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ENTREVISTA | MARTHA ZAPPALÁ »

"A classe médica esperava mais da gestão atual"

Prestes a assumir a presidência do Conselho Regional de Medicina do DF, a pediatra é categórica: o problema da saúde pública é de administração

Ana Maria Campos - Publicação:16/09/2013 15:41Atualização:16/09/2013 15:56

'O SUS é, sim, um grande programa... Há verba. Por que não se concretiza? Precisamos de gestores profissionais' (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
"O SUS é, sim, um grande programa...
Há verba. Por que não se
concretiza? Precisamos de gestores
profissionais"
Filha de um cirurgião geral, casada com um mastologista e mãe de um jovem de 23 anos prestes a começar a clinicar, a presidente eleita do Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal (CRM-DF), Martha Zappalá, tem a carreira dedicada à pediatria e à formação de novos profissionais.


Nunca teve consultório particular. A saúde pública é sua vida. Foi preceptora, ou seja, professora de residência médica, em UTI Pediátrica do Hospital de Base. Chegou à supervisão e à presidência da Comissão Distrital de Residência Médica. No terceiro mandato, Martha coordena 700 residentes no DF.


Com esse perfil de educadora, ela assumirá o comando do CRM-DF em 1º de outubro num momento de controvérsias relacionadas à qualidade e às prerrogativas da classe. Com 61% dos votos, a pediatra disputou uma eleição sob intervenção federal, em que a ficha limpa foi uma das bandeiras.


Uma disputa acirrada entre duas chapas adversárias levou Martha, que não era candidata por nenhuma das duas, à vitória. De um lado, o grupo da situação, que tem entre seus integrantes o atual presidente do CRM-DF, Iran Cardoso. Ele teve a participação questionada devido à censura que sofreu do próprio CRM pela prescrição de um medicamento que levou à morte uma criança há 10 anos. Do outro, a chapa encabeçada pelo cardiologista Lairson Rabello, discretamente apoiada pelo secretário de Saúde, Rafael Barbosa.


Nascida no Recife, a pediatra viveu até os 17 anos nos Estados Unidos, ao lado do pai, acadêmico da Universidade de Stanford, na Califórnia. Com essa vivência, ela rebate críticas ao alto preço das mensalidades dos cursos de medicina em faculdades particulares. “Absurdo é pagar para creche, berçário, pré”, diz.

'Talvez seja fácil para quem está do lado de cá criticar, mas o que vemos hoje é que a saúde não está do jeito que todos gostariam' (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
"Talvez seja fácil para quem está do lado de cá criticar, mas o que vemos hoje é que a saúde não está do jeito que todos gostariam"

Como a maioria dos colegas, Martha Zappalá reclama dos vetos impostos pela presidente Dilma Rousseff à Lei do Ato Médico e do ingresso no país de médicos estrangeiros sem serem submetidos ao Revalida, o Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos. “A população está sendo muito usada nas questões políticas.”


Na campanha para a presidência, houve debates de toda ordem, inclusive de interesses corporativos. Qual é de fato o papel do Conselho de Medicina?


O conselho tem o papel de defender a boa prática da medicina. Com base nisso, o órgão tem o seu código de ética, que deve ser seguido pelos profissionais para que o trabalho seja feito com seriedade, honestidade e compromisso. O CRM também existe para avaliar as condições de trabalho, cobrar dos gestores os equipamentos necessários para a atividade médica.

A sua chapa foi intitulada de ética. Por que esse nome? Está faltando ética?


O lema da campanha foi o resgate do bom profissional, do compromisso com a medicina e com o bom atendimento e das condições de trabalho. A ética resume tudo: postura, compromisso, seriedade.

Todo ser humano comete falhas. Mas, no caso do médico, um erro pode custar uma vida. O CRM deve ser rigoroso nos processos administrativos?


O objetivo do conselho é verificar o que aconteceu. Averiguar se o médico teve as condições adequadas para o atendimento, se houve falha humana ou erro de encaminhamento. Pode haver negligência, mas também pode ter um conjunto de fatores que levou àquela situação.

É difícil julgar um colega?


Imagino que sim. O importante é que o conselho tenha respeito. Precisa haver isenção, sem envolvimentos partidários e políticos, para uma avaliação neutra da situação. A nossa intenção, entre as várias ações que devemos implantar o mais breve possível, é o fortalecimento das câmaras técnicas.

Como vão funcionar?


Já existe dentro do conselho, mas não funcionam como deveria. São formadas por profissionais de cada sociedade. Nós vamos entrar em contato com a sociedade de mastologia, por exemplo, e pedir indicações de profissionais de ponta para pareceres técnicos. Não sou cirurgiã, como avaliaria um caso envolvendo procedimento nessa área?


Nos últimos anos, houve proteção a maus médicos?


É difícil avaliar, porque ainda não tenho acesso aos processos e não cabe a mim julgar e dizer se houve falhas. Seria necessário rever toda a documentação, ouvir de novo as partes, o paciente, o médico, a equipe, o gestor. O ideal é fazer um trabalho preventivo.

