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Decoração | Mercado »

Arrematou, levou!

Esqueça a ideia de que leilões de arte são eventos frequentados apenas por milionários. Apreciadores de arte e jovens que estão montando a casa são parte do público que costuma pagar, por peças fantásticas, valores bem menores do que os cobrados no mercado

Paloma Oliveto - Publicação:28/08/2013 14:09

Leilão da Casa Amarela em Brasília: peças que chegam a custar apenas 10% do valor de mercado são normal. Parte dos compradores é de jovens que desejam mobiliar a casa com requinte ( Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
Leilão da Casa Amarela em Brasília: peças que chegam a custar apenas 10% do valor de mercado são normal. Parte dos compradores é de jovens que desejam mobiliar a casa com requinte
 

O martelinho há tempos se aposentou do ofício. A frase “dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três”, um verdadeiro ícone, também não se faz mais ouvir nos salões. Ainda assim, leilões de arte e antiguidades conservam a atmosfera charmosa, pontuada por disputas ora divertidas, ora acirradas. O que pouca gente sabe é que esses eventos não são exclusividade de quem está disposto a gastar milhares de reais em uma única noite. Ao contrário, é possível sair com pechinchas impensáveis debaixo do braço, como um tapete iraniano pela bagatela de R$ 50.


Em Brasília, há quase duas décadas, colecionadores reservam a agenda para dois leilões mensais: o de Railda Costa, que tem escritório no Setor Hoteleiro Norte, e o organizado pela paulistana Casa Amarela. Os frequentadores assíduos contam que os pregões acabam se transformando em acontecimentos sociais: com hobbies e gostos parecidos, os habitués trocam informações, comentam sobre as peças expostas, brincam uns com os outros. Alguns ficam amigos. As bebidas e os petiscos servidos a noite toda facilitam a interação. Não é preciso comprar nada nem oferecer lance para se fartar com sanduichinhos, champanhe, vinho e refrigerante.

Assíduos em leilões, Alexandre Moreno e Dib Francis colecionam bons negócios: tapete chinês e abajur Tiffany entre os ótimos negócios (Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
Assíduos em leilões, Alexandre Moreno e Dib Francis colecionam bons negócios: tapete chinês e abajur Tiffany entre os ótimos negócios

Foi para matar o tempo que o servidor público Amarílio Bispo Neto tornou-se uma presença constante nos leilões da cidade. Natural de Salvador, o advogado mora em Brasília desde 2007 e hospeda-se no flat onde Railda Costa expõe as peças que apregoa. “Comecei a ir porque não tinha nada para fazer. Era mais para bater papo”, conta Neto, que dá lance no que acha bonito, mas tem predileção por pinturas, gravuras e arte sacra. Nesta última categoria, arrematou o maior achado de sua vida de frequentador de leilões: uma imagem de Nossa Senhora da Conceição da Praia do século 19 por R$ 60, em um evento da Casa Amarela. “É pequena, chama-se imagem de viajante porque era levada pelos devotos nas viagens. Estava precisando de muitos reparos”, relata. Mesmo assim, um expert da Universidade Federal da Bahia avaliou a peça em R$ 3 mil. Outra aquisição do advogado foi um saleiro de prata de lei manufaturado em 1880, que custou R$ 50.


“Às vezes, a sala cochila”, revela o pianista Dib Franciss, colecionador de peças art noveau e assíduo dos leilões brasilienses. Entre um piscar e outro da plateia, as chances de conseguir uma boa pechincha aumentam. A quantidade de lotes apregoados por noite – às vezes, chegam a 200 – pode cansar quem está acompanhando desde o início. Portanto, vale a pena se manter atento. Em um desses momentos de distração coletiva, Franciss levou para casa um tapete chinês (chinês, e não “made in China”) por R$ 50, valor inicial que os fregueses costumam oferecer nas peças de lance livre, aquelas que não têm um preço mínimo estipulado. O gosto do pianista pelo evento contagiou Alexandre Moreno, que também virou frequentador.

A leiloeira Railda Costa explica a grande vantagem do leilão: 'É um investimento seguro' (Minervino Junior/Encontro/DA Press)
A leiloeira Railda Costa explica a grande vantagem do leilão: "É um investimento seguro"

Nem sempre quem vai aos leilões está interessado em objetos antigos e raros. “Aqui, tenho peças que custam de R$ 100 a R$ 350 mil. Leilão é para se vender rapidamente e para se comprar a preços bons. Muitas pessoas, principalmente mais jovens, estão vendo que podem montar suas casas com objetos que saem a 10% do valor de mercado”, afirma Silvia de Souza, leiloeira da Casa Amarela.


Quem se interessa por arte e está começando uma coleção também pode encontrar um farto material a preços atraentes. No último leilão da loja Celsius, pertencente a Celso Albano, pai de Railda Costa e um dos mais tradicionais antiquários da cidade, foi possível disputar um óleo sobre tela de Glênio Bianchetti a partir de R$ 5,5 mil.


Bancos em jatobá do designer brasiliense Tunico Lages estavam com lance incial de R$ 400. Segundo Railda, que faz pregões para o pai e, às vezes, o tem como cliente, quando bem orientado, o comprador leva para casa não só uma obra de arte, mas um investimento seguro.


Foi o caso de um brasiliense que arrematou um retrato a óleo da imperatriz Leopoldina, assinado por Jean-Baptiste Debret, por R$ 100 mil em um leilão da Celsius. “Ele conseguiu que o quadro fosse incluído em um catálogo de arte. Em três semanas, o valor subiu para R$ 350 mil. Qual outro investimento daria um lucro desse?”, questiona Railda.


O advogado e professor universitário Darson Astorga De La Torre não se importa com a valorização das peças que arremata. “Jamais comprei nada com o viés comercial, pensando no futuro. Se o coração não bate, não compro”, garante. Colecionador de quadros, espelhos, porcelanas, tapetes e o que mais chamar sua atenção, De La Torre tem itens como pratos do século 17 e uma mesa com mais de 400 anos. “Meus amigos dizem que minha casa parece um museu e que eu devia cobrar ingresso”, brinca. O acervo começou há mais de 20 anos, quando, por curiosidade, ele entrou em um leilão e comprou um conjunto de elefantinhos de marfim. “Virou uma paixão”, conta.


Frequentadores e leiloeiros, contudo, alertam que, às vezes, esses eventos podem acabar em dor de cabeça. Principalmente quando, no lugar da obra de arte ou antiguidade, o cliente adquirir, sem saber, uma falsificação.


Profissionais sérios consultam peritos antes de oferecer as peças no leilão e aconselham cuidado redobrado com objetos vendidos nos cada vez mais comuns leilões on-line, já que serão vistos apenas a distância. Outro risco é de o cliente se empolgar demais com a disputa e acabar pagando muito além do valor real do objeto. Nesse caso, não tem arrependimento. A regra estipula: arrematou, levou.

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017