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Tipo exportação

Talentos formados em Brasília estão em superproduções musicais no Brasil e no exterior. Eles são unânimes em afirmar que a razão do sucesso, além da boa preparação na capital, está na disciplina e no estudo

Fred Bottrel - Colunista Publicação:28/06/2013 16:20Atualização:28/06/2013 17:24

Mateus Ribeiro, com a atriz Cláudia Raia: ator tornou-se o queridinho da estrela (Marcos Serra/Esp. para o CB/DA Press)
Mateus Ribeiro, com a atriz
Cláudia Raia: ator tornou-se
o queridinho da estrela
Entre a porta da Escola de Teatro Musical de Brasília e as salas de ensaio, 38 degraus impõem-se como o primeiro teste de condicionamento físico. Para cantar, dançar e representar ao mesmo tempo, depois disso tudo, talento não basta. Treinamento é a palavra. Um passeio pelos corredores do espaço, que funciona na sobreloja de uma borracharia na Asa Sul, revela sons de flauta doce, piano e sapateado, provocados por meninos e meninas que procuram um lugar sob os holofotes.

“Começamos em 2007, quando percebemos que, em Brasília, tínhamos excelentes atores que não dançavam, ou cantores que não sabiam atuar”, conta Michelle Fiúza, formada em regência pela Universidade de Brasília (UnB), que assina a direção musical do centro privado de edução artística, ligado ao Instituto de Música e Dança Claude Debussy. No início, eram 18 alunos, hoje são 120, em quatro turmas. E, enquanto o mercado em Brasília não amadurece, junto com essa nova geração, atores-bailarinos-cantores que aqui se formaram escapolem para outro palcos.

No gênero que se desenha no mercado de São Paulo e Rio de Janeiro, as referências norte-americanas ditam as regras – o mesmo ocorre na didática brasiliense, justamente de olho nas audições para esses espetáculos. Para evitar o risco da repetição mecânica da fórmula, entra em cena justamente aquilo que a técnica não é capaz de ensinar. Se o dom divino para as artes não bate o esforço do trabalho duro, ele pode vir como a cereja do bolo.

Entre os ex-alunos da escola que hoje sapateiam em teatros do Brasil e mundo afora, este elemento que não se ensina salta aos olhos da plateia. Conheça as histórias de alguns jovens talentos do teatro musical nacional (e internacional) que arriscaram suas primeiras notas por aqui.

 

Benet, com o elenco de Hairspray: professores ajudaram a pagar a viagem para o teste
 (Rodrigo Negrini/Divulgação)
Benet, com o elenco de Hairspray:
professores ajudaram a pagar
a viagem para o teste
Benet Monteiro

 

Quando Benet Monteiro fez os testes em São Paulo, não imaginava que seria um dia o Simba da montagem alemã de O Rei Leão. Aprovado, fez as malas e foi aprender a cantar Hakuna Matata na língua de Goethe. Agora, prepara-se para estrear como solista na próxima versão de Aída, nos palcos germânicos. De sorrisão no rosto, ele falou a Encontro Brasília via internet. Fluminense de Angra dos Reis (RJ), começou a estudar teatro musical depois de fazer parte do grupo de garçons cantores Dinners Show, em Brasília. Ele lembra que nos seus primeiros passos por aqui contou mais do que com os ensinamentos técnicos dos professores.


“Fiquei muito emocionado quando, em 2009, abriu-se audição para o espetáculo Hairspray em São Paulo, com direção do Miguel Falabella. Eu queria muito fazer o teste, mas na época não tinha como bancar viagem, estada, etc. Foi então que os professores da escola organizaram uma oficina para custear as despesas da minha audição. Deu certo. Peguei um dos papéis principais da peça, o Seweed. Foi meu primeiro trabalho em musical profissional.”

 

No currículo


Aida
Der könig der löwen (O Rei Leão)
Hairspray
Into the woods
Disney Parade

 

Carolina Rocha

Carolina ensaia o musical  In the Heights, sob direção de Wolf Maia: o medo ficou para trás (Diego Bressani/Divulgação)
Carolina ensaia o musical In the Heights, sob direção de Wolf Maia: o medo ficou para trás

“O primeiro me chegou, como quem vem do florista.” Pronto, Carolina Rocha, diante de plateia lotada, conseguiu vencer a estrofe inicial, na primeira apresentação musical da vida dessa jovem artista. Foi em 2006, com a trupe da oficina Circo Íntimo, em homenagem à Opera do malandro, que ela deu voz à Teresinha do Chico Buarque: “Eu morria de medo e o diretor imaginou que eu não fosse capaz de cantar em público”.

Carol cresceu, formou-se na UnB, na Escola de Teatro Musical de Brasília e na Faculdade Anhembi Morumbi, em São Paulo. Da primeira experiência, cheia de pavor e pressão, ficou só a memória.


