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Mergulhos no céu e na água

Além de inspiração para poesias e encontros românticos, o céu de Brasília e o lago Paranoá tornaram-se atrativos para praticantes de esportes radicais

Vanessa Aquino - Redação Publicação:19/07/2013 18:09Atualização:19/07/2013 18:16

O paraquedismo é uma prática que ganha cada vez mais adeptos em Brasília: outra forma de curtir o céu, grande cartão-postal da capital (Zuleika de Souza/CB/DA Press)
O paraquedismo é uma prática que ganha cada vez mais adeptos em Brasília: outra forma de curtir o céu, grande cartão-postal da capital
 

Quem chega a Brasília não permanece indiferente às cores do céu e aos fins de tarde às margens do lago Paranoá. Há, porém, quem prefira interagir com esses dois cartões-postais por meio de esportes, como mergulho e paraquedismo. Em Brasília, o número de desbravadores da água e do ar é cada vez maior e há escolas e instrutores especializados para garantir uma prática prazerosa e segura.

Parte da história de Brasília, por exemplo, está escondida sob as águas turvas do lago Paranoá, e isso desperta a curiosidade de muita gente. Restos da antiga Vila Amaury e outros tesouros históricos da época da construção da capital ainda podem ser encontrados no fundo do lago artificial. Por meio do mergulho, é possível voltar ao passado e conhecer parte de um verdadeiro museu submerso, mas é preciso treinamento e instrução, necessários para que a prática seja segura.

Patrícia e Anderson Furtado mergulham juntos no Paranoá: planos para rodar o mundo desbravando outras águas (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A. Press)
Patrícia e Anderson Furtado mergulham juntos no Paranoá: planos para rodar o mundo desbravando outras águas

No Distrito Federal, há cursos específicos para formar mergulhadores, com aulas teóricas e práticas. “O curso básico tem seis encontros, mas o número de horas-aula depende do rendimento do aluno. Uma parte do curso é teórica, com material didático, em sala de aula. Depois, tem a parte da piscina, com cinco mergulhos e exercícios embaixo e em cima da água”, explica o instrutor de mergulho da Scubadu Luciano Heusner. Ele esclarece que na piscina o aluno começa a criar confiança no equipamento e em si próprio. Após esses testes, é chegada a hora de mergulhar em ambiente aberto, como o Paranoá.

A baixa visibilidade das águas do lago faz do local um ponto eficaz de treinamento para enfrentar situações adversas. De acordo com Luciano, o melhor período para mergulhos é durante a época de estiagem, que vai de maio a setembro. “A visibilidade do lago é um pouco restrita. Varia de dois metros, em períodos de chuvas, a seis metros, durante a seca. Onde há mais fluxo de pessoas e embarcações também há menor visibilidade”, orienta. O instrutor diz também que alguns objetos submersos são úteis para orientar o aluno quanto aos cuidados e perigos que pode enfrentar. “Na barragem, tem um ônibus e uma Kombi. Para vê-los, é preciso ter certo tempo de prática, mas nós conseguimos fazer uma introdução de mergulho em naufrágio. Não é um barco naufragado, mas conseguimos passar para o aluno os riscos que ele pode enfrentar.”
O instrutor Luciano Heusner faz mergulhos no lago Paranoá: visibilidade é um pouco restrita (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A. Press)
O instrutor Luciano Heusner faz mergulhos no lago Paranoá: visibilidade é um pouco restrita

De acordo com Luciano, as práticas em ambientes abertos devem ser feitas em duplas por questão de segurança e conforto. E foi com o objetivo de compartilhar experiências debaixo d’água que o casal Patrícia e Anderson Furtado resolveu fazer o curso de mergulho. “Quem me incentivou foi meu marido. Um amigo dele fez e disse que era muito legal praticar em casal”, diz Patrícia. Anderson acredita que, além de tudo, o mergulho tem um lado social. “Você tem de ficar ao lado dos outros, então acaba se socializando com as pessoas. E o engraçado é que você não precisa falar nenhuma língua, porque os códigos são universais e respeitados no mundo inteiro.”

