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Niemeyer para estudantes

Poucos sabem, mas o arquiteto fez um protótipo de moradia popular na Universidade de Brasília. Na casinha, que já foi abrigo de estudantes, funciona uma barbearia. Quem já passou por lá tem muita história para contar

Geroge Cardim - Redação Fernanda Nardelli - Publicação:21/06/2013 18:45Atualização:21/06/2013 19:21

Eis o protótipo de moradia popular feito por Niemeyer: hoje, no local, funciona uma barbearia e uma loja de xerox (Raimundo Sampaio/ENCDF/D.A Press)
Eis o protótipo de moradia popular feito por Niemeyer: hoje, no local, funciona uma barbearia e uma loja de xerox
 

No auge da ditadura, a vida na Universidade de Brasília (UnB) era uma barra, mas ele não escondia o orgulho de dizer que morava em uma casinha projetada pelo arquiteto comunista Oscar Niemeyer. Apesar da repressão, entre 1968 e 1971, o estudante de arquitetura Tancredo Maia podia tomar banho de sol nu, cuidar de dois cachorros, ouvir Rolling Stones a todo volume e dormir com a namorada. Tudo isso sem sair do campus da UnB.


A UnB foi o berço de projetos pré-fabricados no Brasil: o minhocão, como é chamado o Instituto Central de Ciências (ICC), é um exemplo desse tipo de construção ( Lula Lopes/Esp. CB/D.A Press)
A UnB foi o berço de projetos pré-
fabricados no Brasil: o minhocão, como é
chamado o Instituto Central de Ciências
(ICC), é um exemplo desse tipo de
construção
Pouca gente sabe, mas um cinquentão Niemeyer – na época já consagrado mundo afora pelos principais palácios da nova capital federal – também rabiscou em suas pranchetas um protótipo de moradia popular. Em 1962, projetou uma casa pré-moldada que continua de pé, em frente ao principal prédio da UnB, o Minhocão. Trata-se do local onde atualmente funciona a Barbearia do Chico, no estacionamento da Ala Sul da universidade.


Os primeiros moradores desse espaço foram funcionários da própria instituição. Entre eles, André, um ex-porteiro da reitoria, tipo boa-praça, que morreu esfaqueado no Núcleo Bandeirante, em 1967. Diz a lenda que o crime foi passional. Com a morte do inquilino, o mato cresceu em volta do prédio, que ficou esquecido até ser redescoberto por um grupo de alunos que o transformou numa república. O estudante de comunicação Henrique Goulart Gonzaga Júnior, conhecido como Gougon, liderou seus companheiros com o grito “Avante, meus bravos!”. “Nós éramos um bando de porras-loucas. Levamos nossas coisas e ocupamos a casa”, lembra o hoje artista plástico. Com 40 m², o espaço com sala, dois quartos, banheiro com banheira e cozinha era suficiente para alojar quatro estudantes e servir de ponto de encontro de amigos.


Professora da UnB, Sylvia Ficher ressalta o valor do protótipo: o projeto foi precursor dos conjuntos habitacionais pré-moldados mais famosos do mundo (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
Professora da UnB, Sylvia Ficher ressalta
o valor do protótipo: o projeto foi
precursor dos conjuntos habitacionais
pré-moldados mais famosos do mundo
Os quatro meninos que amavam os Rolling Stones levavam uma rotina invejada por muitos jovens na época. “Nos dias mais calmos, ficávamos lendo gibi na frente de casa. Nos dias mais animados, pegávamos a caixa de som do auditório da Música, chamávamos o pessoal e ouvíamos rock no volume máximo. Os vidros do Minhocão chegavam a tremer com Satisfaction. No domingo, subíamos no telhado e tomávamos banho de sol pelados”, revela Tancredo Maia.


O convívio entre os moradores era pacífico e tinha regras curiosas. Quem levasse a namorada para a casinha e desejasse privacidade, deveria estender um cobertor vermelho do lado de fora da janela. “Quando víamos o sinal, tínhamos de matar o tempo e esperar o colega liberar o alojamento”, diverte-se Maia.


Ele ainda se emociona ao falar sobre o local onde morou há 45 anos: “Acho que o espaço não foi bem aproveitado, ficou degradado. Poderiam montar um negócio mais interessante, um museu ou uma gibiteca, por exemplo”. No ano passado, ele apresentou um projeto ao então reitor José Geraldo para transformar o espaço no Museu da Habitação Estudantil, mas a ideia não saiu do papel.


