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Cães que sentem demais

Ciúmes, depressão e outras emoções, tão comuns a seres humanos, também acometem os animais, especialmente os cachorros

Maria Fernanda Seixas - Redação Publicação:09/08/2013 16:48Atualização:09/08/2013 16:58
Meibe, com Negresco e Doce de Leite, ambos adotados: ele ficou deprimido quando a fêmea ficou prenha e se mudou no canil; ela tem comportamento agressivo (Bruno Pimentel/Encontro/DA Press
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Meibe, com Negresco e Doce de Leite, ambos adotados: ele ficou deprimido quando a fêmea ficou prenha e se mudou no canil; ela tem comportamento agressivo

 

Todo mundo tem um parente ou um amigo que se encaixa em algum dos estereótipos de comportamentos taxados como difíceis. O marido ciumento, o colega apelão, o vizinho barulhento ou o estudante ansioso. No mundo animal, tais comportamentos também são comuns, e igualmente incômodos. Em especial, no universo dos cães.


O contato tão próximo com o ser humano e o afastamento de sua rotina intuitiva e selvagem, combinados com experiências traumáticas ou a falta de tato do dono, moldam cachorros com personalidades cada vez mais problemáticas. Mas, diferentemente das pessoas, cães não contam com um divã para resolver os próprios dramas pessoais. O resultado é uma rotina pouco agradável. De um lado, um animal desequilibrado; do outro, o dono insatisfeito.


De acordo com o psicólogo especializado em comportamento animal Renato Buani, do Perfect Dog, o comportamento do cão é um resultado, na maioria dos casos, da mistura de fatores como raça, genética, ambiente, estímulos e experiências. “O cão normalmente interpreta essas informações com sua personalidade individual, podendo, assim, avaliar ou adaptar o que foi aprendido e racionalizar (claro, de forma limitada) como aquela experiência fará parte do seu comportamento presente e futuro. Em quase 80% de nossas visitas aos clientes, o problema está na forma equivocada de manejo, má informação ou erro na interpretação dos proprietários”, ensina.


Os perfis mais comuns que chegam a adestradores e especialistas são os dos ciumentos, ansiosos, hiperativos, tristes e apáticos, inseguros, agressivos e, finalmente, os cães barulhentos. Em alguns casos, tais comportamentos se tornam patológicos e os donos passam a conviver com um problema severo dentro de casa. O importante, ao detectar o comportamento exagerado, é identificar a causa e buscar ajuda, se necessário.


Originalmente, cães viviam em matilhas e, nesse contexto social, cada animal do grupo assumia diferentes papéis. Dentro de casa, o cachorro busca se encaixar em um papel. Seja o de dominador, seja o de dominado. Em geral, é o comportamento do dono que vai abrir espaço para que o cão se encaixe em um ou em outro papel. “O ser humano é um animal social que busca semelhanças e diferenças em toda e qualquer conexão emocional que se permite fazer. Quando gostamos de algo ou mesmo tentamos entender um ser vivo, procuramos nos aproximar o máximo possível para criar uma lógica e melhorar a comunicação, avaliando isso podemos evidenciar a humanização em animais”, explica Renato Buani.


O cão, por sua vez, não se sente mais humano por isso. Porém, se sua rotina é parecida com a dos humanos, ele passa a se ver como um igual ou até mesmo aprende a manipular certas situações a seu favor por permissividade excessiva de muitas pessoas, sobrepondo suas vontades e se tornando o chefe da casa. Vemos isso com crianças que, mesmo sem malícia, aprendem a realizar essas ações naturalmente.
Se dentro de casa o dono não assumir o papel de líder, o animal, naturalmente, assumirá. Inverter esses papéis prejudica o entendimento real do cão quanto à sua posição no reino animal ou dentro de seus lares, criando desajustes. De acordo com o especialista, estudos comprovam uma inteligência cognitiva canina equivalente a de uma criança humana de 3 a 5 anos. Ou seja, a abordagem é basicamente parecida. São necessários o exemplo constante, a paciência, os ensinamentos e a noção de autoridade. Sem ser educado, é natural que o cão apresente comportamentos indesejados.


