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CULTURA | ARTES PLÁSTICAS »

A alquimia de uma paisagem

Um mergulho na obra do artista plástico Luiz Gallina, que retira do cerrado e dos sonhos um farto material de pesquisas, de vivências e de arte

Severino Francisco - Publicação:29/10/2013 17:28Atualização:29/10/2013 18:21

Luiz Gallina chegou a Brasília nos anos 1970: 'As coisas do cerrado não são belas, mas são sensacionais, incomuns, surpreendentes' (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Luiz Gallina chegou a Brasília nos
anos 1970: "As coisas do cerrado não
são belas, mas são sensacionais,
incomuns, surpreendentes"
“Nem tudo que é torto é errado/Veja as pernas do Garrincha e as árvores do cerrado.” Os versos do poeta Nicolas Behr são uma referência e uma senha para o artista plástico paulista/brasiliense Luiz Gallina. A trajetória de sua arte está intimamente ligada à interação com o cerrado e com o mundo dos sonhos. Em um primeiro momento, em meados da década de 1970, ele ficou fascinado com a paisagem e registrou em xilogravuras a beleza torta, crispada, dramática e expressionista da vegetação do Planalto Central. No entanto, em seguida, na década de 1980, passou a morar em um sítio inóspito, entrou na paisagem, acompanhou a mutação de peles das árvores, sentiu de perto as palpitações do ambiente e começou a entender que o cerrado é arte contemporânea e teatro da vida e da morte, de Eros e Thanatos.


Essas vivências resultaram nas seguintes fases de sua arte: As Paisagens Brasilienses (em xilogravuras), Cascas e Carcaças (em pintura), Assemblages (colagem de desenhos, objetos e vestígios da flora e da fauna do cerrado) e a Tábua Esmeralda de Hermes Trimegistos (em que o universo simbólico da alquimia é frequentado por animais cerratenses).


Gallina sempre sonhou muito, chegou a anotar mais de 400 sonhos. Mas, no início, a dimensão onírica ainda não entrava em seu trabalho. Quando tinha 16 anos, inscreveu um desenho em um salão de artes de São Paulo. No júri, estava o artista plástico iconoclasta Flávio de Carvalho, que vislumbrou algum talento no garoto e selecionou o trabalho para a exposição do evento: “Vamos dar uma chance a ele”. Em 1969, Gallina chegou, pela primeira vez, a Brasília e tomou um choque de silêncio, de espacialidade e de natureza. Tudo levava a um mergulho interior: “Brasília é um espaço aberto, é uma calota celeste, você fica com medo de que o céu caia em sua cabeça. Brasília parecia uma cidade para se passar as férias naquele tempo. As pessoas paravam nas ruas e ofereciam carona sem você pedir” .


Na série sobre a Tábua Esmeralda de Hermes Trimegistos, Gallina sintetizou múltiplas técnicas e incorporou os animais do cerrado como símbolos: a fênix vermelha é uma seriema (Arquivo pessoal)
Na série sobre a Tábua Esmeralda de Hermes
Trimegistos, Gallina sintetizou múltiplas
técnicas e incorporou os animais do cerrado
como símbolos: a fênix vermelha
é uma seriema
Bem que Gallina tentou voltar a ser paulistano, no entanto, Brasília já lhe tinha inoculado o que chama de “desejo-natureza” e ele retornou ao Planalto Central em 1977. Neto de professor de desenho, estudou publicidade, exerceu o ofício por um tempo, mas começou a se embrenhar pelo cerrado, montado em uma bicicleta, armado de lápis, tinta para aquarelas e máquina fotográfica.


Registrava as imagens das árvores descabeladas e as transformava em gravuras, explorando o jogo de luz e sombra e acentuando a carga dramática da região. Era uma outra beleza crispada completamente diversa da inscrita nas cidades que ostentam paisagens de cartão-postal. Batizou essa série, elaborada entre 1978 e 1983, de Paisagens Brasilienses, que incluía a vegetação e cenas da cidade. Os trabalhos chamaram a atenção do artista plástico Athos Bulcão e do designer pernambucano Aloísio Magalhães, à época, diretor do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que se tornaram colecionadores. “Eu passava o dia inteiro no meio do mato ou das cachoeiras, anotando, desenhando. Na época, o Lago Sul era longe, era preciso dar uma volta grande, não havia tantas pontes.”


O “desejo-natureza” impulsionou Gallina a comprar uma chácara em uma área do cerrado mais bravo e a se mudar para lá. Imaginava que abriria a janela e pintaria quadros vivos. No entanto, insolitamente, essa mudança teve um impacto em sua obra e ele se desinteressou das paisagens. A sua arte abandonou a linguagem da gravura e, sob a dupla influência do artista norte-americano Robert Rauschenberg e do brasileiro Wesley Duke Lee, assumiu a forma da assemblage, composição artística muito mais livre, que realiza uma colagem das linguagens tradicionais (pintura, desenho, gravura, aquarela) com objetos cotidianos deslocados do seu contexto original. Gallina incorporou em seu trabalho carcaças desidratadas de lagartixas, cobras, galhos retorcidos, pedras pontiagudas, resíduos de ossos de animais e aves: “A beleza do cerrado não é de belas artes”, comenta. “É uma beleza torta e tortuosa, é arte contemporânea. As coisas do cerrado não são belas, mas são sensacionais, incomuns, surpreendentes. Você só apreende a beleza neste território pela vivência.”


