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Negócios | Relacionamento »

Quase família

Em sólidas empresas brasilienses, o segredo do sucesso não envolve apenas a satisfação da clientela e o lucro. Os vínculos estreitos entre patrões e empregados fazem a diferença

Jéssica Germano - Redação Publicação:01/11/2013 16:33Atualização:01/11/2013 17:00

Ivone Vieira, com Raíssa Araújo, do Espaço Maria Tereza: o bolo da Ivone tem história na casa  (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
Ivone Vieira, com Raíssa Araújo, do Espaço Maria Tereza: o bolo da Ivone tem história na casa
 

O convívio não é de dois, seis, 12 meses. O relacionamento também não soma só pontos positivos, mas os desafios serviram para solidificar uma história duradoura. Por trás de negócios já consolidados da capital, há o exemplo de funcionários que são referência para os demais. Passada uma década ou mais de colaboração, eles dividem momentos familiares com os seus chefes e transmitem o cuidado e o carinho pelos lugares onde trabalham.


Uma dessas histórias começa com uma vinda do Rio de Janeiro e uma vaga de babá. Quando Ivone Vieira, hoje com 66 anos, chegou a Brasília, a ideia era trabalhar em uma casa de família. O que ela e o casal de patrões, pais de quatro filhos, não esperavam é que a relação, que já dura 29 anos, se transformaria em um laço tão forte. “Ela é nossa segunda mãe”, garante Raíssa Araújo, uma das irmãs que recebeu – e garante que continua a receber – os cuidados da ex-funcionária. “Minha mãe até brinca: ‘A Ivone mima demais os meninos’”, conta, sem conseguir disfarçar o carinho no sorriso. O convívio se estreitou tanto que a aposentadoria chegou e a ex-babá continuou com a família. Aliás, na família. Mesmo depois de encerrados os vínculos empregatícios, ela permaneceu na casa em que desenvolveu sua carreira profissional, além de ter recebido o título de “vovó Ivone”, pela segunda geração que viu nascer na família da designer de interiores Maria Tereza.

Os donos do La Bocca, Danila e Eduardo, com o funcionário Jarmale: crescimento veio acompanhado de estudo (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Os donos do La Bocca, Danila e Eduardo, com o funcionário Jarmale: crescimento veio acompanhado de estudo

A relação acabou se estendendo para a empresa da família, o Espaço Maria Tereza, na QI 5 do Lago Sul, comandado por Raíssa e pelo irmão, Leonardo. Eles fazem questão de criar um vínculo de união com os funcionários. E o retorno é garantido: “A gente se dedica mais”, reconhece Ivone, que transformou uma receita da família de Raíssa em um dos cases de sucesso do Café das Cinco, que funciona no Espaço Maria Tereza. O bolo da Ivone, que mistura coco, achocolatado em pó e não leva farinha, presente na lista de sobremesas, rendeu fama à ex-babá, que agora presta serviço na casa. A equação que soma espaço para crescer e estímulo aos empregados tem resultado certo, segundo a proprietária: “Fideliza o funcionário e cria um retorno, porque eles ficam muito gratos e passam a confiar na empresa”.


No La Bocca, há 19 anos, o lema que rege a parceria entre empregados e empregadores é dar oportunidade, acompanhar o trabalho de perto e participar do desenvolvimento das funções. Os itens são apontados por Danila Levoni, empresária que, ao lado do marido, é responsável também pelos negócios da franquia do Amor aos Pedaços, no Park Shopping. Com um quadro de funcionários formado, em grande parte, por pessoas que acompanham o crescimento do restaurante desde o início, em 1994, a proprietária destaca o ponto de partida: “O básico é você acreditar neles”.

Fidelidade na  Pioneira da Borracha:: os funcionários Francisco Fontenele, Valdimir da Rocha e Elizete França não trocam o emprego por nada (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
Fidelidade na Pioneira da Borracha:: os funcionários Francisco Fontenele, Valdimir da Rocha e Elizete França não trocam o emprego por nada

As vantagens de ter empregados há tanto tempo, segundo Eduardo Moura, marido e sócio de Danila, aparecem nitidamente na logística e no funcionamento dos negócios. “Eles já sabem como funciona, conhecem a espinha dorsal da coisa.” Com 16 anos de casa, Jarmale Barros sabe que avançou de cargo pelo estímulo dos patrões. Contratado no início como ajudante de cozinha, lavando pratos, o agora garçom ouviu os conselhos do casal e buscou formação educacional. Sem a alfabetização adquirida, o atual cargo jamais seria possível. “Tudo o que eu consegui foi nesse tempo aqui”, reconhece. Para a empresária, além de compreensão e paciência para esperar a evolução desses funcionários, promover um bom ambiente de trabalho é o que fecha toda a conta. “Ninguém fica em um lugar 20 anos se não está se sentindo bem”, lembra.