A menina tímida deu lugar à espevitada aspirante a atriz que entrou no táxi em São Paulo, atrasada para o teste de Zorro, o musical, e dramatizou: “Moço, sou atriz e esse é o teste da minha vida. Corre!”. No corredor, as pernas bambearam diante de Murilo Rosa. Ela percebeu que se esquecera de imprimir a partitura, deu sorte que o pianista conhecia My strongest suit e entrou para o elenco. Agora, ensaia a montagem brasileira de In the heights, sob direção de Wolf Maia.

 

No currículo


In the heights - paciência e fé
A opera de três vinténs
Zorro, o musical
Fame, o musical
Arlequim, servidor de dois amos

 

Mateus Ribeiro

Aos 19 anos, Mateus é uma grande revelação dos musicais: atualmente, está em cartaz com O mágico de Oz (Janine Moraes/CB/DA Press
)
Aos 19 anos, Mateus é uma grande revelação dos musicais: atualmente, está em cartaz com O mágico de Oz

O moleque desajeitado não sabia muito bem o que era uma audição. Mesmo assim, Mateus Ribeiro, então com 14 anos, colocou figurinos na mochila, incorporou as vozes de um dueto e convenceu os professores de que merecia uma vaga na Escola de Teatro Musical de Brasília. Anos depois, em sua estreia profissional, virou o xodó de Claúdia Raia, na montagem nacional de Cabaret. Hoje, em cartaz com O mágico de Oz, em São Paulo, demonstra discurso maduro surpreendente para os 19 anos que tem.


“Graças a Deus, nunca passei por nenhum sufoco que me fizesse pensar em desistir, por enquanto está tudo dando certo. Na nossa carreira temos de estar sempre preparados, pois num mês você pode estar empregado e no outro, não, então tem de saber administrar o dinheiro e nunca deixar de estudar e correr atrás, porque nada vem de graça. Acredito muito que, quando você se esforça e se dedica, fazendo tudo da maneira certa e sem passar por cima de ninguém, isso tudo acaba voltando! Uma hora ou outra sempre volta.”

 

No currículo


O mágico de Oz
Cabaret
A Bela e a Fera
Fame
Bom dia, Baltimore
Um homem para chamar de Sir

 

 Do coral do Marista para os palcos: as lições que aprendeu em Brasília são inesquecíveis (Arquivo pessoal)
Do coral do Marista para os
palcos: as lições que aprendeu em
Brasília são inesquecíveis
Augusto Arcanjo

 

Os primeiros acordes surgiram no Coral do Colégio Marista de Brasília, quando Augusto Arcanjo contava só 14 anos. Com 15, começou no teatro. A dança veio no ano seguinte.

 

Já aos 19, entendeu que poderia aprender a fazer as três coisas ao mesmo tempo: “Nunca mais consegui largar”, confessa. Aplicado, levava a sério quando a escola cobrava dos atores-cantores-bailarinos aprendizes uma postura profissional. E acredita que esse zelo e apreço pela disciplina é o que mais faz a diferença no mercado.


“No meu primeiro ensaio no Rio de Janeiro, ficava me lembrando das coisas que aprendi em Brasília: ficar sempre atento à pontualidade, procurar prestar atenção a tudo que é falado, não conversar nos momentos de montagem e estudo, ter sempre um caderno na mochila para poder anotar as coisas que nos são pedidas (principalmente, para chegar com elas prontas no próximo ensaio), nunca dizer que não consigo a não ser que tenha tentado primeiro, e sempre estudar e reciclar o que nos foi ensinado. Guardo isso para tudo o que eu vou fazer.”  

 

No currículo


A Bela e a Fera
Um violinista no telhado
O mágico de Oz

 

Em cena com o musical Gypsy: 'O estudo é base de qualquer bom profissional', 
diz André (Arquivo pessoal)
Em cena com o musical Gypsy:
"O estudo é base de qualquer bom
profissional", diz André
André Torquato

 

Os miseráveis pode fazer dormir muito marmanjo letrado. Mas André Torquato, com 8 anos de idade, nem piscava. Era o primeiro musical a que ele assistia e bastou para que a vontade de participar daquilo virasse a cabeça do menino. Sete anos depois, ele estreava profissionalmente na montagem nacional de A noviça rebelde, como um dos filhos do Capitão Von Trapp. Dali em diante, o nome dele figurou no elenco de grandes produções como Priscilla, a Rainha do Deserto e As bruxas de Eastwick.


Ao contrário do que a primeira visão inocente supunha, hoje ele reconhece que o teatro musical “é também fonte de muito trabalho duro”: “Aprendi que o estudo é a base de qualquer bom profissional. Não adianta ter talento se não tiver esforço. Pelo fato de não haver montagens profissionais em Brasília, o sonho de fazer teatro musical acaba ficando mais distante, em São Paulo ou no Rio. Isso impulsiona as pessoas a estudarem mais para garantir seu espaço no mercado.”

 

No currículo
O mágico de Oz
Priscilla, a Rainha do Deserto
As bruxas de Eastwick
Gypsy
A noviça rebelde

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017