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Ler para crer

O incentivo à leitura transforma a rotina dos estudantes, abre horizontes e pode mudar a realidade brasileira

Dominique Lima - Redação Publicação:09/10/2013 14:29Atualização:09/10/2013 14:50

A poesia de Monique Gabrielly Mendes de Sousa ficou entre as três melhores no concurso cultural Recriando Vinicius e Drummond: 'Fiquei surpresa com o prêmio', conta a leitora voraz (Fotos: Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
A poesia de Monique Gabrielly Mendes de Sousa ficou entre as três melhores no concurso cultural Recriando Vinicius e Drummond: "Fiquei surpresa com o prêmio", conta a leitora voraz
 

À primeira vista, o grupo de jovens sentados na colorida biblioteca do Centro de Ensino Fundamental (CEF) 201 de Santa Maria não se difere da imagem de adolescentes típicos. Semblantes curiosos, um pouco tímidos no começo, porém a hesitação coletiva logo é substituída pela empolgação das falas sobrepostas umas às outras. Esses meninos e meninas mostram desenvoltura e maturidade de linguagem além de seus anos. Um dos assuntos preferidos nessa roda: o prazer da leitura, que todos compartilham.


Com a prática saudável, conquistaram novas perspectivas. Melhoraram desempenho escolar. Participam de atividades coletivas. Divertem-se. Apesar de entraves, como a falta de formação de professores e inadequada metodologia de ensino, a necessidade de formar leitores na educação básica resulta em projetos positivos, que se desdobram a partir de esforços individuais e coletivos. Faltam ainda, entretanto, mudanças estruturais na educação para institucionalizar a leitura na vida do estudante.


De acordo com levantamento do Instituto Pró-livro, associação de caráter privado e sem fins lucrativos de fomento à leitura, a necessidade de incentivar a leitura é premente. A pesquisa intitulada Retratos da Leitura, de 2007, revela que a população considerada leitora – quem leu pelo menos um livro ou parte dele nos últimos três meses – correspondia a 55% dos brasileiros residentes no país com mais de 5 anos, parcela que representa 95,6 milhões de pessoas.
Em 2011, os leitores eram 50%, ou seja, 88,2 milhões. O declínio é sinal de alerta para o Brasil. Isso porque o hábito de leitura está ligado a fortalecimento de laços da população com sua cultura, ao maior acesso à informação e à criação e massa crítica, entre outros sinais de desenvolvimento do país.

Gisélia Santos, com as filhas Camila e Esther, de 13 e 11 anos: 'Os livros 
ajudam a aprender mais rápido. E ajudam a pensar, a sonhar', diz a mãe ( Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
Gisélia Santos, com as filhas Camila e Esther, de 13 e 11 anos: "Os livros ajudam a aprender mais rápido. E ajudam a pensar, a sonhar", diz a mãe

A biblioteca Cora Coralina do CEF 201, onde o grupo de estudantes leitores se encontra, é importante prova da capacidade de mudança que a leitura impõe. Nesse pequeno espaço, transformado por iniciativa da professora Margareth de Brito Alves, a Margô, dezenas de estudantes ganham novas perspectivas. Andrei Adriano, de 14 anos, relata que as notas de português, antes fonte de ansiedade, se tornaram motivo de orgulho e reconhecimento. Depois de começar a frequentar assiduamente a biblioteca, incentivado pelo espaço para xadrez, passou a pegar livros emprestados. Em pouco tempo, tornou-se aluno destaque no primeiro bimestre do 8º ano.


Seu colega Jonas Sousa, de 15 anos, foi incentivado pela professora Margô a se iniciar no mundo da leitura por meio da coleção de gibis para adolescentes Turma da Mônica Jovem. Uma vez imerso nesse universo, desbravou textos mais robustos. Da saga britânica do bruxo Harry Potter, chegou à mitologia e à literatura clássica. Leu a Ilíada duas vezes: uma aos 12 e outra aos 14 anos.


A professora Margareth de Brito alcançou uma meta: a biblioteca mais perto do dia a dia dos jovens  ( Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
A professora Margareth de Brito
alcançou uma meta: a biblioteca
mais perto do dia a dia dos
jovens
O principal contato de muitos jovens com a leitura, assim como para Andrei e Jonas, se dá por meio da escola. Raras são as vezes, entretanto, durante esses anos formativos, em que eles aprendem o prazer e a importância da leitura. O mais comum é que entendam a atividade como algo necessário apenas para obter aprovação nas provas. Consequentemente, diminuem o volume de leitura ou abandonam totalmente o hábito assim que deixam o banco escolar.


A estratégia da professora Margareth de Brito foi trazer a biblioteca mais para perto do dia a dia e das preferências dos jovens e criar laços mais estreitos entre os alunos e os livros. As medidas são simples, mas eficazes. Uma delas foi acabar com a regra do silêncio total no ambiente. O conforto das cadeiras e a decoração também ganharam atenção. Por meio de doações e rifas, mantém o acervo diversificado.


“Antes de conhecer, você acha que biblioteca, que ler é coisa de inteligente, só para um tipo de pessoa. Não é nada disso. É divertido”, diz Bruno Maciel, que cursa o 7º ano no CEF 201. Sua irmã, Thábyta, do mesmo ano, além de apaixonada por livros, trabalha com outros colegas como voluntária na biblioteca. O que se verificou no CEF 201 é que um dos mais importantes meios de quebrar a tradição da não leitura é apresenta-la sob nova perspectiva.


