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Decoração I Comportamento »

Móvel de família

Mobílias e objetos herdados agregam identidade e charme à casa. Muitos podem ser preservados em seu formato e função originais; outros podem ganhar novos usos e cores

Maria Fernanda Seixas - Redação Publicação:02/07/2013 14:24Atualização:02/07/2013 15:21

Herança de família, a chaise amarela dos anos 1970: integração perfeita à casa da artista e empresária Stella Lopes (Fotos: Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Herança de família, a chaise amarela dos anos 1970: integração perfeita à casa da artista e empresária Stella Lopes
 

Um dos móveis recolhidos da fazenda dos avós do designer de interiores Rodrigo Cavanellas: armário de mantimentos virou cristaleira (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Um dos móveis recolhidos da fazenda
dos avós do designer de interiores Rodrigo
Cavanellas: armário de mantimentos
virou cristaleira
Enquanto, para alguns, herança é sinônimo de dinheiro, terras, imóveis e joias, para outros, o espólio mais valioso são aqueles pedaços da vida guardados na memória e materializados em madeira, louça, estofados, vidros. Em vez de brigarem por bens de grande valor comercial, querem mesmo aquela velha mesa sobre a qual a avó servia bolos e tortas, a poltrona do pai, um sofá antigo onde o avô contava histórias, as toalhas bordadas pela tia. Essas heranças se misturam a peças de outras décadas, ganham cara nova, funções inesperadas e agregam história e identidade ao lar.

 

A casa da artista e empresária Stella Lopes traduz perfeitamente essa noção. Móveis antigos de família, objetos de todas as épocas e arte moderna. “Tudo o que tenho tem história. Venho de Petrópolis, a Cidade Imperial, onde nada é qualquer coisa. Mas nem tudo que herdamos tem a minha cara, então fui trocando as funções, as cores. Sendo feliz com o que herdei e também trocando com meus amigos herdeiros de alguma coroa”, brinca a artista. Em seu apartamento, a mesa de jantar é ornamentada por cadeiras dos anos 1960 herdadas pelo marido. Entre elas, figuram dois exemplares da moderna cadeira Louis Ghost, do famoso designer Philippe Starck. Sobre um bufê retrô (herdado junto com as cadeiras anos 1960), baixelas e jarros de murano, que pertenceram à avó e a uma tia-avó de Stella, colorem o ambiente.

O padrão da sala de jantar se repete por todo o apartamento. Uma mesa de jantar de madeira maciça, da família do marido, redonda, pesada e pequena, virou mesa de apoio da sala de estar.

 

Mesa de jantar é ornamentada por cadeiras dos anos 1960 herdadas pelo marido de Stella Lopes: entre elas, duas cadeiras Louis Ghost, do moderno designer Philippe Starck (Fotos: Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Mesa de jantar é ornamentada por cadeiras dos anos 1960 herdadas pelo marido de Stella Lopes: entre elas, duas cadeiras Louis Ghost, do moderno designer Philippe Starck

Na sala de televisão, uma chaise amarela dos anos 1970 ao lado de uma mesinha de madeira, que já viveram em casas de outros familiares da família Lopes. Tudo ali, misturado, funciona de forma perfeitamente harmônica. O segredo? “Penso num mundo melhor, sem lixo, sem moda, sem medos de errar. O que temos é o bom da hora! Sendo assim, não há por que dar errado, não precisa combinar, beleza e belo se completam fugindo do lugar-comum. Se herdar com gratidão e pintar o jacarandá da Bahia de vermelho ou pink, com certeza seus antepassados ficarão felizes também.

Perigoso é ganhar alguma coisa e ficar reclamando: ‘Onde meto essa coisa horrível!?’. Dê de presente para quem gosta, venda”, ensina.

