• (0) Comentários
  • Votação:
  • Compartilhe:

CULTURA | HISTÓRIA »

O palco que é a cara da cidade

Levantado (literalmente) por candangos que queriam provar que a capital federal tinha produção artística pulsante, o Teatro Garagem está atualmente a todo vapor, aos 34 anos

Dominique Lima - Redação Publicação:09/08/2013 18:08Atualização:09/08/2013 18:19

Cena da peça O Filho Eterno, apresentada nos dias 19 e 20 de julho: identidade cultural crescente e público cativo  (Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
Cena da peça O Filho Eterno, apresentada nos dias 19 e 20 de julho: identidade cultural crescente e público cativo
 

Um teatro construído pelas mãos de dramaturgos, diretores, atores e voluntários. A partir do suor de artistas, com financiamento público e sob o olhar atento de censores e militares. O Teatro Garagem, 34 anos, foi levantado por candangos determinados a provar que a nova capital federal tinha produção artística pulsante, identidade cultural crescente e público cativo.


Em três décadas e meia, com algumas ameaças de fim, fechamentos reais e muito teatro, música, exposições de artes plásticas e fotografia, o espaço marcou a vida dos moradores e visitantes de Brasília que viviam da arte e também daqueles que a acompanhavam por opção. Adolescentes foram às festas e ouviram a música, crianças riram com os palhaços, adultos pensaram uma nova sociedade.


Frente a toda essa história, uma das personagens emblemáticas da viabilização e construção do teatro, Maria de Souza Duarte, decidiu registrar a memória do lugar em livro. Carioca, a assistente social e mestre em educação chegou à capital em 1974. Veio por conta da transferência do marido, servidor público, e manteve o trabalho que tinha no Rio de Janeiro: servidora do Serviço Social do Comércio (Sesc). Nos anos 1970 e inícios dos 80, ela coordenou o Sesc de Brasília, sede do Diretório Nacional da época, função que inclui a promoção cultural e de projetos educativos para a comunidade.

Junto com outros servidores e à comunidade artística da nova capital, conquistou o espaço do teatro. Lançada este ano pela Editora UnB e pelo Sesc, a obra, intitulada A Educação pela Arte – O Caso Garagem, trata do nascimento e amadurecimento desse que foi por vezes o único espaço da cidade aberto a qualquer expressão artística.

Cena de 1990, para sempre na memória: apresentação da peça Cora Coração, de Hugo Rodas, com o Grupo da Terceira Idade (Tobias Filho/Divulgação)
Cena de 1990, para sempre na memória: apresentação da peça Cora Coração, de Hugo Rodas, com o Grupo da Terceira Idade

Para narrar a evolução do projeto, a autora encontrou-se com outras figuras importantes para a história do teatro e de Brasília. Preenchem as páginas depoimentos de funcionários do Sesc à época da inauguração do espaço, artistas locais e de outras regiões do país, estudiosos de arte, candangos célebres. Entre eles, Humberto Pedrancini, ator, diretor, produtor cultural; Hugo Rodas, diretor teatral e professor de Artes Cênicas; o cineasta Vladimir Carvalho; e o atual diretor do Teatro Garagem, Ivaldo Gadelha. Ainda emprestam suas memórias o poeta Nicolas Behr, o ator Murilo Grossi e o produtor e diretor James Fensterseifer. O material – todas as entrevistas e depoimentos gravados – leva ainda à produção de um documentário, que deverá ser lançado ainda este ano.


Soma-se ao esforço de Maria Duarte o livro Teatro Sesc Garagem, Celeiro Cultural de Brasília, um compilado de imagens da história, que inclui fotos históricas e cartazes de produções. Organizado por Hugo Rocha e lançado em parceria com o de Duarte, o livro traz em imagens as histórias do local.