O casal conta que pretende usar os conhecimentos do curso em viagens, como uma forma de conhecer outros aspectos e explorar a diversidade natural dos locais. “Nós pretendemos fazer uma coisa diferente, porque toda vez que viajamos para fora acabamos visitando o país, mas sem um foco. Nós identificamos no mergulho uma oportunidade para conhecer os países com um foco diferente”, relata Anderson. Patrícia diz, ainda, que conseguiu superar os receios que tinha. “Acabei perdendo o medo do desconhecido. Comecei a me encantar. Eu quero ver o ônibus submerso no lago Paranoá e fazer mergulhos em cavernas.” Anderson garante que as práticas no lago ajudam a enfrentar situações adversas em qualquer ambiente de mergulho. “O lago é o melhor lugar do mundo para mergulhar porque ele lhe dá todas as condições adversas que você vai enfrentar fora daqui. Você acaba tendo um curso diferenciado. Os cuidados devem ser muito maiores porque a água é muito turva.”
O instrutor de paraquedismo André Gago salta há 34 anos: é seguro, desde que haja treinamento (Arquivo Pessoal)
O instrutor de paraquedismo André Gago salta há 34 anos: é seguro, desde que haja treinamento

Interagir com o céu inspirador do cerrado também é desejo de muitos que encontraram no paraquedismo uma maneira de tornar isso possível. A modalidade ganhou adeptos tanto para saltos duplos quanto para saltos individuais. No entanto, alguns cuidados são necessários para que a prática seja prazerosa e segura. O instrutor André Gago, filiado à Federação de Paraquedismo do Distrito Federal, salta há 34 anos e garante que, apesar de ser um esporte com riscos inerentes, é seguro, desde que haja treinamento. “Se for bem conduzido, com um bom curso, bons equipamentos e poucos alunos, é seguro. Uma coisa que tem acontecido, por causa dos sites de ofertas, é que há muitos alunos para pouco instrutores. Os cursos ficam baratos e as turmas, muito grandes, e isso tem provocado acidentes. Quando acontece um acidente, todo mundo paga. E o esporte parece ser mais perigoso do que realmente é”, alerta.

André Gago explica que o passageiro do salto duplo não precisa de instrução. A responsabilidade é toda do instrutor. Mas, para quem deseja fazer saltos individuais, é preciso fazer um curso de 12 horas, com aulas teóricas e condicionamento para a estreia, na qual não precisa comandar o paraquedas principal. Nesse caso, é feito o acionamento e o paraquedas abre automaticamente. Durante o curso, são realizados seis saltos, mas a queda livre só acontece no sétimo, quando o aluno comanda o paraquedas principal.

De acordo com Gago, em Brasília não há um local para saltos, que são realizados em Anápolis, Formosa e Luziânia. Para demonstrações, os praticantes experientes usam o estacionamento do Pier 21 e a Esplanada dos Ministérios, que não podem ser usadas por alunos. “Para o aluno, é preciso ter uma área melhor e a federação não tem esta área. ” O instrutor diz também que é preciso ter autorização da Aeronáutica e liberação do espaço aéreo para a realização dos saltos, o que evita acidentes.
Jussara Alves ganhou de presente dos filhos um salto em família: 'Uma experiência audaciosa e emocionante' (André Gago/Divulgação)
Jussara Alves ganhou de presente dos filhos um salto em família: "Uma experiência audaciosa e emocionante"

Luiz Augusto Alves de Carvalho, de 24 anos, e os irmãos resolveram dar de presente à mãe, Jussara Alves, de 56 anos, um salto em família. Durante o feriado da Páscoa do ano passado, os três irmãos se reuniram e levaram a matriarca para o salto duplo. “Foi a realização de um sonho. Não tenho medo de altura e sempre tive uma queda por esportes radicais. Apesar disso, é impossível não sentir o friozinho na barriga ao ir chegando perto da porta aberta do avião a mais de 12 mil pés. Entretanto, chegando em terra firme é pura adrenalina, e só o que vem à cabeça é: quero ir de novo agora. No fim das contas, foi uma coincidência maravilhosa poder realizar esse sonho com a minha família”, relata Luiz.

Jussara diz que sentiu um pouco de desconfiança em relação ao profissionalismo das pessoas envolvidas, mas garante que superou o medo quando teve contato com os instrutores. “Percebi a seriedade daquele pessoal treinado para realizar o sonho de estar nas alturas alçando voo, confirmado pelo êxito e pela alegria ao voltar a pisar na terra.”

Para ela, a experiência foi marcante: “Audaciosa, corajosa, emocionante e eterna. Traduzo a experiência nessas palavras, mas acho mesmo que é uma emoção única, portanto, indescritível.”
O filho mais velho, Henrique Leandro de Souza, de 35 anos, completa a descrição do momento. “A coragem da mãe nos deu mais coragem e segurança. Uma mãe solteira que criou muito bem os três filhos e que tem um espírito tão jovem e aventureiro é de se invejar e ser usada como exemplo.”

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017