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ENTREVISTA | PAULO HOFF »

Na luta contra o câncer

Formado na Universidade de Brasília, o oncologista Paulo Hoff tratou - e trata - de autoridades como Dilma e Lula, mas também está à frente de um projeto que cuida de 40 mil pacientes na rede pública

Dominique Lima - Redação Publicação:13/11/2013 14:25Atualização:13/11/2013 14:44

 (Fotos: Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
O oncologista Paulo Hoff usa frequentemente a palavra otimista. Em pouco mais de uma hora, o termo surge várias vezes, seja ao descrever as qualidades necessárias para um bom profissional da área, seja ao tratar das perspectivas da rede pública de saúde ou ao enumerar as dificuldades da pesquisa médica no país. Essa presença constante parece ter influenciado a carreira de quase duas décadas que lhe concedeu prestígio internacional.


No Brasil desde 2006, após um perío-do de 16 anos estudando e trabalhando nos Estados Unidos, Hoff fez parte das equipes que trataram cinco chefes de estado sul-americanos acometidos pelo câncer, sendo três deles brasileiros: a presidente Dilma Rousseff, o ex-presidente Lula e o vice-presidente José Alencar. Em Brasília para o Congresso Brasileiro de Oncologia, o médico conversou com Encontro Brasília sobre diversos assuntos.


Sobre a atenção que ganhou por conta de pacientes ilustres, foi categórico: sua postura é tratar todos os seus pacientes como VIPs. E também se mostrou saudoso da capital federal, onde morou durante os estudos de graduação e onde ainda vive sua família. Encantou-se com o Parque da Cidade, local escolhido para correr antes de voltar ao Centro de Convenções e continuar a trabalhar com otimismo em prol de suas maiores paixões: o cuidado com o próximo e a pesquisa. Mas que não se confunda otimismo com inação. O médico não poupa palavras para apontar o que precisa ser mudado para melhorar o quadro que enfrentará, daqui a alguns anos, sua filha mais velha, que estuda medicina nos Estados Unidos.

O Sr. viveu 16 anos nos Estados Unidos. Estabeleceu carreira por lá. O que o trouxe de volta para o Brasil?


Tenho três filhas, e eu e minha mulher queríamos que elas tivessem contato com os parentes, que tivessem raízes brasileiras. Além disso, eu e minha mulher, que também é médica, sempre tivemos a intenção de voltar. Pode soar um pouco estranho ou demagógico, mas não é. Nós sempre quisemos colaborar para o desenvolvimento do Brasil. Eu aproveitei muito os meus anos nos Estados Unidos, desenvolvendo uma carreira, uma linha de pesquisa e me aprimorando. É claro que uma mudança dessa magnitude só acontece com uma boa oportunidade.

Que oportunidade foi essa?


Em 2006, o Hospital Sírio-Libanês me procurou. Chamaram-me para fazer parte do grupo e isso facilitou bastante a decisão de voltar. Um ano depois, em 2007, fui convidado para a Universidade de São Paulo (USP), onde hoje sou professor titular da cadeira de oncologia clínica, chefe do serviço de oncologia e diretor do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), que eu ajudei a desenvolver desde o projeto inicial em 2008. É uma instituição muito grande. Temos 40 mil pacientes hoje em tratamento.

Com essas experiências, o senhor teve contato com a rede pública e com a rede privada de saúde do país. Quais são as diferenças entre uma e outra? Como é o tratamento oncológico oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS)?


Ter as duas experiências foi muito importante para mim. Por um lado, o que se faz no Hospital Sírio-Libanês hoje está em consonância com o que se faz nos melhores hospitais do mundo, tanto em termos de infraestrutura quanto em termos de cuidado. Tenho muito orgulho de fazer parte desse centro. Mas o fato é que entre 70% e 80% dos pacientes de câncer no Brasil são tratados pelo SUS. E temos possibilidade de dar a esses pacientes um tratamento digno e muito próximo ao que é dado no sistema privado. É natural haver diferenças. Ninguém espera que os hospitais do SUS tenham o mesmo nível de hotelaria ou sofisticação de infraestrutura dos melhores hospitais do país. Mas se espera que o atendimento no SUS seja digno, confortável e adequado. E é para isso que estamos lutando..

Essa luta tem sido bem-sucedida?


Quando tive oportunidade de me inserir no trabalho da Universidade de São Paulo, um serviço público, eu agarrei com as duas mãos. Porque a experiência que eu tinha acumulado até ali poderia ajudar o Sistema. Quando fui para a USP, havia um serviço pequeno de oncologia que nós começamos a trabalhar para aumentar. Hoje, é um dos maiores do mundo.