 

Móvel de família de Stella Lopes: serve de apoio a outras peças antigas, como o relógio (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Móvel de família de Stella Lopes: serve
de apoio a outras peças antigas, como
o relógio
O designer de interiores Rogério Cavanellas explica a mistura do moderno com o antigo é sempre bem-vinda e, quando feita com cuidado, traz sofisticação. “A vantagem de se ter um móvel herdado vai de uma avaliação sentimental ou mesmo financeira, pois essas peças de valor venal podem ser úteis em alguns momentos das nossa vidas”, explica. A sua experiência pessoal confirma a teoria. Cavanellas tem três peças de família em sua casa, herdadas dos avós mineiros. Coisa autêntica de fazenda. Além dos móveis, objetos decorativos que contam parte da história de seus antepassados ornamentam o lar. “São coisas que estão na família há mais de 100 anos. Garimpei parte desses tesouros em uma das minhas idas a fazenda do meu avô, no interior de Minas. Não abro mão deles, pois fazem parte da minha história pessoal de vida.”

 

Entre os velhos queridinhos está um armário para mantimentos que, em sua casa, virou uma cristaleira, onde guarda taças, porcelanas e cristais. E uma mesa antiga que virou o rack do home, sob a televisão. O profissional ensina que é preciso olho técnico para avaliar o que merece reaproveitamento. Enquanto alguns objetos podem ser uma cilada e outros caírem bem na sua casa, alguns também podem ser verdadeiramente valiosos. Na dúvida, vale dar um pulo em um antiquário ou em uma loja de restauração e descobrir se a peça tem mesmo valor. “Se você não estiver pessoalmente preocupado em valor financeiro, deixe fluir seu desejo, seus sentimentos, e faça desta peça parte da sua história de vida”, aconselha. 

 

A curadora Karla Osório, com a cadeira que ganhou da sogra: 'As peças de família dão um toque pessoal e um contraste interessante' (Minervino Júnior/Encontro/DA Press
)
A curadora Karla Osório, com a cadeira
que ganhou da sogra: "As peças de
família dão um toque pessoal e
um contraste interessante"
De tudo um pouco

 

Na casa da curadora Karla Osório, são pelo menos 10 peças cheias de história espalhadas com elegância pela área íntima e social da casa. Algumas doadas por familiares e outras herdadas de parentes que faleceram. De uma mesa de apoio que foi de sua avó à cama que pertenceu à mãe de sua sogra. "Creio que o móvel de família agrega muito valor à decoração, pois permite o contraste entre o clássico e o moderno, dando ao ambiente um toque pessoal, de lembranças e tradição que é muito agradável no dia a dia de cada um", opina.

 

Entre seus queridinhos, estão as cadeiras antigas que eram da sogra desde o casamento dela, nos anos 1950, e as arcas mineiras, antigos "baús de tesouros", onde Karla guardava preciosidades da infância e da adolescência, como bonecas, roupinhas e brinquedos. "Era o cofre com tudo que tinha de mais importante na época, com chave e tudo", lembra.

 

Para Karla, a brincadeira de misturar o novo com o antigo está longe de ser trabalhosa. Sempre interessada por arquitetura e design, e envolvida no universo da arte contemporânea, compôs as misturas sem a ajuda de profissionais. "Acho muito fácil e agradável misturar móveis de diferentes estilos na decoração, sobretudo de uma casa. Dá um toque pessoal e um contraste interessante, que enriquece o ambiente, dando uma 'alma' ao local. Acaba transmitindo um pouco a personalidade de quem reside no espaço e isso é muito importante para evitar ambientes frios, como se vê em vitrines mais comuns." 

Para a artista e empresária Stella Lopes, tudo o que tem é história: 'Mas nem tudo que herdamos tem a minha cara, então fui trocando as funções, as cores'. (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Para a artista e empresária Stella Lopes, tudo o que tem é história: "Mas nem tudo que herdamos tem a minha cara, então fui trocando as funções, as cores".

