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ESPORTE | TÊNIS »

Paixão master

Existem cerca de 650 quadras públicas e privadas em Brasília. Elas estão lotadas de atletas amadores, de mais de 35 anos, que enumeram os benefícios físicos e sociais que o esporte lhes proporciona

Dominique Lima - Redação Publicação:27/08/2013 15:12Atualização:27/08/2013 15:38

Aos 70 anos, Lourdes Shimabukuro pratica o tênis quatro vezes por semana: também viaja para assistir aos torneios fora do Brasil (Minervino Júnior/Encontro/D.A Press)
Aos 70 anos, Lourdes Shimabukuro
pratica o tênis quatro vezes por
semana: também viaja para assistir
aos torneios fora do Brasil
Aos 43 anos, Lourdes Shimabukuro se cansou de não entender o esporte preferido do marido: o tênis. Ao assistir às partidas jogadas por seu companheiro, percebia a decepção que ele sentia por ela não compreender a dificuldade e a beleza de determinada jogada. A fim de captar melhor as sutilezas do jogo, Lourdes decidiu fazer aulas. O caráter desafiador da modalidade conquistou a psicóloga. Hoje aposentada, aos 70 anos, ela pratica ao menos quatro vezes por semana. Os treinos duram, em média, uma hora e meia. O cenário – quadras à beira do lago em um clube da cidade – faz parte da magia da prática do esporte que, para ela e amigos, “é como uma droga”.


Problemas de saúde impedem o marido de Lourdes Shimabukuro de praticar, apesar de a paixão se manter firme. Ele assiste às partidas da mulher e “carrega sua raquete”, ela brinca. Os dois também acompanham o circuito profissional e foram juntos a Miami, nos Estados Unidos, ver seus ídolos – Rafael Nadal e Roger Federer – em ação. Lourdes e o marido não estão sozinhos no amor pelo tênis. O esporte é destaque em Brasília. Os centros de treinamento estão abarrotados. Há desde iniciantes a atletas amadores.

Segundo a Federação Brasiliense de Tênis, dos 2.596 praticantes cadastrados na Confederação Brasileira de Tênis, mais de 50% têm mais de 35 anos. São exatamente 1.608 pessoas. Desses, 27 nasceram antes de 1939, ou seja, têm 74 anos ou mais, e continuam ativos. Muitos desses atletas seniores têm resultados expressivos. Estão na capital federal alguns dos melhores tenistas do Brasil e do mundo nas categorias a partir de 35 anos.

Ana Beatriz Caçador, de 45 anos, começou a treinar por causa dos filhos; 
hoje, já compete: 'Achava que eu era velha demais para aprender a jogar' (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
Ana Beatriz Caçador, de 45 anos, começou a treinar por causa dos filhos; hoje, já compete: "Achava que eu era velha demais para aprender a jogar"

Destaque da categoria 55 a 59 anos, Amadeu Façanha está no quinto lugar no ranking mundial e é o primeiro colocado da América do Sul e no ranking brasileiro. Praticante do esporte desde a infância, ele – como muitos atletas amadores – deu ao tênis ainda maior espaço em sua vida desde que se aposentou. Além de trabalhar como diretor de esportes de um clube, ele treina três vezes por semana e pratica musculação para manter-se na forma ideal exigida pelo tênis.


Incentivado pelo pai a começar no esporte, ganhou, no 11º aniversário, uniforme, bolas e raquete, mais um mês de aulas. Gostou. Muito. O esporte se tornou uma constante em sua vida. E o pai acabou empolgado e decidiu se juntar ao filho. Começou a praticar o esporte aos 48 anos. Hoje, aos 86, está proibido por médicos de entrar na quadra.

Substituiu pela natação. Mas continua ativo em seu amor pelo tênis, que gosta de acompanhar. Os quatro irmãos de Amadeu também praticam. Ele e um dos irmãos viajaram juntos na mais recente competição de que participou, em Barcelona, na Espanha. Amadeu chegou à fase semifinal.


Priscila Barreto e Natália Fiuza começaram a fazer aulas depois de matricular os filhos: saúde em dia e mais disposição  (Minervino Júnior/Encontro/D.A Press)
Priscila Barreto e Natália Fiuza começaram a fazer aulas depois de matricular os filhos: saúde em dia e mais disposição
“É um esporte excelente não só para o corpo, mas para a cabeça. Incentiva a aprender com a derrota. Esse desenvolvimento é muito legal para jovens e adultos”, explica Amadeu. Além dos benefícios gerais que a prática de um esporte traz, o praticante sênior de tênis usufrui de vantagens específicas. O tenista enumera: “Quem participa de torneio aproveita para fazer turismo na cidade, conviver com os colegas. Então, tem a parte do lazer, e também do companheirismo, de estar junto das pessoas”. Outra vantagem para quem chega a patamares como o de Amadeu é o apoio institucional. Hoje, ele conta com patrocínio para participar dos maiores torneios do mundo.