'Brasília sofre de algo que é comum nas grandes capitais brasileiras, que é o influxo de pacientes de outras regiões, o que sobrecarrega o sistema' ( Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
"Brasília sofre de algo que é comum
nas grandes capitais brasileiras, que
é o influxo de pacientes de outras regiões,
o que sobrecarrega o sistema"
Como fazer cumprir a lei que prevê prazo máximo de 60 dias para início do tratamento de câncer?


Para nós, médicos, a lei atende uma demanda justa. Pergunta-se se não seria um prazo ainda longo, mas algumas vezes o paciente está com outros problemas de saúde e não pode começar o tratamento imediatamente. Há vários problemas que precisam de solução para se conseguir cumprir o prazo. Posso exemplificar com os esforços que temos feito em São Paulo. Estamos negociando com o governo para que as unidades de assistência básica possam ser responsáveis pela fase de diagnóstico. É uma parte fundamental, que poderá facilitar o encaminhamento dos pacientes dessas unidades para os centros especializados. O que queremos é que todo paciente possa não apenas ser atendido dentro dos 60 dias, mas também que seja por um centro hospitalar localizado a não mais do que uma hora e meia de distância de sua casa. Para isso, pretendemos fazer uma redistribuição dos pacientes. Vai resolver o problema? Não.

E qual a vantagem?


Vai mitigar o tempo de espera e possibilitar uma visão clara das necessidades do estado. Essa é a melhor maneira de fazer a lei ser cumprida. Agora, é preciso dizer que essa lei foi aprovada sem previsão de aumento adicional no repasse de recursos para tratamento de câncer. O repasse já vinha aumentando, sim, mas ainda não é suficiente. Para que a norma seja cumprida no Brasil, vão ser necessários recursos adicionais, que têm de vir do Ministério da Saúde. São Paulo é um estado rico, onde temos conseguido complementar a verba repassada pelo SUS, mas esse não é o caso de todos os estados brasileiros.

Acredita que essas estratégias possam ser aplicadas no Distrito Federal?


Vejo Brasília com muito entusiasmo porque acho que há, aqui, características que possibilitariam seguir em sentido parecido com o trabalho feito no Icesp. Há uma área geográfica relativamente restrita, uma população com poder aquisitivo razoável e uma estrutura hospitalar basal importante. Então, Brasília é local onde uma experiência dessas poderia ser levada à frente. Desde que as pessoas concordem que a iniciativa seja boa, claro (risos).

Qual a sua opinião sobre a rede de atendimento para tratamento de câncer em Brasília?


Brasília tem atendimento de extrema qualidade. Mas, como grande parte do Brasil, a cidade tem duas populações distintas: uma muito bem assistida e outra que ainda carece de melhor atendimento. Brasília sofre de algo que é comum nas grandes capitais brasileiras, que é o influxo de pacientes de outras regiões, o que sobrecarrega o sistema. Essas pessoas que procuram assistência no DF são merecedoras do mesmo carinho e tratamento de qualquer paciente da região. No entanto, não é fácil enfrentar as dificuldades dessa demanda aumentada. Há esforços acontecendo e que devem continuar. O atendimento em Brasília na rede privada é bom, mas pode virar uma referência nacional e internacional. Falando especificamente do hospital em que trabalho, o Sírio-Libanês, nós temos visão clara de que Brasília pode se tornar ponta de lança importante, destino de pacientes de outras regiões. Brasília está em região central, tem boa estrutura de hotelaria, um aeroporto movimentado e excelentes profissionais.

Como o Sr. avalia a resolução da Agência Nacional de Saúde (ANS) que obriga planos de saúde a cobrir 37 novos medicamentos para câncer?


Estamos contentes e esperamos que a presidente Dilma sancione a norma porque uma regulamentação da ANS não tem o poder que tem uma lei, que é mais difícil de ser revogada. No futuro, a vasta maioria dos pacientes será tratada com medicação oral, então, sancionada a lei, será resguardado um direito importante para a maioria dos pacientes. Não tenho dúvida de que vai haver um aumento significativo no desembolso dos planos de saúde. E é algo com que a sociedade vai eventualmente arcar. As operadoras já estão trabalhando com lucros pequenos. Mas não é plausível deixar de atender esses pacientes simplesmente com base no lucro apertado das operadoras.

Os medicamentos são caros?


São. Esse é um dos problemas. No passado, as medicações oncológicas não geravam, em regra, grandes retornos para as empresas. Com o desenvolvimento de técnicas mais modernas, isso começou a mudar. E o mercado norte-americano, o maior mercado do mundo, suporta preços altos e acaba elevando o patamar de custos para os demais países.

Qual é o papel da indústria farmacêutica nessa dinâmica?