Misture do jeito certo

 

- A mistura de estilos na casa pede mais ousadia e menos preocupação. A ideia só é perigosa em casas muito padronizadas, ou seja, com móveis todos iguais. Ainda assim, é um bom começo para quebrar a rotina.

 

- Pense em novas funções para o objeto. Um banco pode se tornar uma mesa de centro. Um bufê pode virar um rack com novos pés, um bule pode ser usado como um vaso de flores e um aparador pode se transformar em uma mesinha prática de estudos.

 

- Reformar o objeto também garante um ar de modernidade. Um móvel escuro e pesado ganha humor e sofisticação se pintado de cores fortes.

 

A parede azul do apartamento de Isabel Tavares: destaque para peças de família (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
A parede azul do apartamento de Isabel Tavares: destaque para peças de família

- Casas com móveis de diferentes materiais e cores costumam receber melhor peças antigas.

 

- Belas peças merecem destaque na decoração. Prateleiras ou em contraste com paredes coloridas são boas ideias para que a "herança" chame atenção do olhar.

 

- Nem todas as peças de família estão prontas para o uso. Verifique se a peça não pede uma reforma ou, em caso de móveis de madeira, tratamento contra cupins. 

 

Uma viagem no tempo e nas cores

 

A socióloga Isabel Tavares mostra uma toalha bordada: herança da bisavó
 (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
A socióloga Isabel Tavares mostra
uma toalha bordada: herança da
bisavó
Basta entrar pela porta principal do apartamento da socióloga Isabel Tavares para fazer uma pequena viagem no tempo. A primeira visão é de um paredão azul-turquesa, com quadros e móveis antigos fazendo o contraste perfeito para o devido destaque das peças. O equilíbrio exato do bom humor da cor vibrante com a seriedade das antiguidades expostas ali.

 

Quadros que foram pintados pela mãe dela, uma cadeira thonet clássica, peças de prata que pertenceram aos avós. Tudo sobre uma cômoda de madeira de demolição.

 

No alto da porta da varanda, porcelanas antigas de família e, no canto da sala, um pé de máquina de costura que ganhou um tampo de vidro amarelo e virou aparador. A grande sacada da decoração da casa de Isabel é justamente essa. Unir elementos tão diferentes e, com a cor, torná-los, de alguma forma, complementares.

 

O pé da máquina de costura ganhou tampo de vidro amarelo: um novo aparador (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
O pé da máquina de costura ganhou
tampo de vidro amarelo: um novo
aparador
“Guardo tudo isso com muito carinho, é um pedaço da minha história. Não tenho muitos móveis de família porque, como viemos de Portugal, não foi possível trazer objetos grandes. Tenho um pé de máquina de costura que foi da minha avó e muitas louças, castiçais, toalhas bordadas e de crochê, objetos pequenos e quadros pintados pela minha mãe”, conta.

 

Entre as peças mais impressionantes estão toalhas tecidas e bordadas por antepassados do século XIX, as baixelas de prata e uma mala de couro e madeira, no pé da cama, usada quando ela e seu pai deixaram Portugal de navio, rumo ao Brasil.

 

“Acho que a casa fica mais interessante quando ela tem um pouco de história em seus objetos. As toalhas da minha bisavó, por exemplo, são incríveis. Acho fantástico alguém ter fiado, tecido e bordado um pano para transformá-lo em toalha. E hoje isso estar nas minhas mãos. E espero, um dia, na dos meus filhos e netos”, diz.

 

A coleção de minilouças, um serviço de chá de porcelana Vista Alegre, herdado da infância da mãe, também está entre as peças mais queridas da casa. 

No quarto de Isabel, ao pé da cama: mala que trouxe de Portugal a bagagem da família na viagem de navio (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
No quarto de Isabel, ao pé da cama: mala que trouxe de Portugal a bagagem da família na viagem de navio

Detalhe do quarto da socióloga Isabel Tavares: armário herdado (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Detalhe do quarto da socióloga Isabel Tavares: armário herdado
 

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017