Não é preciso, no entanto, sair de Brasília para aproveitar o esporte. Treinar na capital federal é melhor do que em outras regiões do país e do mundo, aliás. O clima brasiliense é aliado dos muitos tenistas da capital. Temperaturas amenas e longas temporadas sem chuvas favorecem o treinamento ao ar livre. A estrutura é outro ponto positivo. Segundo Carlos Mamede, presidente da Federação Brasiliense de Tênis (FBT), a estimativa é de que existam 650 quadras em Brasília, entre públicas e privadas. “Em Brasília, a bola fica mais rápida. O ar é rarefeito e a força G, menor. Quando vamos jogar em outras cidades, facilmente percebemos a diferença. A bola não sai facilmente das quadras e podemos bater com mais força. E aí fica ótimo jogar ao nível do mar”, explica.

Cláudio Ramos é instrutor e praticante do esporte: para ele, disciplina e paciência são essenciais para adultos iniciantes (Fotos: Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
Cláudio Ramos é instrutor e praticante do esporte: para ele, disciplina e paciência são essenciais para adultos iniciantes

A cidade sedia ainda um dos maiores torneios da categoria na América Latina, que conta com a melhor classificação da Federação Internacional de Tênis. Realizado em abril no Iate Clube de Brasília, atrai tenistas de todas as idades e das mais diversas regiões do mundo. Em 2013, foram 252 inscritos. Amadeu Façanha foi o campeão na sua categoria. A estrutura dos torneios é fonte de preocupação dos atletas amadores com mais de 35 anos. Por isso, eles privilegiam os mais confortáveis, como a competição brasiliense. A professora Marilena Mello treina há 34 anos. Desde 1998 participa de torneios no Brasil e no mundo. O tênis entrou em sua vida quando tinha 33 anos. Sempre atlética e competitiva, encontrou no tênis boa opção de exercício físico e mental.


Ela relata que há competições em que o apoio para pessoas na melhor idade deixa a desejar. Ressalta, no entanto, que nada poderia afastá-la das quadras. “Já vi senhoras de mais de 80 anos terem de pegar dois ônibus para chegarem ao local das provas. Mas, em outros torneios, temos tudo o que desejamos. O melhor são os amigos que fazemos. Conheço pessoas da Argentina, França, Estados Unidos, Romênia”, diz. Apesar de trabalhar muito, Marilena, hoje com 67 anos, confessa que viveria apenas das atividades ligadas ao tênis de bom grado. Como viaja bastante para competir, a família fica um pouco sacrificada, mas acaba participando de alguma forma. Uma neta treina na mesma escola que a avó, por exemplo.

Marilena Mello joga tênis há 37 anos: competições ao redor do mundo renderam amizades (Fotos: Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
Marilena Mello joga tênis há 37 anos: competições ao redor do mundo renderam amizades

A alimentação e o período de descanso são importantes para conseguir jogar bem. Assim, outra vantagem do tênis, segundo Marilena, é que o esporte a ajuda a manter a vida em equilíbrio e a saúde em alta. Se os anos de experiência dos atletas seniores têm seu lado positivo – o longo período de prática torna a técnica mais precisa –, o avanço da idade traz também maior carga para os tenistas. Literalmente. Num esporte de alto impacto como esse, a repetição de movimentos durante 30 anos de experiência sobrecarrega articulações. São toneladas de esforço acumulado em joelhos, cotovelos, mãos e pés. “Num torneio sênior, quando você entra em quadra sem dor alguma, já está em enorme vantagem”, brinca Amadeu Façanha.


Marcelo Klimkievicz encontrou no esporte um meio de se adaptar a Brasília: 'O tênis me ajudou muito. Em pouco tempo, fiz bons amigos', diz o mineiro, transferido para o DF há nove anos (Fotos: Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
Marcelo Klimkievicz encontrou no esporte
um meio de se adaptar a Brasília:
"O tênis me ajudou muito. Em pouco
tempo, fiz bons amigos", diz o mineiro,
transferido para o DF há nove anos
Nada que não possa ser superado, no entanto. O acompanhamento médico se faz essencial e exercícios de manutenção da força muscular ajudam a evitar contusões e outros problemas mais graves. Para quem inicia o treinamento adulto, é imprescindível obter o aval de um médico antes de comprar a raquete e começar as aulas. Se tudo estiver bem com sistemas circulatório, respiratório e com as articulações, o esporte só trará ainda mais bem-estar. Outra dica é procurar sempre um profissional qualificado para ensinar tênis. Saber manusear a raquete e ter segurança nos movimentos evita lesões e garante melhor resultado no futuro.


