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POLÍTICA | GOVERNO LOCAL »

O jogo da sucessão

A pouco mais de um ano das eleições majoritárias, as forças políticas começam a se agrupar mirando o trono do Palácio do Buriti. Aliados do governador Agnelo podem apoiar outras candidaturas

Ana Maria Campos - Publicação:17/07/2013 14:51Atualização:17/07/2013 15:00

 

Na última campanha, Agnelo Queiroz (PT) exibiu uma ampla aliança em torno de sua candidatura. Liderada pelo petista, a coligação Novo Caminho elegeu os dois senadores e os deputados federais mais votados. Subiram no palanque do petista até mesmo adversários históricos, como integrantes do PMDB, partido que, no passado, deu suporte a Joaquim Roriz.


Eleito em 2010, o governador do DF tem administrado a capital do país com uma base ampla na Câmara Legislativa. Dos 24 deputados distritais, 21 são governistas, apesar de algumas divergências pontuais. Há uma candidatura à reeleição dada como certa. No lado adversário, a desorganização e a falta de nomes viáveis, principalmente em decorrência do tsunami político provocado pela Operação Caixa de Pandora e a Lei da Ficha Limpa, criaram um vazio na oposição, a completa falta de rostos com potencial para se contrapor ao poderio do PT.


Na política, no entanto, não há vácuo de poder. Três anos depois do início da aliança vitoriosa, surgem da própria coligação de Agnelo os principais adversários para 2014. O governador do DF rompeu com os dois senadores eleitos em 2010, Cristovam Buarque (PDT) e Rodrigo Rollemberg (PSB), e o vice-governador Tadeu Filippelli (PMDB) dá sinais de que está aberto à volta ao passado, a uma nova parceria com os ex-governadores Joaquim Roriz e José Roberto Arruda, com quem já dividiu o poder.


Ambos sem partido, Roriz e Arruda enfrentam dificuldades para liderar uma chapa ao Palácio do Buriti, mas ainda têm força para influenciar o resultado de uma eleição. “Temos ouvido muito nas ruas que é hora de o PMDB lançar candidato próprio. A decisão será do vice-governador e nós, do partido, respeitaremos”, afirma o deputado distrital Rôney Nemer (PMDB), um dos principais discípulos de Filippelli.


Secretário de Obras nos primeiros meses da administração petista, Luiz Pitiman, que chegou à Câmara dos Deputados também pela aliança entre PT e PMDB, é mais um dissidente. Ele busca uma legenda da oposição para se filiar e colocar em prática os planos de concorrer à cadeira de Agnelo. O pee-medebista tem usado a tribuna parlamentar para fazer críticas ao governo e marcar uma posição no jogo. “Meu desejo é aglutinar PSDB, DEM, PP e PSD em torno de uma candidatura forte. Quando conquistarmos a unidade, vamos escolher o nome para liderar o grupo”, afirma Pitiman.


A pessoas próximas, o deputado tem dito que atua como um jogador no banco de reservas, acompanhando a partida. Treina muito e está de uniforme, pronto para entrar em campo se algum titular se machucar. Entre os principais jogadores, Pitiman destaca Roriz, Arruda e Filippelli, os nomes com mais capacidade de unir uma legião de correligionários para enfrentar Agnelo.

Em 2010, a aliança que deu a vitória a Agnelo Queiroz e que provavelmente não se repetirá no ano que vem: o então candidato ao governo com Tadeu Filippelli, Rodrigo Rollemberg e Cristovam Buarque (Carlos Silva/Esp. CB/D.A Press)
Em 2010, a aliança que deu a vitória a Agnelo Queiroz e que provavelmente não se repetirá no ano que vem: o então candidato ao governo com Tadeu Filippelli, Rodrigo Rollemberg e Cristovam Buarque

Há dois meses, o vice-governador do DF fez as pazes publicamente com Joaquim Roriz, durante uma missa na Catedral Metropolitana de Brasília. Os dois antigos aliados tiraram fotos abraçados e selaram, assim, o fim de uma inimizade que os colocou em grupos opostos na última eleição.


Filippelli fez campanha com Agnelo contra a candidata Weslian Roriz (PSC), mulher do ex-governador abatido na campanha pelas regras da Lei da Ficha Limpa. “Para mim, foi importante encerrar esse episódio. Não é bom viver com mágoas”, disse o vice-governador sobre o reencontro.


