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CULTURA | ROTEIRO »

Música no cardápio

Crescem na cidade as opções de restaurantes e bares que se preocupam tanto com a qualidade musical quanto com as delícias do menu

Jéssica Germano - Redação Publicação:21/08/2013 15:22Atualização:21/08/2013 18:58

Depois de uma pausa no circuito musical de Brasília, em função de restrições de silêncio em áreas residenciais, a capital volta a pulsar entre notas e acordes de artistas da cidade (Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
Depois de uma pausa no circuito musical de Brasília, em função de restrições de silêncio em áreas residenciais, a capital volta a pulsar entre notas e acordes de artistas da cidade
 

Há anos os sambistas cantam que o show tem que continuar. Em Brasília não é diferente, apesar de todas as limitações que a proximidade entre as quadras comerciais e residenciais impõe. Com opções que vão do jazz à música eletrônica, hoje a cidade tem som para todos os gostos, de segunda a segunda, e com diferentes sabores para embalar. Acompanhado de cappuccino, vinho ou cerveja, o roteiro musical e gastronômico firmado nos quadrados já é grande e tem aumentado na capital.


Em uma rua conhecida por várias opções de bares, um lugar de iluminação intimista e jardim aberto chama a atenção. Principalmente pelos sons e diferentes grupos que ali se reúnem ao longo da semana. O Pinella, na 408 Norte, apresenta de terça a sábado estilos musicais variados para acompanhar os pratos e os mais de 70 rótulos de cerveja oferecidos na casa. A programação musical entrou ativamente no carpápio apenas dois meses após a inauguração do espaço, no fim de 2011. A escolha foi natural, segundo as proprietárias Flávia Attuch e Marta Liuzzi. “A música motiva os funcionários, os clientes, e é uma coisa crescente”, comenta Marta. Mas, segundo ela, a seleção deve ter o gosto da casa: “Tem que bater energia, tem que bater o som”, diz.

Flávia Attuch e Marta Liuzzi, sócias do Pinella: 'A música motiva os funcionários, os clientes, e é uma coisa crescente' (Fotos: Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
Flávia Attuch e Marta Liuzzi, sócias do Pinella: "A música motiva os funcionários, os clientes, e é uma coisa crescente"

Para Karla Sangaleti, cantora de samba que trabalha há 12 anos em bares, festas privadas e restaurantes da cidade, além de ser um diferencial para o negócio, a música é capaz de produzir uma atmosfera à parte, tornando-se um acréscimo às opções do menu. “É a completude. Porque você vem ou por uma coisa ou por outra e acaba se surpreendendo”, conta.


Marta lembra que a combinação de música com um bom ambiente para comer e beber faz a diferença na hora de cativar o público. “As pessoas querem estar no barzinho, mas querem curtir a música também”, diz. “Elas querem fazer a noite no bar, sem precisar fazer um esquenta em outro lugar”.


Na Nova Quitinete, na 209 Sul, qualquer drinque da carta de cafés junto a um croissant de chocolate já seria o princípio de uma noite agradável, mas há ainda o plus da programação ao vivo no cardápio recém-elaborado. “É uma tendência nesse nosso segmento”, pontua um dos proprietários da casa, Marco Aurélio Rocha. Junto às saladinhas, entradas bem preparadas, pizzas e pratos principais – além do empório no primeiro piso –, nas segundas, quartas e sábados, o atrativo “voz e violão” compõe o clima do restaurante. Nesses dias, acordes de MPB têm holofote e, segundo o sócio, está entre as principais razões para a frequência do público.

Para Marco Aurélio Rocha, do Nova Quitinete, os acordes da MPB estão entre os principais atrativos para seu público (Fotos: Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
Para Marco Aurélio Rocha, do Nova Quitinete, os acordes da MPB estão entre os principais atrativos para seu público

Após uma interrupção significativa no circuito musical da cidade no início de 2012, por conta de restrições de silêncio em áreas residenciais, a capital atualmente volta a pulsar entre notas e acordes. Para a produtora cultural Sarah Pontes, Brasília vive um momento de levante após o tombo. Isso porque as iniciativas são muito bem aceitas por todos os lados: “Precisa ter espaços porque os músicos buscam essas oportunidades. Eles querem tocar e, quando há uma programação regular, outros músicos começam a aparecer e a coisa vai acontecendo”, explica. E, nesse formato de música mais ambiente, as queixas de volume próximo aos prédios nas residenciais acabam se dissipando. “O que chega aos apartamentos é um ruído muito mais melódico do que um barulho”, pontua Sarah.


Um dos donos da creperia C’est Si Bon, Sergio Quintiliano, conta que muitas vezes o som que chega aos blocos mais próximos do restaurante acaba convidando seus moradores a se juntar a outros clientes para uma noite de vinho e música. Para o empresário, que há sete anos investe em programação cultural na filial da 214 Norte, a receita de som, público e acompanhamentos é bem aceita. “Você tem uma comida que é feita com bom gosto e vem essa moldura da música, fazendo o acabamento da obra de arte”, descreve. “Isso faz com que a casa vibre diferente. Numa sintonia musical mesmo”, acredita.