Entre as atletas seniores que começaram adultas, muitas são mães que resolveram acompanhar os filhos na empreitada. Duas delas compartilham três horas de aula por semana entre si. Natália Fiuza e Priscila Barreto dividem o novo hobby. São momentos de suor, esforço e bom humor. Mesmo antes de completarem um ano de prática, conversam animadamente sobre a mais recente atividade. “O tênis envolve a gente. Há um objetivo claro, a vontade de melhorar. A motivação para crescer no esporte é muito grande”, descreve a professora Priscila. Natália, que é dona de casa, destaca o prazer de praticar ao ar livre. “Minha disposição melhorou muito. Tomo sol mesmo sem gostar. Realmente minha saúde está mais completa”, compara.


Carlos Mamede, presidente da Federação Brasiliense de Tênis (FBT): 'Em Brasília, a bola fica mais rápida. Quando vamos jogar em outras cidades, facilmente percebemos a diferença' (Fotos: Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
Carlos Mamede, presidente da Federação
Brasiliense de Tênis (FBT): "Em
Brasília, a bola fica mais rápida.
Quando vamos jogar em outras cidades,
facilmente percebemos a diferença"
É o mesmo sentimento compartilhado pela desenhista e servidora pública Ana Beatriz Caçador. Aos 45 anos, também resolveu começar a treinar graças aos dois filhos, que fazem aula no mesmo clube. Levar as crianças era tarefa obrigatória, então nada melhor que aproveitar o tempo de espera para praticar a saudável atividade. O tênis tem sido fator agregador da família. Em 2013, após três anos de aprendizado, participou pela primeira vez de um torneio com o marido, praticante assíduo do esporte. “Antes de começar, me achava velha demais para aprender a jogar. Mas na escola dos meus filhos conheci muitas mulheres que iniciaram com mais de 40. Decidi, então, me arriscar e treinar mesmo, para valer”, lembra.


Treinador de Ana Beatriz e tantos outros brasilienses, Cláudio Ramos é também praticante do esporte. Seu amor pela modalidade fica claro na maneira como descreve o jogo. Não que seja fácil conquistar resultados positivos em torneios. Para o professor, a disciplina e a paciência são essenciais para adultos iniciantes. O desenvolvimento dessas qualidades é, inclusive, um dos benefícios listados por ele. Isso porque o tênis é um esporte de técnica. “É preciso aprender os movimentos corretos, que precisam se tornar naturais. Além disso, é um jogo em que são necessárias rápidas tomadas de decisão. Isso também é uma habilidade que leva tempo para adquirir”, explica.


Outra vantagem é a possibilidade de networking, criar redes de pessoas influentes e interessantes, que podem trazer benefícios profissionais. Cláudio Ramos diz ter testemunhado incontáveis reuniões de trabalho nas quadras. Viu centenas de negócios fechados entre um saque e um voleio. “Para quem trabalha com tarefas que exigem assumir riscos, o tênis é um excelente aliado, porque desenvolve atividades de frieza e equilíbrio”, detalha o treinador. O tênis pode ainda servir como ponte para a criação de laços com pessoas e com a cidade. Assim aconteceu com o servidor público Marcelo Klimkievicz, de 50 anos.


Amante dos esportes de raquete, Marcelo aprendeu a gostar do tênis ainda criança, incentivado pelo pai em Belo Horizonte, cidade em que cresceu. Quando, há nove anos, se mudou com a família da capital mineira para Brasília por conta do trabalho, descobriu uma capital federal com boa estrutura, qualidade de vida e muito receptiva. “Acho que o tênis me ajudou muito. Ouvi dizer que a cidade era fria, um lugar onde é difícil conhecer pessoas. Mas eu tive uma ótima experiência. Em pouco tempo, fiz bons amigos. Organizei torneios entre os colegas de trabalho, por exemplo”, diz.


Benefícios físicos, mentais, sociais, até profissionais. Além das vantagens mensuráveis, soma-se, para quem pratica, uma paixão difícil de se descrever. Carlos Mamede, presidente da FBT, que joga há 23 anos, arrisca: “O tênis tem um jogo interior muito maior e mais complexo do que possa imaginar alguém que não pratica. Eu diria que a bola leva uma eternidade para chegar até o oponente e vem com uma velocidade incrível quando ele a joga de volta contra nós. Mas treinar ou jogar nos leva a um estado de paz que somente quem disputa cada ponto sabe. É completo mesmo quando se perde a partida”.

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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017