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Luz, câmera e ação!

Alguns dos mais promissores e talentosos diretores brasilienses estão em pleno processo de amadurecimento e encaram, em 2013, o desafio de filmar o primeiro longa-metragem de suas carreiras

Gustavo Marcondes - Redação Publicação:25/07/2013 14:18Atualização:25/07/2013 14:54
 (Divulgação)

Em 2013, Brasília virou foco do cinema nacional ao ser cenário de dois dos filmes mais falados do ano: Somos Tão Jovens, do paulista Antonio Carlos da Fontoura; e Faroeste Caboclo, do brasiliense René Sampaio. Mas não é só a banda Legião Urbana que inspira a cidade a colocar as câmeras em ação. Prova disso é a chegada à maturidade de um grupo de cineastas locais que prepara os primeiros longas-metragens da carreira e que promete consolidar a capital como um dos redutos da sétima arte no país.


Nesse grupo, encontram-se os multipremiados curta-metragistas Iberê Carvalho, Santiago Dellape e Bruno Torres. Após uma década trabalhando no formato, os três deram o passo que todo cineasta espera quando pega numa câmera pela primeira vez: a filmagem de um longa. Em estágios diferentes da produção, os três celebram momento favorável ao cinema local.


Cada um a seu modo, Bruno, Iberê e Santiago seguem o caminho pavimentado por diretores como José Eduardo Belmonte e Betse de Paula, que, no começo da década passada, recolocaram Brasília no mapa do cinema nacional de ficção. Uma história que também inclui autores como Gustavo Galvão e Mauro Giuntini, ambos produzindo o segundo longa.


“Gosto de acreditar que estamos vivendo no Distrito Federal o que Pernambuco viveu há 10 anos: uma geração de curta-metragistas que começa a fazer bons longas, inovadores e de baixo orçamento”, analisa Iberê Carvalho, que filma O Último Cine Drive-in em julho e agosto deste ano, após nove curtas na carreira. “Espero que esse não seja um boom momentâneo.”


“Fico orgulhoso de ver tantos diretores da cidade evoluindo para o longa. Acho que fazemos parte de uma geração muito ativa e empreendedora. Sempre buscamos fazer cinema independentemente de termos patrocínio”, diz Santiago Dellape, diretor de sete curtas, que finaliza o roteiro e realiza a pré-produção de O País do Futuro, com previsão de filmagem para 2014. Para ele, um dos méritos dessa geração é refletir o mosaico de culturas presentes na cidade. “Temos muitos estilos, desde a comédia besteirol até o drama social.”


“Apesar de me considerar bastante vagador, tenho orgulho da formação brasiliense. Essa é uma geração que traz novas ideias ao cinema nacional”, elogia Bruno Torres, com quatro curtas e um média-metragem como diretor. Ele filmará A Espera de Liz no primeiro semestre do próximo ano.
A geração de cineastas inclui até quem fez carreira em outras funções. Como Marcus Ligocki, experimentado produtor de cinema (Rock Brasilia - Era de Ouro), televisão (Cidades Inventadas) e publicidade que se prepara para filmar Efeito ex-marido após apenas um curta como diretor.


A empolgação deles, porém, caminha lado a lado com os desafios de administrar uma produção muito mais complexa. “Dirigir um longa é diferente de tudo”, resume Bruno Torres, com a experiência de quem já participou de 18 filmes no formato em diversas outras funções.


As mudanças começam na própria elaboração da história. “Uma boa ideia segura um curta, mas não um longa. Ela pode até ser a espinha dorsal da história, mas tem de ter muito mais sustento”, observa Santiago, que, rápido, escreveu a primeira versão de O País do Futuro em cerca de seis semanas. “Ao escrever um longa você tem que lidar com coisas novas, como ritmo de narrativa, aprofundamento e coerência dos personagens”, completa Iberê. Ambos trabalharam com um consultor de roteiro no processo de finalização do texto.


Marcus Logocki, por exemplo, demorou quase 10 anos para ficar satisfeito com o roteiro do primeiro longa, após cinco textos originados de outros argumentos serem descartados no meio do caminho. “Nesse, eu finalmente tenho confiança”, diz o autor de Efeito ex-marido, neste momento atrás de financiamento para começar a produção.


Além da elaboração do roteiro, Iberê Carvalho aponta várias outras mudanças que podem surpreender o diretor que se aventura no longa. “Há alterações na captação de recursos, na produção, na negociação com os atores, nos contratos firmados... É um trabalho de coordenação, não simplesmente criativo”, analisa. “O curta é visto basicamente como um bem cultural. Já o longa é também como um bem comercial, e isso trás novas responsabilidades.”


O resultado da passagem desses brasilienses para o longa-metragem começará a ser visto no primeiro semestre de 2014, quando o filme de Iberê deve ser finalizado. Provavelmente, no fim do próximo ano, será a vez de Bruno Torres passar pelo crivo do público, enquanto Santiago e Marcus planejam o lançamento de seus trabalhos para 2015.

