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CIDADES | MEMÓRIA »

Testemunha da história

Aos 88 anos, Lulu Landwehr conserva as dolorosas lembranças do antissemitismo e do campo de concentração de Auschwitz. Sobrevivente do Holocausto, ela chegou a Brasília em 1960. E não saiu mais

Rodrigo Craveiro - Redação Publicação:09/07/2013 17:46Atualização:09/07/2013 17:57

 

Os olhos verdes logo dão lugar ao vermelho marejado pelas lágrimas. É uma manhã ensolarada de segunda-feira e o apartamento na Asa Sul vai acomodando ainda dolorosas lembranças de um passado que teima em se fazer presente. Os quadros, as esculturas, as flores espalhadas pela ampla sala, os gatos que roçam caprichosamente em nossas pernas parecem ser uma espécie de catalisador de memórias daquela década de 1940.


“Quem é esse?”, responde-me, após eu questioná-la se ela acredita que está viva graças a Deus. Aos 88 anos, Lulu Landwehr é uma sobrevivente. Três vezes. Resistiu ao antissemitismo, escapou do Holocausto e driblou a tuberculose, uma espécie de sentença de morte na época. Em 1960, encontrou o seu amor na forma de Brasília.

 

Foi na capital que assentou seu novo lar, cercada pelos filhos e pelos netos. A romena nascida em Oradea, às margens do rio Crisul Repede, quase na fronteira com a Hungria, jamais havia falado sobre o pesadelo do nazismo com um jornalista. A primeira entrevista, concedida a Encontro Brasília, começou de modo tímido. Até que as lembranças chegaram e ela se transportou para a época da Segunda Guerra Mundial.


“Começou quando fui tirada do meu convívio. É difícil falar... Todo o processo teve início já na escola, com o antissemitismo”, lembra Lulu. “Eu convivi com isso diariamente.”

Quando os alemães invadiram a Romênia, em 7 de outubro de 1940, ela tinha 15 anos. Quatro anos depois, Lulu, os dois irmãos e os pais viram-se dentro de um trem apinhado de gente, em condições subumanas, sendo levados para o campo de extermínio de Auschwitz, na Polônia. Ela e a irmã tiveram o último contato com o restante da família logo após o desembarque. “Ainda não sei do paradeiro de meu irmão”, lamenta. “Não tenho palavras para descrever o tipo de vida que levávamos em Auschwitz.”


Ela se cala e chora. “Vocês não podem imaginar o estado que a gente fica depois de meses de falta de comida”, acrescenta. Foram três meses de pesadelo em Auschwitz. As rações diárias se resumiam a uma espécie de mingau sem consistência, oferecido duas vezes ao dia. Durante o período em que sobreviveu ali, Lulu não viu corpos, mas sabia que algo horrível estava acontecendo. “Eu só via uma chaminé da qual saía fumaça. Todos os dias, todas as horas, os nazistas diziam: ‘Vocês vão virar fumaça’. Eu não entendia aquilo”, relata.


Lulu não atribui a uma intervenção divina o fato de ter sido poupada da morte. “Não acredito em Deus. O senhor acredita? Para mim, ele nunca existiu”, arremata. A entrevista é interrompida quando a porta se abre e uma jovem sorridente aparece. “Oi, meu amor... Essa é minha neta”, sorri Lulu, que logo retorna ao tema religião. “Ao mesmo tempo, sou muito judia. É uma contradição. Não sei se é por causa da discriminação que sofri que eu tenho a convicção de ser judia”, comenta, antes de voltar a se calar por alguns segundos. Ela sorri ao ser questionada sobre o fato de algumas pessoas, entre elas, o presidente iraniano, Mahmud Ahmadinejad, negarem a existência do Holocausto. “Elas não estavam lá. Elas que deixem dizer quem presenciou (o Holocausto)”, afirma.

Sobrevivente do Holocausto, do preconceito e da tuberculose, Lulu ainda sofre com as memórias: 'Não tenho palavras para descrever o tipo de vida que levávamos em Auschwitz' (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Sobrevivente do Holocausto, do preconceito e da tuberculose, Lulu ainda sofre com as memórias: "Não tenho palavras para descrever o tipo de vida que levávamos em Auschwitz"

Cerca de 1,3 milhão de pessoas, incluindo 1,1 milhão de judeus, morreram nas câmaras de gás de Auschwitz. Apenas 190 mil cruzaram os portões do campo, em 27 de janeiro de 1945, depois da chegada das forças norte-americanas. “Minha sorte foi ter sido selecionada para trabalhar numa fábrica muito grande de munições, da Alemanha. Isso que me salvou”, diz Lulu. Ela se recorda especialmente de um sábado de manhã. “O céu ficou preto de aviões. Eu não parecia acreditar. Fomos libertados e podíamos ir para onde quiséssemos. Éramos 10 meninas amigas. O irmão de uma delas nos achou e nos deu dinheiro. Cada uma foi para sua casa”, descreve. O retorno para casa foi marcado pelo vazio e pela certeza de que seria preciso recomeçar a vida, sem os pais, que morreram na câmara de gás. Os olhos de Lulu vasculham a sala. Pergunto-lhe se as memórias ainda a atordoam. “O passado parece presente. Está muito vivo ainda”, admite.


Com o fim da Segunda Guerra Mundial, Lulu pretendia se mudar para os Estados Unidos, onde tinha familiares. Na Alemanha, a imigração norte-americana a obrigou a repensar os planos. A tuberculose, acusada no exame médico, mudou os rumos da romena. Internada em um sanatório, permaneceu ali por um ano sob cuidados médicos, até se curar. Após a alta, viveu em Oradea, casou-se e veio para o Brasil, onde morou um tempo em São Paulo. O marido de Lulu era proprietário de uma indústria de móveis e recebia várias encomendas do Distrito Federal. “Vim para Brasília em 1960. Brasília foi um amor à primeira vista e ela continua sendo o meu amor. Ela faz parte de mim, porque comecei minha vida com Brasília, cresci com ela. Gosto muito daqui, gosto de absolutamente tudo”, comenta Lulu.


O sofrimento do passado moldou suas convicções em relação ao ser humano. Lulu não admite o racismo e o preconceito. “Eu tento não tomar conhecimento, simplesmente nego que exista qualquer tipo de preconceito”, diz. A mulher que escapou dos horrores do nazismo também repudia o extremismo, seja ele político ou religioso. “Não é mais tempo para o terrorismo. Não podemos presenciar exageros de ódio.” Antes de finalizarmos a entrevista, Lulu se diz surpresa. Conta que ninguém jamais se interessou por sua história. Uma história tão viva quanto o jardim que enfeita o seu bloco e traz alento à lembrança de tanta dor.

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017