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Moda | Homens »

Mestre da alfaiataria

Advogados e políticos não dispensam as mãos habilidosas de José Agostinho, um dos costureiros mais requisitados de Brasília. Perfeccionista, só trabalha com tecido italiano

Rodrigo Craveiro - Redação Publicação:08/10/2013 15:37Atualização:08/10/2013 16:19

Um dos profissionais mais requisitados de Brasília, José comemora: 'Atualmente, as pessoas procuram mais o alfaiate do que 10 anos atrás' (Minervino Junior/ Encontro/ DA Press)
Um dos profissionais mais requisitados de Brasília, José comemora: "Atualmente, as pessoas procuram mais o alfaiate do que 10 anos atrás"
 

O relógio com a estrela solitária na parede, ao lado de um quadro com a foto dos 11 jogadores, provam que ali existe um botafoguense convicto. Na pequena sala instalada no quarto andar de um antigo prédio do Setor Comercial Sul, no centro de Brasília, três máquinas de costura, uma overloque, uma tábua de passar roupa e fitas métricas também indicam que ali trabalha um profissional da costura. A camisa de linho riscado, com as iniciais J.A.J. estampadas no bolso, e a gravata de cor púrpura são a prova de que a elegância também é a marca de seu trabalho.


José Agostinho de Jesus, maranhense da cidade de Caxias, é um alfaiate diferente de muitos outros. Apaixonado pelo trabalho, ele atende a quase todos os seus clientes em domicílio. O freguês não precisa se preocupar com nada, a não ser tirar as medidas e, é claro, pagar pelo serviço. Até se tornar um dos profissionais mais tradicionais de Brasília, José Agostinho de Jesus, de 61 anos, percorreu um longo e árduo caminho. Aos 13 anos, começou a trabalhar na alfaiataria de um compadre de sua mãe, em Caxias. Quando chegou a Brasília, dois anos depois, em janeiro de 1968, já sabia fazer calças.


Depois de atuar em um estabelecimento no Núcleo Bandeirante, aprimorou suas técnicas na alfaiataria do Ministério da Marinha, em 1971. No ano seguinte, teve a carteira de trabalho assinada pelo alfaiate mais famoso da cidade, conhecido como Davi. “Em 1973, participei da Convenção Nacional dos Alfaiates, em São Carlos (SP). Fui considerado o melhor calceiro da época. Eu tinha 21 anos”, lembra. Depois, aprendeu a fazer camisas e a confeccionar paletós.


Um dos clientes é Artur Virgílio, prefeito de Manaus: encomendas na época em que era secretário-geral da Presidência, na gestão Fernando Henrique (Cadu Gomes/CB/DA Press)
Um dos clientes é Artur Virgílio,
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da Presidência, na gestão Fernando
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A produção no ateliê é ditada pelo perfeccionismo, percebido desde a escolha da matéria-prima. José Agostinho só trabalha com tecido importado da Itália e conta com o auxílio do irmão e de dois funcionários. Em suas visitas aos cerca de 300 clientes, ele leva o mostruário e faz as encomendas em uma importadora de São Paulo. “Já atendi a alguns antigos deputados, como o pastor Jorge Pinheiro e Ricardo Fiúza. Também fiz algumas camisas para o prefeito de Manaus, Artur Virgílio Neto, meu cliente quando era secretário-geral da Presidência da República, no governo Fernando Henrique.” Virgílio se recorda de José Agostinho: “É competente e experiente. Sempre me atendeu com presteza e seriedade”, afirma a Encontro Brasília o prefeito de Manaus. “Além de tudo, era justo nos valores cobrados”, acrescenta.


Mais de 80% da clientela de Agostinho é composta de advogados, que gostam de se vestir muito bem, mas há também médicos e empresários. Hoje, ele cobra a partir de R$ 280 pelo feitio de camisas sociais, que vêm com barbatanas e etiquetas personalizadas. Os ternos variam de R$ 1,8 mil a R$ 9,3 mil.


Um de seus clientes, um advogado conceituado de Brasília, é apaixonado por moda. “Ele está sempre me atualizando. Às vezes, pede que eu faça um modelo de terno slim, de um botão, que viu na revista”, comenta. O alfaiate se diverte ao revelar que esse senhor certa vez lhe telefonou e fez um pedido inusitado. “Ele falou: ‘Agostinho, vá na banca, compre aquela revista, que tem fulana na capa, ligue para mim que vou lhe mostrar uns modelos de colarinho para você fazer umas camisas para mim’”, lembra. “Comprei a revista e fiz as camisas para ele”, completa, em meio a sorrisos.


Em outra ocasião, o mesmo advogado recomendou-lhe que fosse a uma loja de grife famosa pelos ternos bem cortados. “Ele pediu que eu ‘fotografasse na memória um terno azul-claro com casas azul-marinho e botões brancos, que estava na vitrine. Fui lá e fiz o terno para ele. Mas ficou diferente e ele gostou”, relatou. Após uma conferência em Salvador, o advogado esqueceu o terno no banco da sala de embarque. “Esse homem quase chorou. Depois, fez mais uns três ternos comigo.”


O fato de as lojas de renome oferecerem várias opções de camisas e ternos a preços diversificados não incomoda José Agostinho, que acredita no prestígio de sua profissão. “Atualmente, as pessoas procuram mais o alfaiate do que 10 anos atrás”, garante. “Às vezes, tenho de me desdobrar para dar conta do serviço.” Em maio, ele e sua equipe fizeram roupas para um advogado que casou o filho na Itália. José Agostinho fez os ternos do noivo, do pai e do avô, além de 14 camisas. “Eu embarquei todo mundo na Itália com ternos e camisas feitas por mim”, orgulha-se.


Um dos trabalhos mais difíceis foi a confecção de um terno para o pajem de outro casamento. O menino, de 1 ano e 5 meses, não parava durante a prova do produto. Alguns empresários, quando retornam de viagem do exterior, costumam trazer dezenas de camisas de marcas renomadas, como Armani, para o alfaiate fazer os ajustes. “Não é o que gosto de fazer, mas não posso deixar, pois o cliente me trata muito bem”, afirma. Todos os dias, José Agostinho deixa sua casa, em Ceilândia Sul, rumo à alfaiataria. Casado, com seis filhos e quatro netos, ama o que faz e transparece felicidade no jeito simples e na habilidade ao manejar a tesoura e o tecido.

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