O arquiteto João Filgueiras de Lima, o Lelé, executor da obra original e um dos precursores do concreto pré-moldado: ele também orientou a transferência do protótipo feita por guindaste (Iano Andrade/CB/D.A Press)
O arquiteto João Filgueiras de Lima,
o Lelé, executor da obra original e um
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pré-moldado: ele também orientou a
transferência do protótipo feita por
guindaste
O arquiteto tem fortes razões pessoais para buscar preservar esta parte da história. Foi lá que, numa das noites de cobertor na janela, ele e a futura mulher, Teca Ribeiro de Queiroz, conceberam o filho mais velho, Tadeu. “Nosso filho nasceu aqui. Lembro do varal com fraldas e roupinhas coloridas”, recorda Maia.


Tadeu Maia saiu de lá antes de dar os primeiros passos, mas lembra as boas histórias contadas pelos pais. “Eu dizia aos meus amigos que, de certa forma, minha vida estava ligada àquela casa. Minha história com a UnB é muito forte. Meu pai e minha mãe se conheceram lá, nasci no Hospital Universitário, ia às festinhas no campus, me formei em sociologia, fiz mestrado e trabalhei na Faculdade de Educação”, resume Tadeu, que hoje trabalha na Secretaria de Educação do DF, em outro prédio pouco conhecido de Niemeyer.


Recém-chegado à UnB, Tancredo Maia viu no protótipo o local perfeito para morar. Em 1968, ele se mudou de mala e cuia. A nova ocupação veio junto com a determinação do então vice-reitor José Carlos Azevedo de demolir o lugar. Com as obras do estacionamento da Ala Sul, Azevedo decidiu acabar com a farra e com a casa.
A resposta dos alunos foi imediata. Maia e três amigos da arquitetura tomaram posse da casa na véspera da derrubada e botaram a boca no trombone. “Mostramos que era um absurdo derrubar um projeto único de Niemeyer. Criamos um problema e conseguimos o apoio de colegas e arquitetos”, conta Maia.


Tancredo Maia (dir.), o morador que mais tempo ocupou o espaço: seu filho Tadeu nasceu na casinha (Fotos: Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
Tancredo Maia (dir.), o morador que mais
tempo ocupou o espaço: seu filho Tadeu
nasceu na casinha
Em outro front, o antigo invasor Gougon, que já trabalhava no jornal O Estado de São Paulo, abraçou a causa e emplacou matéria de página inteira no domingo. “Seguramente, eu ajudei a salvar talvez o projeto menos importante de Niemeyer. Uma ironia. Quem invadiu a casa também ajudou a salvá-la”, avalia.


Com a repercussão, o vice-reitor recuou e ordenou a transferência da casa, que ficava ao lado do Instituto Central de Ciências (ICC) Sul, para o local onde está hoje. A retirada foi orientada por um antigo colaborador de Niemeyer, o arquiteto João Filgueiras de Lima, o Lelé, executor da obra original e um dos precursores do concreto pré-moldado no Brasil. O trabalho pesado foi feito com um guindaste da construtora Rabello, que na época erguia o Minhocão. Só o gigante braço de aço foi capaz de içar o protótipo de 42 toneladas.


Quase 30 anos depois, em 1997, o próprio Azevedo relembrou com bom humor o episódio em uma conversa informal com jornalistas. “Tive de ceder. Mandei guindar aquela porcaria. Não adiantava comprar briga para derrubar uma obra de Niemeyer que, diga-se de passagem, era desconfortável e quente como o inferno”, ironizou o polêmico ex-reitor linha-dura.

O então estudante de comunicação Henrique Goulart, hoje o conhecido artista Gougon, foi um dos que invadiram o espaço: 'Nós éramos um bando de porras-loucas', diverte-se
 (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
O então estudante de comunicação Henrique Goulart, hoje o conhecido artista Gougon, foi um dos que invadiram o espaço: "Nós éramos um bando de porras-loucas", diverte-se

Com a preservação do protótipo, os quatro alunos da arquitetura garantiram o direito de continuar no bem localizado endereço. De todos os moradores que passaram pelo alojamento, quem ficou mais tempo foi Maia. Ele discorda de Azevedo e defende as qualidades do projeto original: “O local era generoso. Tínhamos um isolamento térmico com a laje de concreto expandido e não era tão quente assim”.


O protótipo de Niemeyer não está na lista das obras mais famosas do arquiteto, mas faz parte de um momento em que o Brasil estava na vanguarda do uso da pré-fabricação. A professora da Universidade de Brasília Sylvia Ficher explica que a intenção do arquiteto era produzir unidades pré-moldadas em concreto armado, que pudessem formar módulos empilháveis e garantir a construção de conjuntos habitacionais de forma acelerada e econômica. “A casinha faz parte de uma preocupação do começo dos anos 1960. Era uma tendência pós-guerra, de estabelecer linhas de montagens nas moradias, como se fossem automóveis. Hoje, a questão habitacional é pensada de outra forma, com mais flexibilidade”, diz Sylvia.

