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NAS TELAS | José João Ribeiro »

As escolhas de Sofia

José João Ribeiro - Colunistas Publicação:25/09/2013 16:45Atualização:25/09/2013 16:50

 (Divulgação)
 

Um dos grandes desejos de todo pretenso artista é o de ver o imediato reconhecimento de sua obra. A fácil identificação demonstra que houve o êxito de um modelo, de uma marca. Na recente estreia de Bling Ring: A Gangue de Hollywood, já nos primeiros acordes da trilha sonora, a plateia de pronto percebe que se trata de um projeto da diretora Sofia Coppola. Uma das promessas para definir os rumos do cinema norte-americano, a herdeira do mestre Francis Ford preferiu manter o rotineiro padrão que já praticava. Não recorreu a nenhuma ousadia, vital para o aprimoramento dos cineastas abençoados, pela atenção e torcida da mídia especializada.


Fashionista assumida, Sofia manipula a trama de seu novo filme, que se ancora em fatos reais, em que uma trupe de jovens, quase adolescentes, cultua o estilo e o consumo obsceno das celebridades. Tamanho fanatismo explode na invasão de residências e no furto de caríssimos e sonhados objetos. Privilegia-se o foco de uma juventude oca, desinteressada, ausente de valores e princípios caros à convivência social. Não se garante, também, a demonstração minuciosa dos anseios dessas personagens. O longa-metragem cumpre seu recado ao ser enxuto e direto, com o roteiro escrito com base em uma reportagem original da revista Vanity Fair.


A importância de Bling Ring na carreira de Sofia Coppola é a da coerência e da fidelidade. As pegadas e soluções de outras obras aparecem a todo tempo na produção mais atual. Relembra-se afetivamente do gosto e da opção para o tipo juvenil-cabeça, com todas as suas consequentes aberrações, grito sensível já na estreia com As Virgens Suicidas. O cultuado Encontros e Desencontros foi o insuspeito marco na progressiva estrada. A diretora mostrou um Japão, desconhecido do público médio, sensorial, e criou ainda duas personalidades muito atraentes, o astro maduro de Bill Murray e a jovenzinha bisbilhoteira de Scarlett Johansson, contribuição para o imaginário do cinema. O passo seguinte, Maria Antonieta, rompeu a lua de mel com a crítica. O período retratado da França de Luís XVI não transmitiu o jeitão europeu, selando, desde o lançamento, o ambicioso filme no rol dos mais subestimados da última década.


Participante da mostra Um Certo Olhar, do Festival de Cannes 2013, Bling Ring padece de sua dura exigência cronológica. No confortável espaço de entregar uma história simples e compacta, a moça Coppola perdeu a chance de esbanjar doses fartas de cinismo e perversidade. A sensação é a de chegar na beirada do precipício, e a luz do projetor, simplesmente, apagar. Perde-se a oportunidade da surpresa e do choque. Neste momento, optou-se por uma regularidade, pela sossegada fórmula já testada. A mudança de ares, sem comprometer o elogiado talento, é ansiosamente aguardada desde já.

 

Assista ao trailer de "The Bling Ring"

 

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017