, após atuar três anos como voluntária no Amigos para Sempre, programa dentro da ONG que acompanha crianças retiradas dos pais por alguma razão judicial. Sobre os pilares que sustentam a permanência em um projeto como esse, o sentimento de reciprocidade aparece no topo da pirâmide para grande parte dos envolvidos. “Você vem para ajudar, mas você acaba sendo ajudado”, relata Anna Carolina Sousa, assessora de eventos e voluntária ao lado de Cândida. “É uma troca. Mas quem sai ganhando é sempre o voluntário”, completa a professora.


Segundo o especialista Jailton Almeida, essa sensação de retorno que se firma é bastante real e chega aos voluntários em três níveis decisivos: “O profissional, o pessoal e o social”, elenca. O primeiro se dá por meio de uma condição de mercado contemporânea, que acrescenta um diferencial importante ao profissional. Enquanto isso, os dois últimos se desenvolvem na visão de mundo que a pessoa passa a ter e na sua experiência como cidadão efetivo. “A sociedade evolui de forma muito mais acelerada quando o fenômeno solidário acontece.”

Os voluntários da [hi]School fazem palestras motivacionais para outros jovens de escolas do DF: valores éticos (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Os voluntários da [hi]School fazem palestras motivacionais para outros jovens de escolas do DF: valores éticos

Em um sábado pela manhã, são o pó de cor branca forte, as sombras coloridas, o nariz vermelho e os acessórios multitemáticos que compõem a armadura para a tarde de trabalho que virá. Montados de bom humor, paciência e sensibilidade, um grupo de quase 20 palhaços se reúne aos moldes do ensinamento de Patch Adams – médico norte-americano que se popularizou por defender a amizade como cura de doenças – para passar horas interagindo com pacientes em tratamento no Hospital do Gama. Criado em 2012, o grupo, que começou com quase 40 voluntários vindos de um projeto similar no Hospital Universitário de Brasília, hoje conta com mais de 500 “filiados”, que se alternam nas visitas. Desse número, a faixa etária média fica entre 18 e 21 anos. Luíza Zanello, de 23 anos, é uma das que compõem essa estimativa há três anos e meio. Para a estudante de letras, trocar os encontros semanais por badalações de fim de semana não chega a ser uma possibilidade.


Sem patrocínio ou parceiros, além do próprio hospital, eles garantem que não falta o principal. “O importante a gente já tem: material humano e pessoas querendo fazer o bem”, comenta o coordenador Ferdinan Lago, de 27 anos, mais conhecido aos sábados pelo alter ego de Doutor Zé Graça. Aos 16 anos, Laís Brandão é a caçula do Laços da Alegria. Ela já faz parte do projeto há dois, quando, após o ritual de formatura de palhaça – pelo qual todos têm que passar –, decidiu se dedicar continuamente. “Eu fiquei encantada com aquilo e disse: ‘Eu quero isso para mim’”, lembra.

Caçula do grupo Laços da Alegria, Laís Brandão tem apenas 16 anos e um imenso senso de solidariedade (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Caçula do grupo Laços da Alegria, Laís Brandão tem apenas 16 anos e um imenso senso de solidariedade

Para Bruno Gastão, de 22 anos, ou Doutor Feijão, a atuação jovem em trabalhos voluntários é notória na cidade, além de refletir um comportamento cada vez mais comum. “E eles não vêm fazer porque alguém mandou, por obrigação. É espontâneo”, enfatiza. Segundo o professor de responsabilidade social do Iesb, o principal resultado dessas ações são as mudanças que ocorrem tanto individualmente, com cada um, quanto na comunidade. “Primeiro, o voluntariado permite a você reconhecer que outras pessoas têm dificuldades maiores que a sua. Segundo, sua pequena contribuição, que antes poderia parecer nada, pode ser decisiva na vida de alguém”, pontua.

Para as amigas Cândida Andrade e Anna Carolina Sousa, voluntárias da Sonhar Acordado: 'Você vem para ajudar e acaba ajudado' ( Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
Para as amigas Cândida Andrade e
Anna Carolina Sousa, voluntárias da
Sonhar Acordado: "Você vem para ajudar
e acaba ajudado"
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[Hi]school
Enfoque: palestras motivacionais para estudantes do ensino médio do DF.
Como participar: é preciso se inscrever para a seleção de voluntários por meio do blog http://projetohischool.blogspot.com.br/.

Sonhar Acordado
Enfoque: atividades culturais, socioambientais, recreativas e esportivas voltadas para instituições que atendem crianças carentes.
Como participar: é preciso escolher um programa com o qual se identifique e se cadastrar no site http://www.sonharacordado.org.br/.

Laços da Alegria
Enfoque: visitas a hospitais e instituições inspiradas na filosofia do médico Patch Adams.
Como participar: é preciso agendar um dia para acompanhar uma das visitas. Contato por meio da fanpage Laços da Alegria, no Facebook.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017