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Time to learn

Qual a melhor fase para se aprender um novo idioma, sem que haja prejuízos para o desenvolvimento cognitivo das crianças? Especialistas- e pais - ouvidos por Encontro Brasília dão suas opiniões sobre o tema

Jéssica Germano - Redação Publicação:22/10/2013 19:03Atualização:22/10/2013 19:12
Ivana Gomes, diretora do Colégio Internacional Everest, com os alunos Sofia e Davi, de 3 e 5 anos: surpresa com a facilidade na pronúncia (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
Ivana Gomes, diretora do Colégio Internacional Everest, com os alunos Sofia e Davi, de 3 e 5 anos: surpresa com a facilidade na pronúncia

O bê-á-bá começa a se formar logo cedo. Dos primeiros sons associados a figuras cotidianas às referências a papai e mamãe. Com a informática e os smartphones a todo vapor, o vocabulário vem ainda mais rápido e, em conjunto à preocupação cada vez maior com as formações social e acadêmica, eis que surge a questão: qual é a melhor idade para se iniciar a aprendizagem de uma língua estrangeira?


Citando o período infantil, em que o cérebro funciona como uma biblioteca a céu aberto, capaz de assimilar milhares e milhares de informações, médicos e professores enxergam a facilidade e a rapidez dos pequeninos como vantagem e apontam os primeiros anos como decisivos para a fluência. Mas é preciso atenção. Solidez no idioma nativo, suporte dos pais e contextualização entram na lista dos cuidados para que uma cognição (o ato de adquirir um conhecimento) não atrapalhe outras áreas.


Parece historinha da cegonha, só que mais recheada. O bebê se forma, nasce e começa a guardar o que vê, ouve e sente. A princípio, tudo fica alojado em uma caixinha de memória de curto prazo. Com o tempo – e certa maturidade do cérebro –, um arquivamento é iniciado e, então, o que foi aprendido se sustenta para a vida na lembrança do indivíduo. Pode parecer simples, mas falar em precisão de desenvolvimento ainda é difícil, especialmente porque há diferença de uma pessoa para outra.


O neuropediatra Carlos Aucélio, chefe do departamento da neuropediatria do Hospital Universitário de Brasília, é um dos especialistas que ponderam o fluxo e armazenamento de dados, como os que envolvem uma língua estrangeira. Segundo ele, apesar de ser possível apontar um período mais propício para o aprendizado, não é seguro se apegar a uma idade específica. “O que sabemos é que algumas funções têm de estar muito bem definidas para que uma segunda língua possa ser introduzida para uma criança”, pontua. Nesse contexto, dois pilares, em específico, precisam ser considerados ao iniciar o ensino de um novo vocabulário e oratória: o bom domínio da língua mãe e uma alfabetização já em curso.


De acordo com o especialista, esses itens serão fundamentais para que a criança não venha, futuramente, a confundir os idiomas em curso ou até mesmo ter sequelas de aprendizado comuns nesses casos, como a dislexia. Levando em conta essas premissas, é possível chegar a uma idade média de 4,5 anos junto a bons indícios de sucesso. Assim, fica possível afirmar: quem começa a aprender mais cedo tem maior facilidade. E a explicação, segundo o médico, é simples. “Tudo isso tem relação com o poder de memorização. E o potencial de memorização da criança é muito maior e melhor do que o de um adulto”, assegura Carlos Aucélio.


Com uma rotina diária de convivência com crianças a partir dos 4 anos, o coordenador pedagógico da escola de idiomas Wizard, Diogo Mourão, é rápido na justificativa para a fácil desenvoltura dos mais novos quando se trata, especialmente, do inglês e do espanhol. “As crianças não têm vícios de linguagem. Nem o cérebro nem os movimentos fonéticos delas estão programados para um idioma só”, explica. Responsável pela metodologia em curso da escola no Sudoeste, ele enxerga uma facilidade de aprendizado ainda maior nos nascidos na última década. “Hoje todos os vocabulários estrangeiros estão muito comuns na vida deles: na televisão, na internet, nos jogos...”, diz.


Para os irmãos Erika e Felipe Canedo a iniciação de um segundo idioma aos 8 e 7 anos, respectivamente, permitiu que ainda no início da adolescência alcançassem a fluência. Aos 14 anos, durante férias com a família em Nova Iorque, a irmã mais velha pode ver a evolução que tinha traçado por meio de um curso particular na língua norte-americana, muito à frente do conteúdo ministrado no colégio e dos colegas de classe. “Eu compreendia tudo, via peças. Meus pais já pediam para eu me comunicar com as pessoas e eles já não falavam mais nada”, lembra.


Hoje, aos 18 anos, com um certificado reconhecido pela Universidade de Cambridge e se aventurando pelos primeiros estágios do francês, Erika consegue traçar um comparativo sobre o estudo estrangeiro em idades diferentes. “Com certeza é muito mais fácil quando criança. Eu vejo por mim. Mais tarde você se sente meio atrasada, tendo que começar do início, aprendendo números, verbos básicos”, equipara. Para Felipe, que aos 15 anos se prepara para as provas de fluência e está prestes a se formar na língua inglesa, a experiência precoce serviu, inclusive, para embasar a escolha da carreira profissional. “Eu quero fazer medicina na Alemanha e o inglês ajuda bastante no aprendizado do alemão”, destaca.