Aqui, o cerrado é trabalhado na forma de assemblage: composição artística livre, em que se realiza uma colagem das linguagens tradicionais (Arquivo pessoal)
Aqui, o cerrado é trabalhado na
forma de assemblage: composição artística
livre, em que se realiza uma colagem
das linguagens tradicionais
Gallina compôs também uma série de objetos como um desdobramento das assemblages. Estava caminhando pelo quintal de sua casa quando se deparou com algo estranho no chão coberto de folhas: era o crânio de uma coruja regurgitado por uma cobra, que não conseguiu digerir inteiramente a ave. Criou uma caixinha na forma de estojo de joia com crânio de coruja e bússola, que batizou de “Presente”. A morte está sugerida pelo veludo preto. O crânio parece enterrado. “A primeira reação foi de nojo, mas, em seguida, percebi a perfeição do crânio da coruja e seus ossos finíssimos. A morte é algo muito natural na natureza. Não é morbidez. Para viver plenamente a vida, é preciso fazer a experiência da morte.”


Ele produz os objetos em um ritmo muito lento e não faz nenhuma questão de vendê-los. Só vendeu um e confere tanto valor que pretende comprá-lo novamente. Coleciona, cuidadosamente, carcaças de folhas, de plantas e de animais do cerrado em caixinhas. Ele mostra o esqueleto desidratado de uma lagartixa morta e uma flor branca com penugens extremamente delicadas, que evoca uma vulva, como possíveis elementos de um próximo trabalho: “Eros e Thanatos estão em cena o tempo todo no cerrado e em toda a natureza”.


 (Arquivo pessoal)
A exploração do cerrado continuou em uma série de pinturas intituladas Cascas e Carcaças, composta especialmente para participar de exposição coletiva no Museu da Arte Moderna do São Paulo, em 1990, quando dividiu o espaço com Athos Bulcão, Rubem Valentim, Elder Rocha Filho, Nelson Maravalhas e Galeno. Nesse trabalho, ele usava a película das árvores como se fosse uma pele humana, carregada das marcas do tempo: “As cascas das árvores do cerrado são singulares. Por cima, as cascas estão queimadas. Por baixo, permanecem vivas.”

A exploração do cerrado continuou em uma série de pinturas intituladas Cascas 
e Carcaças: o calango, um dos símbolos desse ecossistema (Arquivo pessoal)
A exploração do cerrado continuou em uma série de pinturas intituladas Cascas e Carcaças: o calango, um dos símbolos desse ecossistema

Gallina fez mestrado no Departamento de Artes da UnB para entender melhor o seu processo de criação, o significado dos sonhos e o universo dos símbolos. Foi aprovado como professor de escultura, mas assumiu também o ateliê de xilogravura. O repertório de estudos o levou a conceber um livro de gravuras, em formato grande, a partir da Tábua de Esmeralda: “Começou com um sonho sobre o fogo, fiz uma gravura, no entanto, não me contentava. O fogo é o que faz tudo se movimentar”.


Obra da série de trabalhos Paisagens Brasilienses: exploração do jogo de luz e sombra e de cenas da região (Arquivo pessoal)
Obra da série de trabalhos Paisagens
Brasilienses: exploração do jogo de luz e
sombra e de cenas da região
A partir do livro, Gallina realizou uma série de gravuras que representam as fases da alquimia, segundo a Tábua Esmeralda de Hermes Trimegisto: Nigredo (obra negra, a dissolução e putrefação da matéria), Albedo (obra branca, a purificação da matéria pela substância líquida) e Rubedo (obra vermelha, fase em que se fabrica a pedra filosofal). Nos trabalhos dessa última safra, Gallina sintetizou múltiplas técnicas (desenho, gravura, carvão, fotografia e colagem) e símbolos.


O interessante é que no contexto universal dos símbolos alquímicos ele inseriu elementos regionais do Planalto Central. A Fênix vermelha de Gallina é uma seriema. A águia não plana nas alturas, mas está na linha do olho: “É porque moro próximo a uma encosta e não vejo as águias voando no firmamento, e sim na linha do olho. Não é a gente que escolhe a alquimia; é a alquimia que escolhe a gente. Para mim, a conexão da alquimia com Brasília é muito forte. Esse céu aberto nos joga para um mergulho interior, para uma reflexão sobre o sentido da vida e do mundo. A alquimia é um estudo sobre a significação das coisas.”


O que é preciso para conhecer o cerrado? É necessário se debruçar sobre ele, responde Gallina. “Você precisa se abaixar”, diz. “Se ficar de pé, não percebe que ele está florido. Se você se ajoelha, vê tantas flores lindas, cada uma com um desenho, com um matiz ou com um filamento diferente.”
Gallina vê ainda mais: “A consequência do lago foi que a fauna aumentou muito. Era comum vermos pardal antigamente. Hoje, vemos muito mais bem-te-vi, sabiá, alma-de-gato, que tem um rabo de 30 centímetros. Eu e meu filho fotografamos e eu o incentivo para que seja um pesquisador. O cerrado é muito forte. O segredo para entender o cerrado é a paciência”.

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017