A maioria dos brasileiros se queixa da saúde... O que precisa para melhorar?


Talvez enxergar a saúde com outros olhos. A questão da prevenção, nos últimos anos, tem tomado uma importância maior, mas ainda nem tanto. Na prática, vemos que centros de saúde ainda são deficientes, não há equipamentos ou recursos humanos suficientes. Se o paciente pudesse ser atendido em diferentes níveis, talvez os prontos-socorros não ficassem tão superlotados.

Qual é o principal problema no DF?


São várias coisas. A saúde é realmente complexa. Envolve inúmeras instituições e profissionais, projetos e protocolos, mas posso dizer que o Sistema Único de Saúde (SUS) é, sim, um grande programa. Precisaria talvez conseguir melhorar a gestão. Há verba. Por que não se concretiza? Precisamos de gestores profissionais.

A gestão dos hospitais deveria ficar a cargo de administradores?


O ideal é que fossem gestores médicos, porque esse profissional tem as duas faces, a do conhecimento médico e a do gestor. Mas ser um médico e ser colocado como gestor não é a mesma coisa. O ideal é que tivéssemos médicos especializados em gestão. É preciso tirar a questão partidária, política, e ter mais cargos técnicos.

O governador é um médico. Na chapa adversária nas eleições de 2010, o vice, Jofran Frejat, também... O dr. Rafael Barbosa, secretário de Saúde, pretende se candidatar. Isso é positivo?


A classe médica esperava mais da gestão atual, por eles serem da casa, colegas da mesma época. Mas nos sentimos bastante à vontade quando ele (Agnelo) foi eleito. Vários de nós ajudamos a elegê-lo.


Participou da campanha dele?


Não. Mas votei no Agnelo. Eu o conheço há bastante tempo. Quando eu era residente, o dr. Agnelo era o presidente da Abramer (Associação Brasileira de Médicos Residentes) e eu representava os residentes do HMIB. Trabalhamos juntos. Talvez seja fácil para quem está do lado de cá criticar, mas o que vemos hoje é que a saúde não está do jeito que todos gostariam.

O que precisa melhorar?


Já melhorou muito a questão de equipamentos. Hoje, quatro unidades da rede pública são hospitais de ensino. Não é fácil alcançar isso. O credenciamento é bastante diferenciado e há muitas exigências do Ministério da Educação. É preciso preencher vários requisitos, várias normas. Com o credenciamento, há uma verba específica no hospital para o ensino. O hospital precisa ser de ponta. Temos quatro: Hospital de Base, HMIB, HRAN e de Sobradinho. E o credenciamento é avaliado a cada dois anos.

O Hospital de Base é seguro? O cidadão é bem atendido?


Sem dúvida. Temos ainda vários problemas. Claro que não é perfeito, mas há grandes profissionais. O hospital melhorou, cresceu muito nos últimos anos, e um dos motivos foi a certificação como hospital de ensino. Isso trouxe um grande benefício, um olhar acadêmico, um objetivo e uma preferência no quesito de compras, baseado nas regras que precisam ser atendidas. Mas ainda há deficiências e pendências em relação à gestão.

'O governo federal usou isso (a questão dos médicos cubanos) de forma eleitoreira%u2026' (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
"O governo federal usou isso (a questão dos médicos cubanos) de forma eleitoreira%u2026"

A demanda do Entorno complica o atendimento público no DF?


Se o sistema de saúde funcionasse como um todo, provavelmente vários pacientes do Entorno não viriam para cá. Mesmo as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) que foram colocadas não atingiram as metas. O paciente acaba indo ao pronto-socorro.

Como se resolvem as necessidades de tratamentos de alto custo pelo SUS com recursos limitados?


O recurso do DF não é tão escasso assim. Há um sistema complexo, com custo elevado, mas, em relação a outros estados, não sei se é a falta do recurso em si o problema. Volto a falar da gestão. Se você já sabe que gasta 100 agulhas por mês, por que esperar acabar?

O governador Agnelo e o secretário Rafael Barbosa apoiaram alguma chapa na eleição do CRM?


O que se comentou na cidade é que havia o apoio para a 1 (de Lairson Rabello), mas não cabe a mim dizer.

A intervenção do Conselho Federal de Medicina na eleição do DF constrangeu os candidatos?


Constrangeu toda a classe médica de Brasília. A intervenção foi necessária e hoje eu tenho certeza de que a eleição saiu por causa disso. Tivemos vários problemas desde a inscrição pela questão da ficha limpa.


Os cursos de Brasília formam bons médicos?


Formam. A UnB é tradicional, federal, tem o prestígio conhecido, mas temos acompanhado problemas graves lá.. Há uma crise. Os professores antigos estão se aposentando e há dificuldade de repor a docência, por questões salariais. Hoje, vejo excelentes residentes de todas as faculdades.