Na Pioneira da Borracha, há quase 55 anos, impera a simplicidade de poder procurar o chefe a qualquer momento. Cumprimentar todos os dias os funcionários no início do expediente é hábito de Eli Walter Couto. “Não parece nem que ele é o dono da loja. É como qualquer outro funcionário”, garante Valdimir da Rocha, auxiliar financeiro na casa há 20 anos. Além do tratamento próximo, a disponibilidade, de ambas as partes, aparece na base que sustenta o sucesso da empresa. “Assim como ele recorre a nós, também procuramos por ele.” A explicação é de Francisco Fontenele, atual gerente da loja matriz, na 511 Sul. Ao todo, o “funcionário de confiança”, como o comerciante o define, já soma 27 anos de Pioneira. Motivo de orgulho para o chefe toda vez que alguém de fora o visita na loja.

Celma é hoje gerente da Avanzzo: o dono, André Naegele, acredita que o crescimento da empresa depende dos bons laços com os funcionários (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
Celma é hoje gerente da Avanzzo: o dono, André Naegele, acredita que o crescimento da empresa depende dos bons laços com os funcionários

Comunicativo e ativo no trabalho, com 88 anos a serem completados em dezembro, Eli evita ao máximo as demissões. “Não quero mandar embora, deixar a pessoa desempregada e eu ter de arranjar outro. Quando está errado, eu procuro orientar”, conta, lembrando o retorno que essa atitude traz. “Tem cliente que vem aqui só para comprar na mão de determinado empregado.”


A expressão de vestir a camisa da empresa veio em sentido literal e figurado há 18 anos para Celma Fonseca. Atual gerente da marca de roupas brasiliense Avanzzo, na loja do Brasília Shopping, ela decidiu se dedicar integralmente à empresa que a acolheu quando veio do interior de Minas Gerais. O empenho transparece no dia a dia. Celma assume que não tem horário para ir embora. Para André Naegele, dono da loja ao lado da esposa, Daniella, os 24 anos bem-sucedidos da Avanzzo são reflexo dos vínculos profissionais consolidados. “Isso humaniza as relações, gera confiança e a certeza de podermos contar sempre um com o outro”, acredita.


O empresário destaca que o mérito de construir uma carreira sólida e crescer em uma empresa depende muito mais do empregado do que do empregador. “As conquistas da Celma não aconteceram da noite para o dia”, lembra. “Houve muita determinação, evolução constante, prazer no que faz, prudência financeira e admiração mútua.” Para a ex-vendedora e atual funcionária modelo, seu empenho tem troco: “Quando a gente precisa, eu sei que tem um retorno”.

O Grupo Ferreira se solidificou com leais funcionários: para o diretor Mauro Calixhman e o funcionário Geraldo, esse é o maior legado de Jorge Ferreira (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
O Grupo Ferreira se solidificou com leais funcionários: para o diretor Mauro Calixhman e o funcionário Geraldo, esse é o maior legado de Jorge Ferreira

“O Feitiço tem 24 anos e o Geraldinho está aqui há 25.” A conta que não fecha começou quando o atual chef de cozinha da mais emblemática casa do Grupo Ferreira chegou do interior mineiro para ajudar a terminar o bar-restaurante da 306 norte. Depois de meio século de trabalho, Geraldo Rocha – apelidado pelo nome no diminutivo por Jorge Ferreira – não titubeia ao direcionar toda a responsabilidade de anos de sucesso nas parcerias trabalhistas ao antigo chefe. “De patrão, ele se tornou um pai”, conta. De ajudante de pedreiro, o funcionário ganhou o cargo de garçom até receber a proposta de chefiar as receitas da casa. A evolução, mais uma vez, é citada como estímulo de Jorge. “Ele sempre nos incentivava. Nunca deixava ficarmos para trás”, lembra com uma saudade ainda difícil de mensurar, após três meses do falecimento do patrão.


O jeito de Jorge, que acompanhava tudo tão de perto, é lembrado a todo tempo como os pontos marcantes do fundador do Feitiço Mineiro. “Ele não podia ver ninguém com problema que queria ajudar”, lembra Mauro Calixhman, diretor-geral do Grupo Ferreira e ainda hoje estupefato com a grandeza do amigo pessoal, com quem pôde trabalhar, diariamente, nos últimos 10 anos. Tal característica virou receita certa para o sucesso do Grupo Ferreira, que congrega 12 casas. “O que fica é o conceito do que ele era.” Para um dos maiores orgulhos do Grupo, Geraldo, a lição mais importante foi aprendida: “Nós formamos uma família. E não deixa de ser”.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017