Também existem casos em que o animal pode passar por algum tipo de experiência ou trauma que desencadeia condutas negativas. A servidora pública federal Meibe Mariane Cutrim tem dois casos de comportamentos extremos em casa: um que parece fazer parte da personalidade da cadela e outro desencadeado após um período traumático para um segundo cão.


Negresco e Doce de Leite são dois vira-latas que ela encontrou em 2011, dormindo na chuva, muito magros e machucados. Meibe ofereceu comida para ambos e conquistou o macho rapidamente. A fêmea, desconfiada, não queria entrar em seu carro. Meibe resolveu adotá-los e levou-os para tratamento em uma clínica veterinária. Estavam anêmicos e infestados de carrapatos. Enquanto isso, construiu um canil para cada um no quintal de casa. “Eles viviam bem aqui, mas ela é sempre muito brava. Aos poucos, consegui me aproximar dela e, hoje, nos damos bem. Continua muito desconfiada e não aceita a presença de estranhos por perto. É muito brava e líder de toda a cachorrada daqui de casa”, conta.


Certo dia, Negresco cavou um buraco durante a noite e invadiu o canil de Doce de Leite. A cadela ficou prenha sem que os donos planejassem e acabou indo morar dentro de casa, para ter os filhotes em segurança. Mas foi só perder a companheira de vista que Negresco mergulhou numa depressão. Ficou ansioso, apático e cheio de feridas na pele.


“Tentamos um primeiro tratamento que não teve sucesso. Então, procuramos um especialista em dermatologia e ele diagnosticou que o Negresco estava em depressão. Na hora, liguei a doença à ausência da Doce de Leite. Ele se lambia excessivamente por isso, pela ansiedade, e acabava formando essas feridas”, lembra Meibe. O veterinário receitou um antidepressivo para o cachorro, e Negresco, aos poucos, tem apresentado melhoras em seu comportamento. Ambos, atualmente, convivem com outros cães que Meibe recolheu das ruas e disponibiliza para adoção.

Isla é extremamente possessiva: Fernanda Abreu, a dona, se surpreendeu quando ela mostrou-se carinhosa com a filha, Alícia (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Isla é extremamente possessiva:
Fernanda Abreu, a dona, se
surpreendeu quando ela
mostrou-se carinhosa com a
filha, Alícia
Ciúmes de você

Isla, uma yorkshire de 10 anos, pode até ser uma cadelinha muito carinhosa e obediente com os donos e todos aqueles que convivem com sua família. Mas, quando se trata de sua pequena matilha de dois (na casa, vivem ela e sua irmã, Lunna), é ela quem manda e desmanda. Seu instinto dominante já virou piada entre os familiares. Por sorte, Lunna aceita muito bem o papel de dominada. “A gente põe a comida para as duas e a Isla faz questão de devorar tudo bem rápido para poder comer o que sobrou no pote da irmã. Não é à toa que ela é muito mais gorda que a Lunna”, conta Fernanda Abreu, servidora pública.


E não é apenas na comida da irmã que Isla fica de olho. Quando Lunna teve uma ninhada de filhotes, a irmã possessiva se apoderou dos filhotes e cuidava deles como se fossem seus. A mesma lógica segue com os donos. Se Lunna recebe carinho de alguém, Isla trata rapidamente de avançar nela para que a pobre irmã abandone o recinto e os carinhos sejam só seus. “Sempre foi assim. É um excesso de carência dela, misturado com essa sensação de domínio. A gente dribla como pode. Para dar carinho a Lunna, temos de levá-la para algum lugar longe da Isla”, relata. A cadelinha é tão ciumenta que a família ficou surpresa com a reação dela em relação ao bebê de Fernanda, Alícia, de 6 meses. Ela não apenas reagiu bem, tornou-se cuidadosa e carinhosa.

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017