• (0) Comentários
  • Votação:
  • Compartilhe:

Cultura | Diversão »

O artista é você

Brasília é uma cidade convidativa a quem gosta de soltar a voz e se sentir um verdadeiro artista - mesmo não tendo tanto talento. Um roteiro com os melhores karaokês da cidade comprova isso!

Fred Bottrel - Colunista Publicação:17/09/2013 16:41Atualização:17/09/2013 18:06

As irmãs Jaqueline & Fabiane animaram a plateia do Kabareh como se fossem cantoras profissionais: 'Vamos lá, gente, todo mundo!' (Fotos: Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
As irmãs Jaqueline & Fabiane animaram
a plateia do Kabareh como se fossem
cantoras profissionais: "Vamos lá,
gente, todo mundo!"
O abajur da menina veneno estampa cor de carne – e não carmim, como manda a poesia original de Ritchie – nos principais karaokês de Brasília. Esse equívoco pode parecer grave, mas faz parte da descontração: karaokê que se preze tem que ter erro na letra.


Encontro Brasília testou as principais casas que garantem a alegria mais ou menos bêbada àqueles dispostos a soltar a voz nessa estrada (a voz; não a vó, vejam bem). De banda ao vivo no palco, passando por decoração burlesca e chegando à sinuca como opção acessória, a capital oferece opções pitorescas e curiosas, mas, acima de tudo, divertidas, em casas noturnas que abrem o microfone aos clientes mais corajosos.


Ao se ver diante da plateia, a professora Carla Martins agita um tímido tchauzinho para as amigas, que fazem coraçõezinhos com a mão e gritam palavras de coragem. Olha para trás e acena, poderosa, para o baterista Anderson Nigro. Ele dá, então, os sinais para que a banda comece a tocar Sou Free, hit dos anos 1980 que ficou famoso com a girl band Sempre Livre. Depois de bradar a cacofonia da liberdade, Carla desce do palco do pub KaraUk e confessa: “Quinta-feira é para deixar o maridão em casa e me divertir com as amigas. Me sinto uma cantora de verdade”. Chegou às 22h e disse que ficaria “até cansar”.

Enny Faleiro, Mariana Correia, Poanka Faleiro e Amanda Coelho cantaram Tremendo Vacilão no palco do Cantar & Cantar: amigas unidas pagam mico unidas (Fotos: Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
Enny Faleiro, Mariana Correia, Poanka Faleiro e Amanda Coelho cantaram Tremendo Vacilão no palco do Cantar & Cantar: amigas unidas pagam mico unidas

No KaraUk, a banda Vox Pop faz a festa, com a mais inusitada das propostas. Ali, não há telas de TV com imagens nonsense e letras eletrônicas indicando qual o momento certo de entrar na música. “O candidato a cantor tem de conhecer a canção. Temos a letra impressa, mas ele tem de saber os tempos de cabeça”, conta Daniel Melo, produtor e baixista do grupo que se especializou no formato e também leva a animação do karaokê para festas de aniversário e casamento. Na prática, os músicos profissionais ajudam – e muito – o cantor amador, indicando os momentos corretos e abusando da breguice dos bons e velhos backing vocals.


Para se arriscar ao microfone, é preciso se inscrever (ninguém paga para cantar, só para entrar) e aguardar a vez. Não é permitido repetir até que todos os que assim desejarem tenham cantado ao menos uma vez. Mas há quem tenha estratégias avançadas. Na noite em que a reportagem visitou o pub, a dupla McDonalds e Giraffas voltou ao palco repetidas vezes. Tratam-se, na verdade, dos amigos servidores públicos Daniel Canedo e MacDonald de Almeida. “A gente coloca cada hora o nome de um de nós dois. Daí dá pra repetir, subindo e cantando os dois ao mesmo tempo”, explica MacDonald (sim, este é mesmo o nome dele).

Enquanto Daniel Canedo e MacDonald de Almeida cantavam Born To Be Wild no KaraUK, a banda os avaliava para escolher os melhores da noite (Fotos: Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
Enquanto Daniel Canedo e MacDonald de Almeida cantavam Born To Be Wild no KaraUK, a banda os avaliava para escolher os melhores da noite

A estratégia não fere as normas da casa, mas enquanto eles cantavam Born to Be Wild, da banda Steppenwolf, eram notáveis alguns narizes virados na plateia. Não há pontuação ao final das apresentações, mas a banda escolhe os melhores da noite, em duas rodadas que premiam os mais afinados desempenhos com garrafas de vinho. Um concurso maior está previsto para este mês.


Se a banda é o destaque do KaraUk, a decoração e o clima intimista dão o tom no Kabareh. A gerente Danielle Rocha chega apressada, de táxi, com um shake de proteína na mão: “Vou virar uma panicat”, diz. Ao entrar na casa e receber a reportagem, arranha um “Welcome to Kabareh”, enquanto ajeita um amontoado de plumas sobre um abajur (cor de carne) na entrada. Penas enfeitam os candelabros e os lustres, com lampadinhas que imitam o formato de velas. Luminárias com franjas de tecido vermelho e papel de parede texturizado completam a decoração desse pub de apenas 100 metros quadrados.

A plateia da professora Carla Martins torcia por ela embaixo do palco do KaraUK: 'Quinta-feira é dia de me divertir com as amigas' (Fotos: Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
A plateia da professora Carla Martins torcia por ela embaixo do palco do KaraUK: "Quinta-feira é dia de me divertir com as amigas"

Segundo Nadi Daniani, um dos sócios-proprietários do espaço, o Kabareh surgiu como contraponto aos botecões de videokê. “Nada contra, mas eu quis uma coisa diferente, de gosto mais refinado.” Danielle opina que o lugar tem as garçonetes – todas fantasiadas na temática burlesca – mais bonitas da cidade: “E todas elas usam perfume Chanel, pode escrever isso aí”. A casa estuda expansão para Águas Claras e Unaí (no Entorno), ainda este ano.