Antes de tomar uma decisão sobre o caminho a seguir, Filippelli precisa analisar as pesquisas de opinião. Consultas que pipocam nos gabinetes de políticos indicam que ele não é um grande puxador de votos, mas a avaliação é de que há espaço para crescer, especialmente a depender dos aliados.


Uma das condições de Roriz para dispor de seu potencial eleitoral – pelo menos 25% dos votos consolidados – será a indicação de alguém de seu grupo para um dos cargos majoritários. O posto mais provável é a vice-governadoria e o nome: a deputada distrital Liliane Roriz (PSD), caçula do clã.


A decisão de Filippelli levará em conta também o desempenho da administração da qual faz parte. O governador do DF busca a reeleição tendo como parceiros o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a presidente Dilma Rousseff e um orçamento para investimentos que pode chegar a R$ 3,5 bilhões neste ano, mais do que os últimos três exercícios juntos.


Em 2014, Agnelo deve gastar quase quatro vezes mais com a concessão de reajustes salariais a servidores e com a realização de concursos públicos. É o que prevê a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) encaminhada em maio à Câmara Legislativa. O texto estabelece um montante de R$ 698 milhões para agradar ao funcionalismo público, quase quatro vezes mais do que neste ano. Em infraestrutura e obras, o investimento previsto é de R$ 2,5 bilhões. Esse montante será inferior ao destinado em 2013 porque parte dos recursos aplicados neste ano é direcionada à construção do Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha.


A arena estará totalmente pronta em 2014 e renderá dividendos políticos, acreditam petistas. “Vamos trazer muitos grandes shows, partidas de clubes da série A e a Copa do Mundo será um sucesso”, aposta o governador.


Para Agnelo, o sucesso de público na partida entre Santos e Flamengo, em 25 de maio, quando mais de 63,9 mil torcedores garantiram a maior renda da história do futebol brasileiro – R$ 6,9 milhões –, é uma demonstração de que o estádio de Brasília atrairá muita gente em todos os eventos.


A expectativa é de que o clima verde e amarelo da Copa do Mundo, apesar da recente onda de manifestações, também impulsione a campanha petista, junto com a divulgação de obras importantes, como a reforma do balão do Aeroporto Juscelino Kubitschek, a expansão do metrô e o veículo leve sobre rodas entre Gama e Santa Maria até o Plano Piloto.


O grupo de Agnelo conta com as realizações e o crescimento da popularidade para manter a frente de partidos. Há, no entanto, alguns entraves para repetir o grupo de 2010. Na última campanha, Agnelo fez eventos em todas as cidades ao lado de Rollemberg, Cristovam, Filippelli e José Antônio Reguffe (PDT), que se consagrou como o deputado federal proporcionalmente mais votado no país.


Rollemberg tem planos de concorrer ao Executivo e promoveu o desembarque de seu partido do governo. Nessa estratégia, o PSB perdeu integrantes que optaram pelo apoio a Agnelo e o cargo no governo. Mesmo assim, o senador precisa marcar uma posição nas próximas eleições. Com mandato até fevereiro de 2019, o socialista não perderá nada na eventualidade de uma derrota. Há uma determinação nacional do PSB de candidaturas nos estados com o propósito de alçar voos mais altos no pleito de 2018.


O governador de Pernambuco, Eduardo Campos, presidente nacional do PSB, tem planos de concorrer à Presidência da República. Se essa possibilidade se frustrar em 2014, ele tentará quatro anos depois. “O PSB tem incentivado as candidaturas nos estados e no DF. O lançamento de uma chapa própria aqui é uma possibilidade cada vez mais real”, afirma Rollemberg.


Nas costuras políticas, Rollemberg tem conversado com Reguffe, outro potencial candidato ao Buriti. O pedetista ainda não tomou uma decisão sobre seu futuro, mas já decidiu que não concorrerá a novo mandato de deputado federal. As opções são o Executivo, o Senado ou deixar a política. “Se eu concluir que não há como financiar uma campanha de forma limpa, não serei candidato”, compromete-se Reguffe.


Afastado de Agnelo desde o início do governo, o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) garante que estará em palanque diferente do petista em 2014. Para Cristovam, o plano A é apoiar a candidatura de Reguffe ao Buriti. Caso essa chapa não vingue, ele pretende apoiar Rollemberg ou Toninho do PSol, outro potencial concorrente ao governo.


A um ano das convenções partidárias, a movimentação nos partidos e as negociações de bastidores têm sido intensas. Agnelo precisa dobrar a jornada: governar e monitorar com lupa os aliados. Sabe que o inimigo pode estar ao lado.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017