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ENTREVISTA | JORGE CHEDIEK »

Por uma Brasília global

Em entrevista a Encontro Brasília, o coordenador do Sistema Nações Unidas no Brasil fala sobre os planos de construir um grande espaço da diplomacia na capital

Dominique Lima - Redação Publicação:14/10/2013 15:32Atualização:14/10/2013 15:58

 (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)

As transformações do Brasil e de sua imagem no cenário internacional nos últimos 20 anos tiveram consequências relevantes para a participação do país na Organização das Nações Unidas (ONU). É o que explica com forte sotaque típico da mistura entre espanhol e português Jorge Chediek, argentino que acumula os cargos de coordenador-residente do Sistema Nações Unidas no Brasil e  representante-residente do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). No mês em que sãocelebrados o Dia das Nações Unidas e o aniversário da entrada em vigor da Carta da ONU, Encontro Brasília conversou com o representante máximo da instituição no Brasil, que vive em Brasília, sobre o estreitamento dos laços entre a nação brasileira e a instituição internacional, além de tratar dos desafios atuais e futuros para as relações internacionais.


Servidor de carreira da entidade há 23 anos, ele conta que conheceu, em primeira mão, o valor do trabalho das Nações Unidas para as pessoas que estão em condição limite, como refugiados. Para ele, há um valor simbólico importante da bandeira das Nações Unidas. Ressalta ainda que a instituição tem muito a usufruir de exemplos de desenvolvimento e evolução social, como os vividos pelo Brasil nos últimos anos.

O que é o sistema ONU para o Sr.?

As Nações Unidas representam os melhores valores da humanidade, as melhores esperanças das grandes religiões e filosofias. Nosso trabalho é apoiar as maiores causas globais, nacionais e locais e colocar o arcabouço institucional do sistema a serviço dessa melhora da condição de vida da sociedade. Tenho uma visão muito mística do nosso trabalho. Não é simplesmente um trabalho a mais.

Como analisa a situação do Brasil no cenário internacional atualmente?

É importante que seja reconhecido pelos brasileiros e pelos brasilienses o fato de o Brasil ser hoje percebido como um país moderno e um exemplo para outras nações. Um país que há 20, 30 anos era sinônimo de exclusão ou apenas de festa e futebol, e hoje é sinônimo de fome zero, de uma democracia consolidada, de programas sociais modelos. Tem líderes de projeção global, como os últimos presidentes, Fernando Henrique Cardoso, Lula e a presidente Dilma. Então, a percepção do Brasil mudou no nível mundial. E isso tem muito valor para a ONU, porque essa melhora em tão pouco tempo é excepcional. Nesse sentido, as Nações Unidas têm muito interesse em apoiar o Brasil na solução dos problemas que já existem e os que vão aparecendo com o progresso. Isso porque, quando se resolve o problema de acesso à educação, por exemplo, surge o problema de necessidade de aumento da qualidade dessa educação. Os problemas vão mudando e a ONU tem muito a contribuir com o Brasil nesse sentido.

'Brasília é uma joia arquitetônica reconhecida mundialmente, e todas as manhãs, quando olho a Esplanada (dos Ministérios) e os grandes monumentos, encontro uma cidade espetacular' (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
"Brasília é uma joia arquitetônica
reconhecida mundialmente, e todas as
manhãs, quando olho a Esplanada
(dos Ministérios) e os grandes monumentos,
encontro uma cidade espetacular"
Em que aspectos a ONU tem trabalhado com o Brasil sob essa nova perspectiva?


Um eixo muito importante do nosso trabalho é compartilhar a experiência do Brasil com outros países, no nível da cooperação Sul-Sul. Temos muitas missões de outros países que visitam o Brasil para conhecer suas experiências e, ao mesmo tempo, muitos especialistas técnicos brasileiros que viajam para outros países para compartilhar essas experiências tão bem-sucedidas com programas sociais, de agricultura tropical, de saúde básica, etc. Nos últimos anos, a cooperação Sul-Sul tem sido reconhecida como instrumento essencial para melhorar as condições de vida da humanidade. Ela não vem para substituir a cooperação Norte-Sul tradicional, que ainda é importante, mas traz um aspecto novo: a maior identificação entre os países. Nações da África, por exemplo, acham muitos paralelos entre os indicadores do Brasil há 20 anos e os indicadores que muitos deles têm hoje. É um exemplo muito estimulante para esses países. E, como o Brasil, outros países do Sul trazem experiências de sucesso. Então, ao mesmo tempo, o Brasil pode aprender e compartilhar das experiências. Como é o caso do programa Mais Médicos, baseado em outros programas nacionais, mas também em iniciativas vividas em Cuba e outros países.