Gerente da casa, Danielle Rocha recebe com um 'Welcome to Kabareh', enquanto ajeita plumas sobre um abajur na recepção (Fotos: Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
Gerente da casa, Danielle Rocha recebe
com um "Welcome to Kabareh", enquanto
ajeita plumas sobre um abajur
na recepção
As telas de LED no palco e na plateia permitem que a galera cante junto. É o que pede a servidora pública Fabiane Caldeira: “Vamos lá, gente, todo mundo!”. O pessoal acompanhou, enquanto ela tentava os agudos de Alexandre Pires em Dói Demais, em dupla com a irmã Jaqueline, gerente de recursos humanos. Sobre a escolha da banda Só Pra Contrariar, Fabiane não poupa exclamações: “O objetivo é pagar mico, soltar a franga, é para isso que serve o videokê!”. Naquela noite, Fabiane & Jaqueline ainda encarariam sucessos de Chitãozinho & Xororó e Zezé di Camargo & Luciano.


A faixa etária dos frequentadores dos karaokês de Brasília é tão flexível quanto a amplitude vocal dos mais afinados. “Galera, minha mãe tá aqui, véi. Ela veio com o boy dela, então sou a favor de a gente ir para outro lugar despirocar”, desesperava-se uma adolescente na porta do Kabareh. Os amigos então sugeriram cruzar a cidade e experimentar o Strangers Snookers ou o Cantar & Cantar. As duas marcas oferecem ambientes mais despojados, à moda clássica do karaokê bagaceira, por isso tendem a atrair clientela mais jovem, mas nada é regra nesse mercado.


O Stranger’s (que dá nome a uma casa na Asa Norte e outra na Asa Sul) oferece também sinuca e pôquer para quem não é adepto da cantoria. Jantar, cerveja gelada e premiações todos os dias são as promessas na entrada. A área do karaokê fica isolada dentro do amplo espaço das sinucas. No palco, o servidor público Bruno Carvalho Maltez cantava o refrão de Conga la Conga, de Gretchen: “Colocaram essa música para mim, mas vou me vingar”. Ele obrigou uma amiga a cantar um sucesso da Xuxa, como troco.
“É importante que a música seja antiga, para que mais gente conheça e todo mundo cante junto”, defende a bancária Tatiane de Oliveira. Ela cantou Astronauta de Mármore, do grupo Nenhum de Nós, junto ao amigo Heli Junior.


Os amigos Heli Junior e Tatiane de Oliveira soltam a voz em karaokês: 'É importante que a música seja antiga, para que todo mundo cante junto', diz ela (Fotos: Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
Os amigos Heli Junior e Tatiane de Oliveira soltam a voz em karaokês: "É importante que a música seja antiga, para que todo mundo cante junto", diz ela
No Cantar & Cantar, escada com luz negra conduz o público ao subsolo, onde rolam as performances, um palco traz cenário dos Arcos da Lapa e acessórios como máscaras, chapéus e paetês estão à disposição do pessoal. “Normalmente os mais cachaceiros entram de cabeça na proposta”, diz Drika Mesquita, na recepção.


O espaço no palco é destaque, comportando grandes grupos adeptos do lema “Amigos unidos pagam mico unidos”. É o caso das estudantes Enny Faleiro, Mariana Correia, Poanka Faleiro e Amanda Coelho, que mandaram ver no “Tirap Tchoron! Tirap Tchoron!” de Tremendo Vacilão, da funkeira Perlla. “Era para ser Hakuna Matata (da trilha do desenho animado O Rei Leão), mas só tinha em inglês, então fomos de Perlla”, explica Enny.


Enquanto entoavam o “Deu mole pra caramba/ É um tremendo vacilão/ Tá todo arrependido/ Vai comer na minha mão”, uma aranha tecia uma teia, um pinscher caçava na grama, uma pata chocava os ovos, flores bailavam ao vento e gaivotas sobrevoavam praias paradisíacas nas telas de TV.

 

Bruno Carvalho Maltez não encontra só um microfone aberto no Stranger's: boa comida, cerveja gelada e premiações também são atrativos (Fotos: Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
Bruno Carvalho Maltez não encontra
só um microfone aberto no Stranger's:
boa comida, cerveja gelada e
premiações também são atrativos
Onde ir

 

  Cantar & Cantar

710 Norte - Bloco F. Tel: (61) 9139-7366
De terça a quinta, entre 17h e 0h30:
R$ 13 (para quem canta) e R$ 9
Sexta e sábado, entre 17h e 2h30:
R$ 15 e R$ 10

  Kabareh

CLS 413 Bloco C, Loja 8.
Tel: (61) 8344-8444
A partir das 20h
De terça a quinta, R$ 15;
sexta e sábado, R$ 20

  KaraUk

CLS 411, Bloco B. Tel: 61) 3346-5214
A partir das 22h
Somente às quintas-feiras, R$ 20

  Stranger’s Snooker

Asa Norte: 706/707 - Bloco D - Loja 6. Tel: (61) 3274-7770
Asa Sul: 513 Sul, loja 78 - Bloco C
Tel: (61) 3345-8075
A partir das 17h (nos dois endereços)
De segunda a quinta, R$ 15 (videokê)
e R$ 3 (apenas sinuca)
Sexta a sábado, R$ 20 e R$ 3

COMENTÁRIOS
Os comentários estão sob a responsabilidade do autor.

EDIÇÃO 58 | outubro de 2017