Atual diretor do Garagem, Ivaldo Gadelha diz que as arquibancadas móveis é uma das características mais elogiadas do espaço: 'O teatro nunca está fechado'
 (Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
Atual diretor do Garagem, Ivaldo Gadelha diz que as arquibancadas móveis é uma das características mais elogiadas do espaço: "O teatro nunca está fechado"

A necessidade de um espaço físico para as atividades culturais – e recepção de movimentos sociais e políticos – já desempenhadas na sede do Sesc levou à ideia de transformar a mal utilizada garagem do prédio da 913 Sul em teatro. Com aval da presidência do Sesc, o financiamento do Serviço Nacional de Teatro (SNT) para compra do material e o trabalho em mutirão dos artistas locais e demais voluntários, nasceu o Teatro Sesc Garagem. A peça de estreia foi A Capital da Esperança, de Humberto Pedrancini, sobre a história da construção de Brasília. Nos anos seguintes, a sala foi usada para reuniões, teatro, música e festas, “às vezes em horários concomitantes, o que provocava interferências sonoras de um espaço no outro. Havia reclamações, mas não espaços ociosos”, conta Maria Duarte no livro.


Maria de Souza Duarte lançou neste ano um livro sobre o nascimento e amadurecimento do Teatro Garagem: o espaço foi, em alguns momentos, o único da cidade aberto a qualquer expressão artística (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
Maria de Souza Duarte lançou
neste ano um livro sobre o nascimento
e amadurecimento do Teatro
Garagem: o espaço foi, em alguns
momentos, o único da cidade
aberto a qualquer expressão artística
Muitos artistas foram revelados entre as paredes do Garagem. O livro cita a cantora Cássia Eller, que em entrevista para a Revista Porão do Rock, celebrado festival sediado no teatro e que marcou os anos 1990 na capital, disse: “O único lugar que aceitava artistas sem material gravado – e onde comecei – era o Teatro Garagem”. Por conta da administração do Sesc, que mudou ao longo dos anos e sofreu ruptura na forma de organização e ideologia, o teatro ficou fechado entre 1983 e 1985. Tanto para a reabertura quanto para a inauguração, a ajuda da imprensa foi indispensável, segundo Maria Duarte. Ela cita de cabeça algumas matérias: o texto publicado e a data em que foram veiculadas. “A divulgação do espaço ajudou a criar a comunidade do teatro”, diz.


Mais do que uma vivência cultural ou artística de um grupo fechado, o Teatro Garagem tornou-se a representação do que era o espírito inovador e corajoso da capital federal no início de sua história. “O compromisso que assumimos com o Garagem não foi apenas com o espaço em si, mas com toda a cidade. Foi uma experiência muito rica viver a Brasília dos anos 1970”, definiu Maria Duarte. Reaberto de forma ininterrupta desde 2002, após três anos de uma grande reforma, o teatro continua a ser o palco de produções independentes e festivais que privilegiam a cultura regional brasileira. Todas as terças-feiras são dedicadas à promoção de artistas locais. No resto dos dias, o local é ofertado a custo menor que a média para produções diversas.


Atual diretor do teatro, o brasiliense Ivaldo Gadelha conta que a possibilidade de construção de diversos layouts para a sala, que conta com palco e arquibancadas móveis, é uma das características mais elogiadas do espaço. Eventos educativos também são realizados por lá. São frequentes os cursos de capacitação em artes e outros temas. “O teatro nunca está fechado”, destaca Gadelha. Para explicar a ligação afetiva que tem com o espaço, ele revela que, quando adolescente, ajudou a construí-lo e a produzir A Capital da Esperança. Lembra ainda que assistiu à peça durante a inauguração escondido embaixo da arquibancada. Por conta da idade, menor que a mínima permitida, sua presença era proibida. “Esse lugar fez parte da história da minha geração. Mas a história não é estanque. Hoje há outro contexto, outros espaços e formas de difusão. Ainda assim, aqui está o Teatro Garagem para criar momentos de reflexão e pensamento”, conclui.

 

COMENTÁRIOS
Os comentários estão sob a responsabilidade do autor.

EDIÇÃO 55 | Julho de 2017