A pesquisadora da área de literatura e pedagogia Neide Luzia de Rezende, da Universidade de São Paulo, aponta que a resposta para melhores resultados consiste menos em ensinar um conteúdo, e mais em ensinar um modo de ler. “Um leitor, em princípio, é aquele que lê o que gosta. Forma-se lendo diferentes tipos de textos, vai se tornando mais exigente; o que permite avançar rumo a aventuras literárias mais ousadas”, explica.

Alunos do CEF 201, na biblioteca Cora Coralina:  eles são a prova da capacidade de mudança que a leitura possibilita a estudantes leitores ( Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
Alunos do CEF 201, na biblioteca Cora Coralina: eles são a prova da capacidade de mudança que a leitura possibilita a estudantes leitores

Ser exposto o mais cedo possível à prática da leitura parece ser outro aspecto em benefício da boa formação de leitores. As crianças em fase de alfabetização do colégio Inei-Sigma, no Lago Sul, têm acesso aos livros desde o início da atividade escolar por meio do projeto Tornar-se Leitor.

Amparados pela boa condição financeira dos pais, os alunos adquirem seis livros cada um. Ao longo do ano, trocam entre os colegas e leem dezenas de obras por ano. “A formação da leitura e escrita deve acontecer desde a mais tenra idade. A contação de história desenvolve o mundo imaginário da criança não alfabetizada. Com isso, depois, na primeira do etapa ensino fundamental, desenvolve-se melhor a alfabetização formal da criança”, explica a pedagoga e presidente do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares do DF (Sinepe-DF), Fátima de Mello Franco.


O projeto do Inei-Sigma também envolve os pais. As crianças são incentivadas a levar o livro para a casa e apresentar o que leram em sala de aula, o que permite a aproximação dos pais com o hábito da leitura dos filhos. O professor da Universidade de Brasília Robson Coelho Tinoco, que pesquisa práticas e metodologias de leitura literária no ensino médio, destaca que o diferencial para um bom leitor será sempre o meio familiar em que se encontra. “Não adianta o aluno estar na melhor escola se a família não tem práticas de leituras”, ressalta.

Pelo projeto Tornar-se Leitor, os alunos do Inei%u2013Sigma trocam livros e leem dezenas de obras por ano ( Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
Pelo projeto Tornar-se Leitor, os alunos do Inei%u2013Sigma trocam livros e leem dezenas de obras por ano

É do trabalho em conjunto de pais e professores, no entanto, que surgem os melhores projetos. E a importância da formação do professor no processo de incentivo à leitura não pode ser negligenciada. O professor Robson Tinoco cita, para conceituar a presença do mestre na formação dos estudantes, Rubem Alves: “O educador é um pastor de sonhos”. As afirmações são amparadas pela pesquisa Retratos da Leitura, segundo a qual 45% dos leitores no Brasil relataram ter como influência um professor ou professora e 43%, um dos pais – na entrevista, eles podiam mencionar até dois dos principais influenciadores.


Outro tema muito em voga quando se trata de leitura, o da influência da tecnologia, ainda carece de maior observação e suscita polêmicas. Projetos malsucedidos de inserção de tablets e outros aparelhos à rotina da sala de aula são apontados. Mas concordam Robson Tinoco, Neide Rezende e Fátima Franco: se usado de maneira responsável, qualquer dispositivo tecnológico pode auxiliar na aproximação do jovem com a leitura, mesmo sendo o potencial para atrapalhar o processo igualmente grande.


Frente aos desafios, a gerente do livro e leitura da Secretaria de Educação do GDF, Cristiane Salles, explica que o governo está em fase de finalização do plano norteador das políticas públicas voltadas para o assunto, que é baseado no Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) do governo federal. O intuito é sistematizar projetos de incentivo, tornando os que já existem parte consolidada da metodologia e iniciando outros. Se concretizado, responderá à principal crítica de especialistas, a de que faltam transformações na estrutura do ensino que foquem o incentivo à leitura: “Projetos pontuais merecem reconhecimento, mas é preciso também entender que eles não trarão mudanças em larga escala”, diz Robson Tinoco.


São com essas pontuais e ainda escassas iniciativas, no entanto, que contam estudantes como Monique Gabrielly Mendes de Sousa, de 13 anos, aluna do Centro de Ensino Fundamental 405 do Recanto das Emas. Classificada em terceiro lugar na categoria poesia do concurso cultural Recriando Vinicius e Drummond, ela conheceu a partir de única experiência, um novo ídolo, Carlos Drummond de Andrade, e uma nova habilidade, a escrita. O prêmio foi a doação de 20 livros para a escola e dois para ela, que sonha ser advogada. “Fiquei surpresa com o prêmio. O que me inspirou foi a obra de Drummond e minha ideia sobre o que é a felicidade”, conta.


É exatamente esse pensar sobre qualquer assunto novo ou qualquer já conhecido, mas visto de uma nova maneira, um dos maiores atributos de quem lê com frequência. Característica imprescindível para advogados, engenheiros, cientistas, professores, líderes e cidadãos, enfim. É o que descobriu Gisélia Santos, mãe de Camila, de 13 anos, e Esther, de 11. As duas, estudantes do CEF 201 e assíduas da biblioteca Cora Coralina, transformaram a rotina em casa. “Elas contam histórias em casa. Os livros são um caminho para aprender mais rápido. E ajudam a pensar, a sonhar”, relata. 

 

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017