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É hora de falar sobre sexo

Quando, e como, a necessária conversa sobre educação sexual deve ocorrer - em casa e na escola

Ana Letícia Leão - Redação Publicação:09/10/2013 15:05Atualização:09/10/2013 15:20

Na casa de Elaine Macedo Montalvão, falar de sexo nunca foi tabu: os filhos mais velhos, Camila e Thiago, sempre conversaram com naturalidade, inclusive com Bruna, quando ela tinha 9 anos de idade (Samuel Gê)
Na casa de Elaine Macedo Montalvão, falar de sexo nunca foi tabu: os filhos mais velhos, Camila e Thiago, sempre conversaram com naturalidade, inclusive com Bruna, quando ela tinha 9 anos de idade
 

A primeira vez eles nunca esqueceram. Estavam sentados na sala para assistir à novela, quando começou uma cena de sexo na TV. “Bruna, feche os olhos”, gritou a irmã mais velha, Camila Montalvão. E a garota, na época com 9 anos, logo respondeu: “Ai, gente, eu sei que eles estão fazendo amor”. Pronto. Todos se assustaram. A mãe, Elaine Macedo Montalvão, na hora perguntou onde ela tinha aprendido tão cedo sobre o assunto. “Até na escola já falamos sobre isso”, respondeu Bruna.


Comum a várias famílias, esse é um quadro que retrata bem importantes dúvidas sobre a educação dos filhos. Afinal, qual é a hora certa para se falar sobre sexo com as crianças? Quando a conversa deve ocorrer em casa? E na escola? As perguntas são infinitas, mas... nada de pânico! Psiquiatras, pedagogos e sexólogos garantem que o segredo está no diálogo, na verdade e no tratar o tema com naturalidade, sem tabus.


Carmita Abdo é psiquiatra e professora do Departamento de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e coordena o Programa de Estudos e Sexualidade (ProSex) da mesma instituição. Estudiosa do tema desde a década de 1980, ela explica que a educação sexual deve começar assim que a criança pedir respostas, sem idade certa para o início dessa abordagem. “É bastante positivo quando a criança começa a perguntar e o adulto, seja os pais seja professores, sente-se confortável para responder às questões”.


[FOTO2]Carmita defende que é muito negativo deixar a criança sem esclarecimentos, porque ela com certeza vai buscar em outros lugares e a resposta pode não ser interessante. “Pode vir carregada de preconceitos, tabus e mitos, repercutindo de forma negativa na formação daquela criança. E essa repercussão pode não ser só no aspecto sexual”, afirma.


Foi nessa linha, sempre a favor do diálogo, que Elaine criou os três filhos já adultos, Thiago, Rafael e Camila, e hoje cuida da caçula Bruna, de 12 anos. Segundo ela, nunca houve uma necessidade de se preparar para falar sobre sexo, já que o assunto fluiu aos poucos. “A melhor forma foi plantar as coisas com naturalidade. Todo mundo passa por isso e precisa se conhecer. Não podemos deixar de responder, temos de falar, sem ficar horrorizada”, comenta.


Apesar de o diálogo ser fundamental na hora de falar sobre sexo, especialistas alertam: é uma criança que está fazendo perguntas, portanto, é necessário ter cuidado e perceber o que ela é capaz de compreender, de acordo com sua idade. “A criança inicia o entendimento a partir da idade da razão, entre 6 e 7 anos, época em que ela começa a ter mais raciocínio e não vive mais no mundo da fantasia. Se ela perguntou, é porque pode ouvir a resposta”, diz a especialista Carmita.


De acordo com a pesquisa Mosaico Brasil, realizada pela ProSex com 8.200 entrevistados de capitais como Recife, Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro, 60% dos brasileiros acreditam que a educação sexual deve começar em casa, e os outros 40% pensam que o início da conversa precisa ser na escola. Para a coordenadora do estudo, o ambiente familiar é o principal ponto de apoio para uma boa educação sexual. “A melhor educação ainda é aquela que a criança tem em casa, onde a peculiaridade e a capacidade de entender esse ou aquele conceito podem ser avaliadas de forma muito personalizada. Na escola, os conceitos serão transmitidos de forma mais genérica, para uma classe”, explica Carmelita. Segundo ela, o ideal é que a escola complemente os ensinamentos de casa no que diz respeito à educação sexual.


Para Eliane Perdigão, diretora do Le Petit Galois, esse conteúdo não é pragmático e, portanto, não deve ser abordado de maneira isolada na escola: 'Temos de respeitar as diferenças de cada aluno' (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
Para Eliane Perdigão, diretora do Le Petit
Galois, esse conteúdo não é pragmático e,
portanto, não deve ser abordado de maneira
isolada na escola: "Temos de respeitar
as diferenças de cada aluno"
O Ministério da Educação (MEC), por meio dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), sugere que as escolas abordem o tema orientação sexual de forma transversal, ou seja, diluído no conteúdo escolar como um todo, não em uma disciplina isolada. Assim, ele pode ser abordado de forma livre sempre que houver alguma oportunidade para o debate.


A sexóloga e psicóloga Laura Muller, no livro Educação Sexual em 8 Lições, explica que, segundo os PCN, o tema sexualidade precisa estar presente no ensino escolar a partir dos 6 ou 7 anos. “A educação sexual na escola pode e deve incluir ações de capacitação para professores, coordenadores, gestores e toda a equipe que lida com os alunos, como o pessoal da cantina, da limpeza, etc.” Um exemplo bem simples, de acordo com Laura, é na aula de artes exercitar, em desenhos e colagens, o aprendizado sobre papéis sexuais, ou então, na aula de educação física, trabalhar questões a respeito do corpo.


A transversalidade é a forma adotada pelo Colégio Galois, em Brasília, para abordar o tema educação sexual entre os alunos. Segundo Eliane Perdigão, diretora do Le Petit Galois e representante do colégio, esse conteúdo não é pragmático e, portanto, não deve ser abordado de maneira isolada na escola. “Temos de respeitar as diferenças e a demanda de cada aluno. Sexualidade não é algo técnico, é inerente ao ser humano”, afirma. Segundo ela, o cuidado com o tema deve existir, ainda, em razão da grande diversidade cultural e religiosa que existe na escola.


Com a orientação sexual sugerida pelos PCN, espera-se que as crianças sejam capazes de respeitar a diversidade de valores, compreendam a busca do prazer como algo que faz parte da sexualidade humana, conheçam e respeitem o próprio corpo, identifiquem e repensem tabus e preconceitos, conheçam as práticas de sexo protegido, evitem gravidez indesejada e, acima de tudo, tenham consciência crítica sobre educação sexual.

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