Seria uma consequência dessas transformações no Brasil a maior presença de brasileiros em cargos estratégicos em agências da ONU, como é o caso dos diretores da OMC e da FAO?


É um reconhecimento do papel de liderança internacional do Brasil combinado aos méritos pessoais do senhor Graziano e do embaixador Azêvedo. Também não podemos nos esquecer do secretário-geral da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), Bráulio Dias, que é brasileiro. É também uma forma de reconhecimento das políticas públicas exitosas no Brasil. E é para nós uma grande honra ter tais lideranças brasileiras porque as políticas e o jeito de promover o desenvolvimento dos brasileiros também acabam entrando na cultura institucional da nossa organização.

O GDF tem apoiado a presença da ONU em Brasília?


Recebemos há 40 anos, por doação, o terreno em que está a nossa sede (A Casa da ONU, onde se encontra o Pnud no Brasil, no Setor de Embaixadas Norte). Depois de várias tentativas, construímos um prédio, que ficou pronto há dois anos. Agora, estamos começando a construção do segundo prédio para abrigar mais quatro agências. E temos interesse de que várias outras organizações e agências da ONU também venham a ter suas sedes nesse espaço. Para isso, pedimos para o Governo do Distrito Federal e o Itamaraty mais um terreno. Nosso intuito é criar um complexo de organismos internacionais na cidade. Também pretendemos criar o Parque das Nações. Nossa proposta tem sido bem recebida. Esse espaço será símbolo da parceria com essa cidade, que foi criada com uma vocação universal. Não me esqueço de que o grande arquiteto de Brasília também foi um dos arquitetos da nossa sede das Nações Unidas. Como um tributo a ele, também queremos criar um espaço da ONU em Brasília, que tem muitas embaixadas, mas poucos espaços públicos internacionais.

Quais características o Sr. destacaria nesse espaço?


Queremos que ele como o complexo todo, seja um tributo a grandes brasileiros, alguns dos quais morreram tentando tornar o mundo melhor. Este complexo em que estamos, por exemplo, é chamado Sérgio Vieira de Mello, grande homem. Há menos de um mês celebrávamos sua vida no aniversário de dez anos de sua morte. O prédio especificamente em que estamos, sede do Pnud, é chamado Zilda Arns, que morreu no Haiti tentando melhorar as condições de vida das crianças daquele país. A sala principal é a Luis Carlos Costa, que também morreu no terremoto do Haiti, um desses brasileiros não tão conhecidos, mas que começou como funcionário da ONU e chegou a ser um dos grandes líderes dentro da organização e morreu fazendo seu trabalho. E existe a sala de conferências chamada Zumbi dos Palmares, homenagem a um grande lutador pelo direito dos negros escravos. Há também a sala Maria da Penha, representante dos direitos das mulheres.

'Precisamos de uma nova visão compartilhada e de uma perspectiva global, senão o planeta não dará conta dos 9 bilhões que devemos ser nos próximos 20 anos' (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
"Precisamos de uma nova visão
compartilhada e de uma perspectiva
global, senão o planeta não dará
conta dos 9 bilhões que devemos ser
nos próximos 20 anos"
Como tem sido a experiência pessoal de viver em Brasília?


Brasília é uma joia arquitetônica reconhecida mundialmente e, todas as manhãs, quando olho a Esplanada (dos Ministérios) e os grandes monumentos, encontro uma cidade espetacular. Em termos de qualidade de vida, se você mora dentro do Plano Piloto, essa qualidade é ótima. Em termos de desenvolvimento urbanístico, a cidade ainda tem muito a melhorar, a integração da cidade central com as cidades-satélite, as cidades da periferia, pode melhorar muito. Mas morar em Brasília é muito agradável. Os brasilienses são pessoas muito abertas, hospitaleiras. Moro com a minha mulher, que é turca, e com meus dois filhos. Um tem 18 anos e o outro, 15. Todos eles gostam muito da cidade, dos brasilienses e dos brasileiros em geral.

Quais são as perspectivas e os caminhos da ONU na fase em que entrará agora, após 2015, ano final do trabalho dos Objetivos do Milênio?


Os grandes elementos dessa nova agenda foram articulados na Rio +20, um grande trunfo da diplomacia brasileira. Na Declaração do Milênio, estabelecemos os Objetivos do Milênio. A proposta pós-2015 é completar esses objetivos. Queremos não apenas reduzir, mas, sim, zerar a pobreza e a fome; reduzir radicalmente a mortalidade infantil e melhorar não só o acesso à educação, mas também a qualidade. Além disso, estamos propondo incluir objetivos de governança global e nacional, de respeito aos direitos humanos, às instituições democráticas, às liberdades individuais e de grupos e de redução da discriminação. Também é muito importante incorporarmos uma missão ambiental a esse desenvolvimento. Outro aspecto é que essa agenda precisa ser global, porque os objetivos originais estavam voltados aos países em desenvolvimento.