O aspecto lúdico, nesse contexto, entra em cena com destaque particular no ensino das crianças, como apontam importantes estudos na área. Entendendo essa ponte e inspirado na metodologia sociointeracionista do pesquisador Lev Vigotsky, que aposta nos espaços para brincar como principal local de desenvolvimento para elas, o colégio Seriös estruturou um método elaborado, mesclando aulas como circo, marcenaria e gastronomia a componentes curriculares exigidas pelo Ministério da Educação. A instituição investe no inglês nos mesmos moldes do processo nativo – primeiro oralidade e depois gramática – e, surpreendentemente, na tendência mundial do mandarim. “O espanhol é interessante, obrigatório no ensino médio, mas a gente queria que eles entendessem um pouco também o que era essa potência China”, explica a diretora Andréa Bichara.


O idioma, conhecido pela abrangência dos seus mais de 20 mil sinogramas, começa a ser ministrado a partir dos 6 anos, idade mais dotada da habilidade para o desenho. Antes, entretanto, a partir do maternal, o inglês já é inserido na grade das crianças. A diretora, porém, pondera: “Nesses primeiros anos nós não temos nenhuma formalização da língua estrangeira. O ensino acontece de forma muito lúdica, por meio de desenhos, dramatizações, cumprimentos, cores, pequenas palavras”.


Os pais aprovam. “É completamente diferente. Essa maneira de colocar as crianças para representar um bicho, um inseto, é mais fácil de aprender do que estar no quadro escrevendo ou ensinando a decorar, como era na nossa época”, compara a servidora pública Fabiene Lima, mãe de Lucas, de 6 anos. Na casa da diretora de vendas Ana Carolina Oliveira, os reflexos das aulas de inglês dos filhos chegam até o cotidiano da família. “Ele chega cantando as músicas, falando um monte de coisa.

 

Quando vai ver filme, já pede para colocar sem legenda”, conta empolgada sobre a desenvoltura do filho mais novo, Lucas, de 5 anos. Ao contrário de João Pedro (o mais velho, hoje com 9), já familiar com o inglês desde os 3 anos, o primogênito nunca havia tido contato com a língua até um ano e meio atrás. “Acaba sendo natural como o aprendizado de todas as outras coisas: português, matemática, a fazer contas”, exemplifica.


E a adesão à tendência na capital parece só evoluir. Com menos de um ano de atuação em Brasília, o Colégio Internacional Everest (que aposta na proposta do bilinguismo, com valores voltados para a cultura brasileira) reflete a procura cada vez maior por parte dos pais em relação a um ensino amplo. Com 60 anos de experiência e sede em 18 países, a instituição prega a formação, do ensino infantil ao médio, com base em pilares intelectuais, humanos, sociais e espirituais. Esse último relacionado à doutrina do catolicismo, ministrado, entre outros momentos, durante a oração do Pai Nosso em inglês. No colégio, o idioma norte-americano é inserido a partir do infantil 2, com crianças a partir de 2 anos, e segue, até o 4, como principal língua da grade curricular, com apenas 20% das aulas em português.“O bilinguismo é como uma parede no cérebro. Quando a criança consegue transpor essa barreira, ela não tem mais dificuldade em solucionar nenhum tipo de problema”, acredita Ivana Gomes, diretora do colégio, expondo a teoria que a instituição segue.


Os filhos da analista de sistemas Adriana Seidel, Sofia e Davi, de 3 e 5 anos, estão no Everest: “Nós procurávamos uma escola que desse continuidade à formação que damos em casa”, explica. Segundo a mãe, as crianças evoluíram muito no aprendizado em relação ao ano passado e Davi fica ansioso para a aula, esperando os horários de matemática, ciências, todas ministradas em inglês. Ela observa, orgulhosa: “Nós nos surpreendemos com a pronúncia que ele já tem com só 5 aninhos”.


As vantagens da habilidade construída ainda na infância são inúmeras e inegáveis nas mais diversas áreas. Para a professora de disciplinas em língua inglesa da Escola Americana de Brasília, Tereza Barbosa, a experiência de ser bilíngue aos 4 anos de idade, quando teve de se mudar para os Estados Unidos com os pais, teve impacto direto nas concepções de espaço, trabalho e conhecimento que tem hoje. “É um investimento de vida. Você abre suas escolhas e cria uma flexibilidade maior com tudo”, observa.


Também docente na escola internacional que tem como base a imersão na cultura americana, com 90% da carga horária dos alunos sendo ministrada em inglês, Denise Bussinguer concorda com a colega e vai além: “O mundo está ficando maior para a interação de culturas, então esse domínio vai dar à pessoa, desde cedo, uma visão global e, por consequência, criar um respeito dela por outras culturas”. A professora, todavia, destaca a importância do suporte familiar nessa aquisição. “O segundo idioma tem de ser aditivo à língua mãe, e não subtraído”, conclui Denise.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017