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Alambiques candangos

Topografia, solo, altitude, distância do mar e clima são alguns dos fatores que explicam por que o Planalto Central concentra ótimas condições para a produção da cachaça. Visitamos duas fazendas que comprovam a tese

Cecília Garcia - Redação Publicação:23/08/2013 16:42Atualização:23/08/2013 16:55

Os alambiques do Entorno do Distrito Federal ajudaram a convencer os americanos de que cachaça não é rum: visitas de autoridades para estudar o processo de produção (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Os alambiques do Entorno do Distrito
Federal ajudaram a convencer os
americanos de que cachaça não é rum:
visitas de autoridades para
estudar o processo de produção
Poucas coisas são tão genuinamente brasileiras quanto a cachaça. Os brasilienses compartilham o gosto do restante do país pela bebida, o que é perceptível não apenas pela frequência nos diversos bares com cartas repletas de boas opções, mas pela própria produção do destilado nos arredores da capital. Entre os rótulos à disposição dos clientes nas prateleiras, é possível encontrar algumas originadas no Entorno do Distrito Federal. O Planalto Central, distante do mar, reúne condições topográficas e características de solo e clima indispensáveis para que a cana-de-açúcar seja adequada para a produção da cachaça. Quanto mais seco o clima, por exemplo, mais doce se torna a cana.


Para o presidente da diretoria executiva do Instituto Brasileiro da Cachaça, Vicente Vastos Ribeiro, a qualidade da produção daqui ajudou no importante processo de reconhecimento de que a cachaça é de origem exclusiva do Brasil. Isso porque, até este ano, nos Estados Unidos, a branquinha era conhecida como Brazilian Rum (rum brasileiro). Vicente conta que, durante as negociações finais para esse reconhecimento, funcionários do Alcohol and Tobacco Tax and Trade Bureau (TTB), órgão do governo americano responsável pelo comércio de álcool e tabaco, foram levados por representantes do Ministério da Agricultura para conhecer o processo de produção da cachaça nas cercanias de Brasília.

Thiago Galeno Brasil Furtado é o representante da quarta geração da família à frente do alambique: cachaça 100% orgânica (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Thiago Galeno Brasil Furtado é o representante da quarta geração da família à frente do alambique: cachaça 100% orgânica

Um dos rótulos locais é produzido a 29 km de Brasília, na fazenda do ministro aposentado do Tribunal de Contas da União (TCU) Carlos Átila. A origem da Cachaça DoMinistro remonta aos anos 1990 e foi concebida de maneira inesperada. Carlos era apenas um apreciador de cachaças de alambique, que tinha dificuldades de encontrar boas bebidas do gênero no mercado de Brasília. Isso mudou quando produziu, juntamente com um vizinho de sua antiga fazenda em Santo Antônio do Descoberto, um pouco do destilado.


Ele era dono de um pequeno rebanho de gado leiteiro e tinha uma plantação de cana para complementar a alimentação dos animais. Até que um dia esse canavial pegou fogo. “Produzir a cachaça foi um recurso para não perder a cana”, conta. Observando que o resultado foi bastante razoável, em razão da precariedade da produção, decidiu estudar mais sobre o assunto. Leu, visitou alambiques e decidiu montar o seu. Aproveitou que, já no fim da década de 1990, tinha se aposentado do tribunal, e passou a se dedicar ao feitio da bebida. Com o tempo, junto do gerente, José Ribeiro, conseguiu dominar a fabricação da cachaça e, em 2001, produziu o destilado com laudos de análise laboratoriais emitidos pelo Ministério da Agricultura. Assim, passaram a comercializar o estoque.

Carlos Átila, ministro aposentado do TCU, produz uma cachaça reconhecida em todo o Brasil: início foi por acaso, depois de um incêndio no canavial (Luís Tajes/CB/DA Press)
Carlos Átila, ministro aposentado do TCU, produz uma cachaça reconhecida em todo o Brasil: início foi por acaso, depois de um incêndio no canavial

Hoje, a fazenda onde está o alambique fica em Alexânia, pois a antiga propriedade de Carlos teria de ser inundada pelas águas do lago da Usina Corumbá VI. São cerca de nove hectares de canavial, que produzem 35 mil litros de bebida ao ano. A época de produção, como em todo alambique, é de maio a outubro, que são os meses de seca. “Nessa época, a cana desidrata um pouco e concentra mais o açúcar”, explica o gerente do empreendimento, José Ribeiro.


Ao fim de um extenso processo de produção artesanal, em que a destilação é feita em alambique de cobre, a bebida é descansada e envelhecida em tonéis de madeira de jequitibá, carvalho e umburana. Na adega, estão 960 barris de 200 litros e 11 com capacidade para armazenar 5 mil litros da bebida. Após passar pelo período de envelhecimento correto para cada um dos cinco tipos de cachaça produzidos no local, a bebida é engarrafada e rotulada manualmente, ficando pronta para chegar às mãos dos clientes.

José Ribeiro, gerente responsável pela produção da Cachaça DoMinistroo alambique e a bebida têm selo de garantia do Ministério da Agricultura (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
José Ribeiro, gerente responsável pela produção da Cachaça DoMinistroo alambique e a bebida têm selo de garantia do Ministério da Agricultura

Há poucos quilômetros de distância da fazenda produtora da Cachaça DoMinistro, está a fazenda Brioso. Com 45 hectares de canavial, o lugar produz a cachaça Cambéba. À beira da BR-060, o alambique é facilmente localizável. A antiga moenda de cana, da época em que ainda se usava tração animal para a atividade, dá as boas-vindas aos visitantes.


Thiago Galeno Brasil Furtado é o representante da quarta geração da família que toca o negócio, originado no Ceará e vindo para o Planalto Central na década de 1980. Um dos orgulhos da família é o fato de a bebida por eles produzida ser 100% orgânica, com vários selos internacionais que atestam isso, e de ter um processo artesanal de produção.


Depois de passar por todo o processo normal de elaboração da bebida, a cachaça pode ser engarrafada diretamente ou colocada para envelhecer. Como resume Thiago: “Cachaça é mudança de estado. No processo, a bebida vira vapor, é condensada e depois ‘pinga’. Vindo daí o apelido da bebida”. Os 1.500 barris de carvalho, cada um com capacidade de 250 litros, são guardados num espaço localizado há cinco metros abaixo da terra, onde passam pelo menos um ano antes de serem comercializados.


O local tem cachaças já com nove anos de envelhecimento. Além disso, o empreendimento tem parceria com a Universidade Federal de Goiás (UFG) para a realização de um estudo que testa o envelhecimento da bebida em barris feitos com quatro tipos de madeira. O que é muito útil ao negócio, já que volume de produção local é de 3 mil litros por dia.

 

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017