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Tecnologia | Ciência »

A casa das emoções

Pesquisador e artista da Universidade de Brasília, Christus Nogueira projeta rede social que interliga residências por meio de paredes sensíveis que até "choram" se o morador está triste

Sérgio Maggio - Redação Publicação:15/10/2013 18:03Atualização:15/10/2013 18:46

A tese de doutorado de Christus Nogueira propõe uma rede social para moradias: sensores permitem ouvir algum som de outra parede conectada (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
A tese de doutorado de Christus Nogueira propõe uma rede social para moradias: sensores permitem ouvir algum som de outra parede conectada
 

Menino inventa é história. Mas essa parecia fantasiosa demais para as cabeças dos coleguinhas. Já pensou ficar diante de uma fantástica parede que, quando lambida, jorra chocolate derretido? Um dia, essa narrativa chegou a uma escola de Brasília e fez um fuzuê. Os contadores tinham voltado eufóricos de uma visita na casa de um amigo da mãe.

Os detalhes desse passeio deixavam todos de olhos arregalados. Se não bastasse essa loucura de escorrer a iguaria mais desejada do universo sobre os azulejos, os candidatos a Pinóquio da vez revelaram a existência de outra divisória de concreto, capaz de chorar se alguém estivesse triste. A possível lorota ganhou velocidade e bateu certeira aos ouvidos da diretora. Não houve jeito: era preciso chamar os responsáveis por esses pequenos ficcionistas. Quando se lembra desse episódio, o professor e artista plástico Christus Nogueira abre um semblante de menino. Diante dele está, em azulejo, circuitos eletrônicos e cimento, a “parede” que levou os pequenos visitantes ao delírio. Ela é tratada com status de obra de arte, tem nome e personalidade forte. Atende por Lambisgoia.

Lambisgoia, apesar dessa dimensão lúdica, é concreta e integra seis proposições poéticas da tese de doutorado defendida no Instituto de Artes da Universidade de Brasília (UnB). Foram idealizadas para formar uma rede social que utopicamente interligaria casas espalhadas pelo mundo e afetadas por uma relação estético-sensorial. “O modelo de interação vigente é feito por conteúdos audiovisuais. Queria propor outra forma de contato, que trouxesse uma experiência do toque, do gosto, do olfato, dos desejos”, conta o paraibano radicado em Brasília.


Alguém pode imaginar o que significaria ter uma “parede” que escorresse chocolate no meio da sala de estar? Essa ideia, perturbadora como convém ao campo da arte, abala o conceito de casa como um espaço imóvel, cujas divisórias de concreto criam espaços de uso com ações bem definidas para os viventes. O projeto de Christus quer exatamente demolir essa rigidez das moradias num século em que a tecnologia abala, a cada segundo, fortemente as noções de tempo e de espaço. “A casa, no molde em que conhecemos hoje, é um objeto em falência. Enquanto os sujeitos se tornam cada vez mais virtuais, as casas fazem o caminho oposto, edificando-se como um bruto e fechado imóvel”, expõe.

Assim nasceu a concepção da rede social Há_bit (at). Esse sistema é aparado por uma tecnologia de transmissão de dados que conectaria as casas, permitindo as interações com as seis interfaces sensíveis. Ou melhor, paredes-janelas, como conceitua o autor, por tornarem a casa porosa, aberta, como uma membrana que deixa visível o que vem de fora. Assim, os habitantes viram há_bit(antes), capazes de interagir por meio desse conjunto de sensações.

“Para executar esse projeto, precisei conhecer campos da tecnologia e da engenharia que não dominava. Fui estudar outras áreas”, revela Christus, que se formou em design gráfico, migrou para arte e hoje está numa zona de criação transdisciplinar. Além dos tradicionais tijolo, cimento e azulejo, as paredes-janelas de Christus tiveram de ser erguidas com materiais como silício (matéria-prima fundamental para os microprocessadores), óxido de índio-estanho (composto que cria interface sensível ao toque), diodo orgânico emissor de luz e algoritmos dos computadores. Cada obra foi feita manualmente durante os quatro anos de pesquisa. Como um pedreiro, Christus levantou uma por uma, mesclou tecnologias hards (duras) e softs (moles) ao exercício artesanal de um mestre de obras. Assim, pacientemente, viu sair da cabeça e do papel as poéticas delirantes. “Não sabia que era tão difícil, por exemplo, provocar uma infiltração numa parede”, brinca, referindo-se à obra Drywall, que “chora”, quando detecta alguém de fisionomia triste numa das casas.

 

Já imaginou uma parede em que escorre chocolate? Sensor  acionado por uma lambida  encarrega-se de acionar bomba que  libera o produto (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Já imaginou uma parede em
que escorre chocolate? Sensor
acionado por uma lambida
encarrega-se de acionar bomba que
libera o produto
As paredes-janelas

 

Na prática, Christus Nogueira executou cinco das seis paredes-janelas e demonstrou a convidados, incluindo a banca do doutorado, em sua casa. Como autofinanciou o projeto, não teve condições de fazer Iguaria, que necessitava de maior aporte financeiro. Concebeu a todas como obras artísticas e, nesse momento, está aberto à aplicação desse sistema na vida cotidiana, caso algum investidor deseje. A obtenção de uma placa eletrônica, batizada de Arduíno, da Itália, permitiu que ele programasse os dados para personificar cada parede-janela.

 

ARACATI
Inspiração: o nome é dado ao vento que vem do mar e refresca o sertão paraibano
Como funciona: numa superfície, há um sensor a ser soprado.
A intensidade desse sopro é medida e enviada para todas as casas conectadas, acionando pequenos ventiladores presos às paredes--janelas. Quanto mais forte for o sopro, maior a energia gerada

DEDUÇÃO
Inspiração: o tato, o mais cerceado dos sentidos
Como funciona: num orifício da parede-janela, introduz-se o dedo indicador. À medida que esse membro se movimenta, dedos artificiais, afixados na superfície, seguem a mesma coreografia

DIZFILE
Inspiração: o velho conceito de privacidade
Como funciona: um sistema instalado na parede-janela detecta os sons de todas as casas conectadas. Quando um há bit(ante) pega um copo e encosta na superfície,
o sistema seleciona aleatoriamente um deles e o torna audível


DRYWALL
Inspiração: o conceito de viver em matilha está sujeito a diversas afetações
Como funciona: algumas webcâmeras com sensores especiais são capazes de detectar o estado emocional dos há_bit(antes). Se for configurado alguém de padrão triste, mandam um sinal e acionam sensores de umidades nas paredes-janelas que começam a infiltrar água. Se alguém enxuga a poça formada, um sensor aciona uma luz azul indicando que as pessoas estão afetadas e solidárias

IGUARIA
Inspiração: a antropofagia
Como funciona: uma mesa é afixada em frente à parede-janela onde webcâmeras captam a imagem do jantar, transmitindo e criando uma simultaneidade nesse ato de comer

LAMBISGOIA
Inspiração: O ato de lamber e ser lambido

Como funciona: Um sensor de umidade detecta a intensidade da lambida de um há-bit(ante) e envia sinal que aciona uma bombas, cujo fluxo a ser jorrado é de chocolate

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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017