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Cultura | Tradição »

Folclore nascido no cerrado

Para quem concebe cultura popular somente com tradição histórica, três grupos de Brasília mostram que na capital também se "inventam" diversificados tipos de manifestações

Rodrigo Craveiro - Redação Publicação:12/11/2013 14:51Atualização:12/11/2013 15:09

'A cultura popular se produz no meio do povo', explica o compositor, arranjador, violeiro e vocalista do Mambembricate, Chico Nogueira (de azul) ( Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
"A cultura popular se produz no
meio do povo", explica o compositor,
arranjador, violeiro e vocalista do
Mambembricate, Chico Nogueira (de azul)
Em um terreiro situado na 813 Sul, o mito do calango voador se faz presente e reveste um dos grupos de cultura popular mais respeitados do Distrito Federal. Criado em 2004 e oriundo de Pernambuco, o Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro implantou, na capital federal, uma nova tradição, marcada pelo ritmo inédito do samba pisado. “Nossa intenção era criar uma brincadeira e ter Brasília como ponto de partida para esse sonho”, conta Tico Magalhães, capitão do grupo.


A inspiração surgiu da descoberta do cerrado, com o céu azul, a cachoeira e as matas. Hoje, o grupo, que conta com 15 integrantes, arrasta uma média de 35 mil pessoas durante o Festival de Cultura Popular, que acontece geralmente nos segundos semestres, desde 2005, em Brasília. O próximo está agendado para o fim deste mês, durante sete dias, mas até o fechamento desta edição a programação não havia sido divulgada.


A “brincadeira” cresceu tanto que ganhou a Orquestra Alada Trovão da Mata, composta por 30 pessoas, e inaugurou este ano o Centro Tradicional de Invenção Cultural, que oferece várias oficinas gratuitas à comunidade, incluindo danças populares, batuque, teatro de terreiro, figurino, comunicação, elaboração e captação de projetos voltados para a cultura popular.

O grupo Cultura Pé de Cerrado foi criado para pesquisar os ritmos, as danças, as brincadeiras, o figurino, a religiosidade da cultura popular brasileira: representantes do Brasil e de sua diversidade ( Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
O grupo Cultura Pé de Cerrado foi criado para pesquisar os ritmos, as danças, as brincadeiras, o figurino, a religiosidade da cultura popular brasileira: representantes do Brasil e de sua diversidade

Diferentemente da tese difundida por antropólogos, segundo a qual a cultura popular está ligada a um resgate histórico, Tico Magalhães tem outra percepção. “Ela se associa muito à invenção. Assim como a criação de Brasília, inventamos a nossa cultura popular”, explica.


“Ela é popular porque está dentro de cada um de nós. Temos como ponto de partida a nossa capital. Temos obrigação com o futuro, com a criação de nossas tradições.”


Foi também no cerrado que o Mambembricate buscou inspiração. Há 13 anos em atividade, o “grupo brincante itinerante” tem a proposta de fazer uma arte autoral, com uma assinatura própria. “Usamos instrumentos brasileiros como viola caipira, rabeca, cavaquinho, zabumba, instrumentos africanos, indígenas, portugueses e brasileiros”, explica o compositor, arranjador, violeiro e vocalista Chico Nogueira. Segundo o fundador do grupo, integrado por cinco músicos, a temática das canções derivou da observação da cultura popular brasileira. “Falamos muito de passarinhos, de flores e de frutas. De crianças, da chuva, do mar, de jabuticabeiras, de amor e de acolhimento”, explica Chico.

Para Tico Magalhães, capitão do grupo Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro, a cultura popular se associa muito à invenção: 'Assim como a criação de Brasília, inventamos a nossa cultura popular' ( Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
Para Tico Magalhães, capitão do grupo Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro, a cultura popular se associa muito à invenção: "Assim como a criação de Brasília, inventamos a nossa cultura popular"

Os espetáculos do Mambembrincante são altamente interativos. Em 1º de janeiro de 2011, o grupo tocou o Hino Nacional Brasileiro em forma de ciranda, na posse da presidente Dilma Rousseff, no gramado da Esplanada dos Ministérios. “Foi uma gigantesca ciranda, com a participação de artistas e do público em geral”, lembra o músico. Para Chico, a cultura popular se produz “no meio do povo”. “É uma fonte que nos inspira, nos alimenta e nos sacia. Nossa relação com a cultura popular pode ser comparada com a de um bezerro recém-nascido com a vaca-mãe”, diz. “Em nosso trânsito pelo meio de nosso povo vamos alimentando nossas flores, canções, personagens, histórias e emoções.”


É também numa grande roda que ocorre parte dos shows do Grupo Cultura Pé de Cerrado, em atividade desde 1999. Composto de seis músicos, dois palhaços e dois percussionistas de apoio, e sob influência de mestres da música popular brasileira como Luiz Gonzaga e Hermeto Paschoal, ele surgiu depois que o multi-instrumentista Pablo Ravi foi convidado a dirigir a peça A Pena e a Lei, de Ariano Suassuna. Percebeu que o autor insere no texto a letra das músicas e o ritmo. “Foi então que criamos o Pé de Cerrado com a proposta de pesquisar os ritmos, as danças, as brincadeiras, o figurino, a religiosidade da cultura popular brasileira. E criar, por meio de nossa poesia e música, um espetáculo que representasse o Brasil e sua diversidade”, lembra.


“Vai, cantando essa ciranda com seu coração. Plantando sementes de amor na imensidão.” A ciranda Oração, um dos grandes sucessos do grupo, aborda temáticas constantes nas apresentações: positividade, natureza, amor. Tudo numa vibração intensa. Além dela, merecem destaque o coco Pisa e o afoxé Presente. Em média, o Pé de Cerrado se apresenta de duas a quatro vezes por mês em diferentes locais da cidade. “A interação com o público ocorre por meio das brincadeiras da cultura popular, como ciranda, coco, quadrilha, banda de pífano. Os espectadores também são estimulados por dois brincantes (palhaços) do grupo, que descem do palco e rompem essa barreira de palco e público, convidando as pessoas a serem parte do espetáculo”, acrescenta Pablo Ravi.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017