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Agulhas poderosas

Por suas mãos passam diariamente políticos em busca de alívio para diversos males. Detentor da técnica milenar desde os 18 anos de idade, o acupunturista chinêsGu Hang Hu coleciona pacientes fiéis e poderosos desde que chegou a Brasília, em 1987

Rodrigo Craveiro - Redação Publicação:25/06/2013 14:23Atualização:25/06/2013 16:12

O acupunturista Gu Hang Hu tirou a sorte em um templo antes de decidir se mudar para Brasília: quase meio século dedicado à profissão (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
O acupunturista Gu Hang Hu tirou a sorte em um templo antes de decidir se mudar para Brasília: quase meio século dedicado à profissão
 

Era 1º de janeiro de 2003. Durante a posse do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o acupunturista Gu Hang Hu, de 63 anos, assistia à cerimônia pela tevê quando notou que Lula levava a mão ao ombro sempre que cumprimentava as pessoas. Por um capricho do destino, uma ligação do Palácio da Alvorada, alguns dias depois, selou a aproximação dos dois. Às 21h45 de 25 de janeiro de 2003, Gu, 45 anos dedicados à técnica milenar da medicina tradicional chinesa, começou a aplicar as agulhas pelo corpo de Lula, em sessões realizadas no palácio, que permitiram ao então chefe de Estado aliviar a incômoda dor provocada pela bursite.


A habilidade e o conhecimento do chinês de estatura baixa e humor fino chamaram a atenção de personalidades do mais alto escalão de Brasília. Os ministros da Fazenda, Guido Mantega, e da Defesa, Celso Amorim, o ex-ministro Antonio Palocci e os senadores José Sarney, Cristovam Buarque, Álvaro Dias e Aécio Neves se trataram com o chinês.

Até hoje a presidente Dilma é paciente de Gu: foto com direito a autógrafo (Arquivo pessoal )
Até hoje a presidente Dilma é paciente de Gu: foto com direito a autógrafo

Gu Hang Hu acredita que foi o atual ministro da Educação, Aloizio Mercadante, quem o indicou para Lula. “Os médicos já queriam fazer a cirurgia. Eu sugeri que, se depois de três aplicações ele não melhorasse, poderia operar”, conta. “Lula não conseguia assinar documentos, nem apertar as mãos das pessoas.” Depois de três sessões intensivas, o presidente realizou uma viagem oficial à Europa e, ao sentir um visível alívio nas dores, resolveu marcar novas sessões. As dores passaram após três meses de tratamento. A bursite incomodava Lula já havia 10 anos.


O Centro de Tratamento Oriental de Brasília chama a atenção pela simplicidade. Na recepção para 10 lugares, vasos de plantas disputam espaço com a imagem de um pequeno Buda sobre um aparador. As paredes revelam fotos de Gu Hang Hu e do filho Gu Zhou Ji, de 35 anos, também acupunturista, ao lado de Lula, Sarney e Dilma Rousseff. “Gu, viva a agulha” foi a dedicatória, escrita em próprio punho pela presidente.

No consultório do acupunturista, a foto de Sarney divide a decoração com as de Lula e Dilma (Arquivo pessoal )
No consultório do acupunturista, a foto de Sarney divide a decoração com as de Lula e Dilma

Dilma chegou ao consultório de Gu em 2 de outubro de 2006, quando era ministra-chefe da Casa Civil. As sessões prosseguiram mesmo durante o tratamento contra um linfoma, em 2009. De acordo com Zhou Ji, os próprios médicos do Hospital Sírio-Libanês recomendaram a acupuntura como medida complementar. “Hoje, ela está excelente”, afirma o filho de Gu, segundo o qual Dilma ainda mantém o tratamento. Os horários seguem a disponibilidade da agenda da presidente.


“Ela veio ao consultório à noite. Estava trabalhando muito, com muita tensão e dores na coluna”, lembra. “Hoje, tem bastante energia para trabalhar. A relação com a nossa presidente é de muito respeito. Nós nos tornamos amigos. Considero a saúde de Dilma muito importante, pois ela é a ligação com o povo. Se Dilma tem a saúde boa, terá mais energia para cuidar do povo.”