O alto preço das faculdades de medicina cria uma barreira, transposta apenas por uma elite que pode pagar?


As mensalidades são bastante caras mesmo. Os custos são elevados. Mas eu tenho um olhar diferente. O absurdo é pagar ensino médio e fundamental. O que acontece nos Estados Unidos? A escola básica e média são gratuitas. Quem vai para as faculdades paga e é caro. Um casal médio padrão faz uma poupança desde o dia que a criança nasce para o college. O investimento da faculdade é diferente do conceito de escola, que deve ser pública. Absurdo é pagar para creche, berçário, pré.

O governo cogitou impor aos estudantes de medicina dois anos de uma espécie de serviço obrigatório. O que pensa a respeito?


Sou contrária. As universidades públicas apresentaram um documento ao governo federal, por meio do qual se colocam frontalmente contra. A graduação tem uma proposta e um prazo. É suficiente? Não. Por isso, tem a pós-graduação. Ficou claro que era um serviço civil obrigatório.

Os estudantes, principalmente de universidades públicas, não poderiam atuar em hospitais do interior?


Por que não se abrem vagas de residência para que todos façam? Se tem 16 mil médicos formandos, todos deveriam fazer residência. A residência traz benefícios fundamentais. O governo deveria dar condições para que as universidades dobrassem as vagas para residentes. Por que os médicos não vão para o interior? Porque não têm uma carreira. Por que o juiz vai? Porque tem.

Por que tanta reação dos médicos brasileiros aos cubanos?


O médico estrangeiro pode entrar no país? Pode, contanto que cumpra as normas e ele seja certificado para aquilo. Eu posso atender nos Estados Unidos? Posso, se eu passar nos boards. Então, o que a classe médica está colocando é o seguinte: como se coloca médicos de fora para a população sem ter comprovada a sua capacitação?

Então a questão é a capacitação?


Exatamente. Não é a origem. É a capacitação, que precisa ser formal. Para nós, hoje o teste é o Revalida. Será que aquele médico estrangeiro atenderia o familiar de um político? O político levaria naquele médico cubano que chegou à cidade ontem? Ou preferiria um médico brasileiro, que fale a língua dele, que tenha um CRM cadastrado, com capacitação confirmada?

A chegada de médicos estrangeiros deixou os médicos indignados?


O governo federal usou isso de forma eleitoreira. A população está sendo muito usada nas questões políticas. Quem é contra é do mal. A população vem sendo muito enganada.

Em relação aos vetos da presidente Dilma à Lei do Ato Médico, o que os médicos não aceitam?


A lei vem sendo discutida há mais de 11 anos, passou por inúmeras plenárias, foi aprovada pela Câmara, pelo Senado e já estava numa fase de finalização. Então, na verdade, esses vetos pegaram a classe médica de surpresa. Todos os itens já haviam sido discutidos em mais de 100 reuniões e houve quatro vetos.

Um dos pontos vetados é a prerrogativa de apenas médicos fazerem diagnóstico e definirem o tratamento de pacientes. Por que a classe defende a exclusividade dessa atribuição?


Segundo a AMB (Associação Médica Brasileira), é necessário um treinamento específico para o diagnóstico e o tratamento. Não estamos fazendo pouco caso com outros profissionais de saúde. Mas uma coisa é achar que uma pessoa está infartando. Outra coisa é fazer o diagnóstico e tratar. Dependendo do medicamento, se for inadequado, uma situação pode se agravar. Outra polêmica é sobre a indicação de órteses e próteses… Mesmo dentro da medicina, eu que sou pediatra não saberia indicar órteses e próteses. É um procedimento específico de uma área da ortopedia. Não imagino como um profissional de outra área possa fazer uma indicação.

Os vetos à lei que disciplina a carreira foram uma derrota para a classe?


Para as entidades médicas, foi. Mas o que ficou determinado com essa perda é que a lei vai permitir que outros profissionais façam essas intervenções, porém, é necessário que isso esteja regulamentado nas normas de cada profissão. O veto não restringiu para o médico, apenas abriu para outros profissionais. É uma nova frente. Mas é preciso um trabalho de comunicação porque as pessoas não entendem. Acham que os médicos querem mandar em tudo. Todas as profissões são valorizadas, mas cada uma tem o seu papel. Eu jamais construiria um prédio.

 

 (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Quem é

 

Martha Helena Pimentel Zappalá Borges,  52 anos, casada com o médico
mastologista Sergio Zerbini Borges. Tem três filhos


ORIGEM
Recife (PE)


FORMAÇÃO
Cursou medicina na Universidade de Brasília (UnB) entre 1978 e 1984, com residência médica no Hospital Materno Infantil de Brasília (HMIB), no período de 1985 a 1987


CARREIRA
É concursada em dois cargos da Secretaria de Saúde, atuando como pediatra e intensivista pediátrica do Hospital de Base. Tem atuação destacada em residência médica. Aposentou-se em março deste ano.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017