A cantora Karla Sangaleti acredita que a música produz uma atmosfera à parte: a noite no bar sem precisar fazer um 'esquenta' em outro lugar
 (Fotos: Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
A cantora Karla Sangaleti acredita que a música produz uma atmosfera à parte: a noite no bar sem precisar fazer um "esquenta" em outro lugar

Para a bancária Camila Souto, som em ambientes de degustação é sem dúvida um chamativo na hora de escolher o destino da noite. No entanto, precisa fugir do lugar-comum. “Certas músicas já são clichês em bar”, diz. Segundo ela, novas iniciativas na cidade têm inovado: “É o que chama a atenção da gente”, afirma, incluindo a amiga Tatiane Chaves, com quem costuma dividir a mesa.


O Loca Como Tu Madre, na 306 Sul, apesar do pouco tempo de funcionamento, é um dos locais que se destaca com esse perfil. A ideia de incluir músicos e DJs na programação da casa veio de um contato com a cultura argentina. Em temporadas diferentes, as proprietárias Renata Carvalho e Giovanna Maia se encantaram com os sabores e sons hermanos. “Em Buenos Aires, eu encontrava muito essa facilidade de ouvir boa música sem ser tão caro e eu quis trazer isso para o Loca”, conta Renata, que, além de cuidar da parte cultural, responde pelo menu da casa.


Questionada se os brasilienses gostam de música, a resposta de Renata é imediata: “As pessoas já vêm para cá por conta da música!”. A missão cultural, porém, não é fácil, dizem as sócias. Nos primeiros dois meses, os gastos eram muitos, sem retorno. Hoje, Renata define o produto musical ainda como um investimento, mas que vale muito a pena.

As amigas Tatiane Chaves e Camila Souto: som em ambientes de degustação é sem dúvida um chamativo na hora de escolher o destino da noite (Fotos: Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
As amigas Tatiane Chaves e Camila Souto: som em ambientes de degustação é sem dúvida um chamativo na hora de escolher o destino da noite

Café, choro e cachaça. Difícil imaginar algo mais brasileiro. O trio, bastante comum no Sul de Minas Gerais, chega à Brasília na 108 Norte, no Café do Chef. Todos os domingos, uma roda de choro é montada para brindar o pós-almoço. O detalhe fica por conta dos mais de 25 tipos de cafés que a casa oferece e o principal bandolinista do grupo: um garoto de 11 anos, de dedos e musicalidade afinados. “A primeira coisa que sobressai na música é o Ian (Coury). As pessoas ficam hipnotizadas”, conta o proprietário do espaço, Jackson Machado. Para agosto, o empresário planeja acrescentar ao cardápio musical degustações de cachaças produzidas por aqui.


Para o público, depois de um hiato em programações musicais com propostas diferenciadas na cidade, a sensação é de satisfação. “É uma retomada. Passou um bom tempo sem nada”, lembra Bruno Rufino, publicitário e músico frequentador assíduo de ambientes com veia sonora junto com a namorada, Mell Azevedo.


O casal é afinado ao afirmar que a cidade tem muitos restaurantes, mas a maioria com carência na questão de música de qualidade nesse molde. “É um estilo de lugar que ainda tem pouco em Brasília: uma mistura de bar, restaurante e música boa”, avalia a namorada. O resgate, porém, é bem-visto: “Só de a seleção musical já ser legal, eu acho excelente”, destaca Rufino.

 

A sintonia é simples: 'Café combina demais com música', descreve Jackson Machado, proprietário do Café do Chef (Fotos: Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
A sintonia é simples: "Café combina demais com música", descreve Jackson Machado, proprietário do Café do Chef

Para ouvir, comer e beber

 

Influência argentina: o Loca Como Tu Madre tem músicos e DJs na programação fixa da casa (Fotos: Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
Influência argentina: o Loca Como Tu Madre tem músicos e DJs na programação fixa da casa

 Pinella
CLN 408, bloco B, loja 20
 Terça: Jazz
 Quarta: Samba/MPB
 Quinta: Discotecagem, com vinil
 Sexta: DJ Carlos Maffra, com samba rock
 Sábado: projeto DiscoClub
 Horário: das 20h à 0h
 Couvert artístico: de R$ 5 a R$ 8

 Nova Quitinete
CLS 209, bloco B, loja 5
 Segundas, quartas e sábados: MPB
 Horário: 20h a 0h
 Couvert artístico: gratuito

 C’est si Bon
CLN 213, bloco A, loja 13
 Quinta: projeto Quinta Mais (música erudita, popular e instrumental, com veia jazzista)
 Horário: das 20h30 às 22h30
 Couvert artístico: R$ 10

 Loca Como Tu Madre
CLS 306, bloco C, loja 36
 Terça: projeto Loca loves Jazz, com o CuartetoCuartito
 Quarta: DJs colecionadores de vinis de rock
 Quinta: Lounge, com trio de DJs
 Sexta: DJ Wash, com soul e funk
 Sábado: Vinis clássicos
 Horário: 20h30 às 23h30
 Couvert artístico: R$ 5 e R$ 8

 Café do Chef
CLN 108, bloco A, loja 20
 Domingo: Choro
 Horário: das 14h às 17h
 Couvert artístico: gratuito

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017