Gu Hang Hu com Lula: presidente tratou a bursite com as agulhadas do chinês (Arquivo pessoal )
Gu Hang Hu com Lula: presidente tratou a bursite com as agulhadas do chinês

A relação de Gu com Brasília é quase espiritual. O médico acupunturista nasceu e viveu 39 anos em Xangai, onde escreveu vários livros e tinha um programa de televisão sobre técnicas de medicina tradicional chinesa. Um amigo dele, também chinês, foi a Xangai procurá-lo para ajudar a mulher, que sofria de dores no pescoço. Duas semanas de tratamento resolveram o problema. “Meu amigo me perguntou por que eu não vinha para o Brasil”, lembra.


Budista, Gu foi a um templo para tirar a sorte. “No mundo, no lugar mais distante está a sua vida” foi o conselho recebido. Ele não teve dúvidas e desembarcou em Brasília. Isso foi em 1987. Oito anos depois, durante visita ao mesmo templo, tirou a mesma sorte. Para Gu, a resposta está no destino. “Brasília é um lugar muito especial para nós.”

Guido Mantega - O ministro da Fazenda frequenta o consultório de Gu Hang Hu uma vez por semana. 'Ele é uma pessoa bem simples e vem aqui para se equilibrar e tirar a tensão', conta o acupunturista (Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press)
Guido Mantega - O ministro da Fazenda frequenta o consultório de Gu Hang Hu uma vez por semana. "Ele é uma pessoa bem simples e vem aqui para se equilibrar e tirar a tensão", conta o acupunturista

Hoje, Gu, que recebeu os segredos da medicina tradicional chinesa por meio da avó, preside a Associação Chinesa em Brasília. Formado em medicina tradicional chinesa e educação desde 1976, ele foi diretor, médico e professor do Hospital Centro de Saúde de Xangai e pratica a acupuntura desde 1968. Começou a atender aos 18 anos. É membro e conselheiro da Federação Mundial de Acupuntura e Moxabustão.


Cristovam Buarque - O senador é paciente de Gu Hang Hu desde 1994. Alivia dores nas pernas (Bruno Peres/CB/D.A Press)
Cristovam Buarque - O senador é paciente
de Gu Hang Hu desde 1994. Alivia
dores nas pernas
Durante as sessões com Lula e Dilma, o tema política é proibido. “Consultório é diferente de um palanque ou de uma praça. Estamos aqui para servir as pessoas que buscam ajuda. Não escolhemos o paciente, ele é quem nos escolhe”, afirma. As conversas com Dilma se focam mais nas culturas brasileira e chinesa. Zhou Ji relata ter ficado impressionado com o conhecimento da presidente sobre a China. No fim do ano passado, ela afirmou a Gu Hang Hu: “O ano de 2012 foi do dragão d’água. Estamos começando o ano 4.711 do calendário chinês”. “Nem eu sabia disso”, diverte-se Zhou Ji.

 

Com o poder de cura

 

Reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como método de tratamento complementar, a acupuntura remonta à pré-história chinesa e é indicada para mais de 80 tipos de doenças. Tem efeito especialmente rápido para os casos de estresse, dores de coluna e muscular, insônia e desequilíbrio hormonal.

Celso Amorim - O ministro da Defesa visita, esporadicamente, o consultório de Gu Hang Hu, onde esteve em março. Sua principal queixa é dor na coluna (Monique Renne/D.A Press)
Celso Amorim - O ministro da Defesa visita, esporadicamente, o consultório de Gu Hang Hu, onde esteve em março. Sua principal queixa é dor na coluna
 

A técnica da medicina tradicional chinesa trabalha com a manipulação e o equilíbrio de energia no organismo. Segundo Gu Zhou Ji, no corpo humano, além da circulação de sangue e de linfa, existe a movimentação de energia. “Os canais por onde essa energia circula são chamados de meridianos. Por sua vez, eles estão interligados pelos pontos de acupuntura, espécies de janelas de troca de energia.” 

 

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017