 

O último cine drive-in do país

O ator Othon Bastos ao lado do diretor Iberê Carvalho: juntos no longa O Último Cine Drive-in (Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
O ator Othon Bastos ao lado do diretor Iberê Carvalho: juntos no longa O Último Cine Drive-in

Para Iberê Carvalho, o curta-metragem sempre apresentou a dificuldade de emocionar o espectador. “É complicado fazer o público se identificar com os personagens.” Com O Último Cine Drive-in, história de um filho que está perdendo a mãe e vai ao encontro do pai, ele espera finalmente superar essa limitação. 

 
Para isso, conta com o apoio de equipe de peso, simbolizada no ator Othon Bastos, que se empolgou com o roteiro e topou ser produtor associado da Pavirada Filmes, da qual Iberê é sócio. Bastos viverá Almeida, o dono do drive-in, tão apaixonado pela sétima arte que deu ao filho o nome de Marlombrando.


A produção tem orçamento de R$ 1,4 milhão – ganhou editais do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal e da Petrobras. “O roteiro (com Zé Pedro Gollo) foi pensado para poucas locações, centrado nas relações dos personagens”, explica Iberê, admitindo um frio na barriga. “Mas estou confiante. Tenho uma equipe muito boa e confio na força dos personagens.”

 

Do Oiapoque ao Chuí

Bruno Torres, sobre o seu filme A Espera de Liz: 'Espero sirva de cartão de visitas' (Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
Bruno Torres, sobre o seu filme A Espera de Liz: "Espero sirva de cartão de visitas"

Escrito para ser filmado no Rio Grande do Sul e no Amapá, A Espera de Liz é bem mais simples do que a distância das locações pode sugerir. O roteiro de Bruno Torres não exige uma grande estrutura (tem cinco personagens) e aposta nas possibilidades de linguagem que o frio gaúcho e a Amazônia apresentam como opostos. “Considero esse um longa autoral e espero sirva de cartão de visitas”, explica.


A história é contada da perspectiva da ausência e da solidão, com a protagonista feminina sendo o fio condutor e o protagonista masculino permanecendo oculto na trama. O roteiro foi escrito ao longo de dois anos e tem o foco mais no visual que na dramaturgia.


A filmagem está marcada para abril e maio de 2014, com orçamento de R$ 1,2 milhão (verba do Ministério da Cultura). Nela, Bruno espera somar a experiência obtida em mais de 10 anos de trabalhos como ator, assistente de direção, fotógrafo e montador, entre outras funções.

 

Concretização do sonho

Marcus Ligocki prepara-se para filmar Efeito ex-marido: a empolgação caminha ao dado de desafios de administrar a produção de um longa (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
Marcus Ligocki prepara-se para filmar Efeito ex-marido: a empolgação caminha ao dado de desafios de administrar a produção de um longa

Depois de trabalhar por mais de uma década como produtor e roteirista para televisão, Marcus Ligocki está bem perto de realizar o sonho que tem desde que decidiu trabalhar com cinema: contar boas histórias.


O trabalho árduo na escrita de diversos roteiros depois descartados resultou na comédia Efeito ex-marido, a história de uma mulher que se reencontra consigo mesma após a separação.


O roteiro contou com a consultoria do produtor americano Bruce Block, que participou de diversas comédias de sucesso em Hollywood. “Consegui com ele as informações que buscava havia anos”, festeja Ligocki, que encara agora a missão de captar R$ 6,9 milhões. O que não desanima o autor. “Se tivesse um filme a fazer na vida, sei que seria esse.”

 

Aventura científica

 

'Fazemos parte de uma geração empreendedora. Sempre buscamos fazer cinema independentemente de patrocínio', diz Santiago Dellape (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
"Fazemos parte de uma geração empreendedora. Sempre buscamos fazer cinema independentemente de patrocínio", diz Santiago Dellape

Apesar de se orgulhar de fazer parte da atual geração de diretores brasilienses, Santiago Dellape considera-se um “peixe fora d’água”. Adepto da aventura, da ficção científica e da comédia, ele pratica um cinema que (longe de deixar de ser autoral) olha com atenção para o público.


Para a elaboração de O País do Futuro – uma trama que envolve viagem no tempo, um atentado militar no Nilson Nelson e um detetive atrapalhado, escrita ao lado de Davi Mattos –, o diretor fez algumas sessões de leitura de roteiro.  “Desde nosso último curta (Ratão), fazemos esse processo colaborativo. Ter esse tipo de opinião ajuda muito.”


Santiago tenta captar mais R$ 1 milhão, que será somado aos R$ 900 mil captados pelo Fundo de Apoio à Cultura do DF. A ideia é firmar uma parceria com uma produtora paulista e tentar o edital do Fundo Setorial do Audiovisual

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017