São objetivos bem completos, não?


Essa nova agenda precisa de comprometimento global ainda maior, sob o princípio de responsabilidades comuns, porém diferenciadas. É uma agenda complexa, bem difícil de ser atingida, mas não temos alternativa. Precisamos de uma nova visão compartilhada e de uma perspectiva global, senão o planeta não dará conta dos 9 bilhões que devemos ser nos próximos 20 anos.

Como avalia a participação do Brasil nos trabalhos de enfrentamento dos conflitos internacionais?


Reconhecemos o trabalho das tropas brasileiras em missões de paz e de observadores, como o batalhão brasileiro no Haiti e o comando brasileiro da força naval da operação do Líbano. O Brasil tem mostrado nos últimos anos esforço pelo multilateralismo, tem apresentado propostas construtivas para a solução de vários problemas internacionais. Também reconhecemos o que é dito por muitos líderes, da necessidade de mudar os sistemas de decisão das Nações Unidas para acomodar países emergentes, como o Brasil, a Índia e outros dentro dos sistemas globais de segurança.

A partir de sua experiência na América do Sul, acha que o Brasil também tem evoluído em sua relação com os vizinhos?


Somos um continente de paz e, por isso, nossas relações são muito importantes. O Brasil não entrou em guerra desde o fim da Guerra do Paraguai, em 1870, e o continente já tem resolvido praticamente todas as disputas territoriais. Agora, todos os países já estão concentrados, mesmo que em estágios diferentes, na integração e na melhora de vida das suas populações. Lembremos que agora é possível ir de carro a Lima, no Peru, porque temos as estradas de ligações interoceânicas. Há dez anos, isso era muito difícil. Em alguns anos, será possível cruzar o continente em muitas direções. É fantástico.

Como se sente sendo um argentino no Brasil? Sofreu com alguma rivalidade?


Só no futebol (risos). Mas, em geral, os brasileiros têm me recebido com muita generosidade, muita abertura. Sinto-me como um irmão não apenas no sentido figurado. Fico muito orgulhoso de ver a evolução do país. Conheci o Brasil pela primeira vez como turista, há 25 anos. E o que vejo hoje é outro país, muito diferente e melhor. Um país que antes era uma ditadura militar, hoje é democrático. Que antes tinha muita, muita miséria e agora tem como prioridade eliminar a miséria – e está perto disso. Era um país da geografia da fome, como disse Josué de Castro, mas virou a nação da Fome Zero. Estou muito orgulhoso de trabalhar aqui numa época tão especial da história do país.

Como a ONU participará dos grandes eventos internacionais que serão realizados no Brasil, a Copa do Mundo em 2014 e as Olimpíadas do Rio de Janeiro em 2016?


Dentro da ONU temos muitas oportunidades de cooperação e parceria com o Brasil em temas de esporte e desenvolvimento. Para nós, os legados mais importantes não são os estádios ou o sucesso que acreditamos que a Copa vai ser, mas as muitas infraestruturas que ficarão para melhorar as condições de vida do povo e a criação de uma cultura de esporte e desenvolvimento. Em vários países, esses grandes eventos marcaram momentos de desenvolvimento: Tóquio, em sua primeira Olimpíada, em 1964; Barcelona, em 1992. Teve Londres ressurgindo das cinzas depois da Segunda Guerra Mundial. Todos esses jogos viraram momentos de projeção global, e confiamos que vai ser assim no Brasil, a confirmação de que o país chegou lá. E achamos que a hospitalidade brasileira fará com que os jogos sejam muito bem-sucedidos.

 

 (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Quem é

 

Jorge L. Chediek, 53 anos


Origem
Buenos Aires, Argentina


Formação

Bacharel em ciências políticas pela Universidade Católica da Argentina. Mestrado em relações internacionais e economia internacional pela Universidade de Georgetown, em Washington, Estados Unidos


Carreira
Em 1990, durante o mestrado nos Estados Unidos, foi selecionado para carreira na ONU. Atuou na Turquia e em operações humanitárias no norte do Iraque durante a primeira guerra do Golfo. Também trabalhou no escritório regional do Pnud em Nova York para a Europa Oriental, no final da guerra da Bósnia. Foi representante adjunto no Uruguai e em Cuba. Em seguida, atuou como chefe-residente na Nicarágua, no Peru. É coordenador-residente do Sistema Nações Unidas no Brasil e representante-residente do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) no Brasil desde abril de 2010

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017