O barbeiro Francisco Amorim, o Chico, é quem ocupa hoje o protótipo feito por Niemeyer: 'Cortei 
o cabelo de muitos alunos que hoje são doutores, artistas, desembargadores e políticos conhecidos' (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
O barbeiro Francisco Amorim, o Chico, é quem ocupa hoje o protótipo feito por Niemeyer: "Cortei o cabelo de muitos alunos que hoje são doutores, artistas, desembargadores e políticos conhecidos"

A Universidade de Brasília foi o berço de projetos pré-fabricados no Brasil. Os estudos foram desenvolvidos entre 1962 e 1965 e, hoje, a instituição conta com algumas projeções pré-moldadas naquela época. Além do protótipo habitacional, foram construídos prédios que serviriam à própria universidade. O maior deles é o Minhocão. Também são pré-fabricados os prédios do Instituto de Artes e do departamento de Música. Sylvia faz questão de ressaltar que o protótipo habitacional de Niemeyer foi precursor dos conjuntos habitacionais pré-moldados mais famosos do mundo, criados em 1967 por Moshe Safdie, em Montreal, no Canadá.


O renomado especialista em álgebra Said Sidki chegou à UnB em 1971: sai do Lago Norte para fazer barba e cabelo com Chico (Fotos: George Cardim/Divulgação)
O renomado especialista em álgebra
Said Sidki chegou à UnB em 1971:
sai do Lago Norte para fazer
barba e cabelo com Chico
Os projetos não foram longe por motivos técnicos e políticos. Durante os estudos, os arquitetos chegaram à conclusão de que seria inviável economicamente manter uma grande usina para produzir os módulos de concreto. Enquanto buscavam uma alternativa mais barata, os sonhos da primeira geração da UnB foram interrompidos pela ditadura militar. Em 1965, os professores da instituição entraram em greve depois da demissão arbitrária de três colegas. Em resposta ao movimento, as tropas invadiram o campus e o reitor dispensou mais 15 professores. A reação veio de imediato, e 223 dos 305 professores da universidade pediram demissão. Os projetos foram deixados para trás, mas as sementes já estavam plantadas. Hoje, muita gente que passa pela Barbearia do Chico para ajeitar o visual não tem ideia do tanto de história que aquela casinha tem para contar.


Em maio de 1967, Francisco Bertoldo Amorim decidiu trocar a caatinga pelo cerrado. Há 46 anos, ele deixou a pequena São Miguel, no Rio Grande do Norte, para fazer a vida na capital do país. Com 21 anos, veio trabalhar como cabeleireiro na UnB. Dez anos depois, a loja feita de madeira pegou fogo, mas as tesouras, navalhas e as velhas cadeiras foram salvas com a ajuda dos estudantes. Naquela época, o protótipo habitacional de Niemeyer estava novamente abandonado, depois da saída dos alunos e de servir por um tempo como posto de saúde. Foi assim que o projeto de moradia popular do arquiteto abrigou a Barbearia do Chico.


Paulo Motta, outro cliente antigo da Barbearia do Chico: 'É uma referência na UnB. Meus filhos são alunos e cortam o cabelo aqui' (Fotos: George Cardim/Divulgação)
Paulo Motta, outro cliente antigo da
Barbearia do Chico: "É uma referência na UnB.
Meus filhos são alunos e cortam o cabelo
aqui"
Em pé, de frente para o espelho, diante das robustas cadeiras Ferrante, Chico viu os alunos crescerem e virarem gente importante. “Cortei o cabelo de muitos alunos que hoje são doutores, artistas, desembargadores e políticos conhecidos”, lembra.
A velha casinha branca é hoje movimentado ponto de encontro de várias gerações de clientes. O renomado especialista em álgebra Said Sidki chegou à UnB em 1971 e, para fazer barba e cabelo, sai do Lago Norte e vai para onde se sente em casa. “Eu tenho laços com o pessoal daqui. Acho a barbearia um serviço fundamental para a comunidade”, diz.


Paulo Motta também é cliente antigo. Ele morou na Colina em 1967 e conhece a história da casa, mas discorda da ideia de transformar o lugar em uma espécie de museu. “É uma referência na UnB. Meus filhos são alunos e cortam o cabelo aqui. E o filho do barbeiro também segue o mesmo caminho”, defende Paulo, deitado na cadeira de Rodrigo, o único herdeiro de Chico que trabalha com o pai. Se depender da UnB, a destinação do espaço não vai mudar. “As pessoas que tocam os serviços são muito queridas por aqui”, afirma Alberto de Faria, do Centro de Planejamento Oscar Niemeyer, órgão responsável pela organização arquitetônica da universidade.

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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017