Nós dependemos muito das indústrias para o desenvolvimento de novas drogas. Isso não é ruim, porque elas têm poder de inovação, interesse em investir na pesquisa e know-how para desenvolver novas drogas. As indústrias são parceiras importantíssimas. Agora, as empresas fazem seu trabalho com vistas em lucro, têm ações negociadas nas bolsas do mundo. Isso é legítimo. No entanto, acho que está havendo um pouco de exagero na precificação. A indústria tem de recuperar o que investiu e ter lucro. Mas os atuais ganhos me parecem difíceis de justificar. Tem medicamentos no Brasil custando quase R$ 100 mil por aplicação. Acredito que o governo poderia reduzir impostos e abrir negociações diretas com as empresas para pedir a redução dos custos.

Como anda, em sua opinião, a pesquisa médica no Brasil?


Tem crescido bastante. Nós temos um corpo de investigadores de pesquisa básica e de pesquisa clínica muito bom. Em Brasília, temos excelentes laboratórios. O problema é que temos um sistema de controle governamental dessa pesquisa extremamente burocrático. Estou falando da Resolução nº 466 da Conep, que rege a pesquisa médica no Brasil hoje. É indiscutível que haja o controle firme da ética. Houve casos de abusos gigantescos no passado. O problema é que um protocolo de pesquisa no Brasil leva de seis meses a um ano para ser analisado sob o ponto de vista de sua ética. Nos Estados Unidos, levam-se dois meses. No Canadá, um mês. Não acho que americanos e canadenses façam pesquisa com menos ética que nós.

'Acho que o estigma tem de cair. Se o indivíduo tiver medo de checar se tem ou não câncer, pode deixar de encontrar o tumor no estágio inicial, quando ele é curável' ( Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
"Acho que o estigma tem de cair.
Se o indivíduo tiver medo de checar
se tem ou não câncer, pode deixar
de encontrar o tumor no estágio inicial,
quando ele é curável"
Por que demora tanto?


Aqui, as avaliações são feitas em mais de uma instância. Uma delas, o Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa, do Ministério da Saúde), um órgão nacional, é muito sobrecarregado. Além do problema de tempo, há uma parte ainda mais burocrática da resolução. Ela estabelece certas exigências que são difíceis de aceitar quando se trata de pesquisa sobre doenças complexas.

Poderia exemplificar?


Se o indivíduo tiver participado de um estudo, a empresa ou centro de pesquisa tem de prover a droga gratuita para o indivíduo para o resto de sua vida. Mas há casos em que o estudo é negativo, não dá certo, e a empresa descontinuará a produção do produto. Entretanto, pode ser que um paciente apenas, uma exceção, tenha resultados positivos. Eticamente, parece razoável que se continue a produção para beneficiar essa pessoa. Na prática, porém, o custo é impraticável. Assim, as empresas preferem não correr o risco e deixam de abrir pesquisa no Brasil. O país tem perdido participação em pesquisas importantes por conta do excesso de tempo para aprovação de protocolos e de algumas exigências específicas da resolução.

Por que a pesquisa é tão importante para pacientes de câncer hoje, não apenas para os futuros?


Porque numa doença como o câncer, por vezes, não há tratamento, e a alternativa é participar de uma pesquisa em fase de estudo clínico que pode trazer algo novo, uma nova perspectiva. Quando ele entra numa pesquisa, o paciente recebe atendimento de altíssima qualidade. Numa pesquisa multinacional, ele terá exatamente o mesmo tratamento que qualquer paciente no mundo. Muitas vezes, acaba até mesmo sendo superior ao que é oferecido atualmente tanto na rede pública de saúde quanto na privada.

Métodos de pesquisa que envolvem animais foram questionados após ativistas retirarem do Instituto Royal, em São Roque, São Paulo, cachorros da raça beagle submetidos a testes científicos. Qual sua opinião sobre o caso?


Acredito que possa ter havido algum mal-entendido. Apesar de ser eu mesmo um “cachorreiro” e ver a importância da defesa dos animais, é preciso considerar que alguns avanços dependem de estudos envolvendo cães. Alguns testes só podem ser feitos em animais com características fisiológicas semelhantes às do ser humano. São eles os primatas e os cachorros da raça beagle. Agora, tudo deve ser feito com cuidado e rigor. Assim como testes em animais, os testes clínicos com seres humanos também sofrem preconceito no Brasil, por falta de informação. Mas essas são etapas imprescindíveis para o desenvolvimento da medicina.

Ainda há um estigma sobre o câncer?


O estigma já reduziu. E, nesse ponto, temos de ser otimistas. Nós hoje temos, nos bons serviços de atendimento, uma taxa de cura de 60%. Logicamente que essa taxa é alterada em muito de acordo com o estágio em que a doença se encontra no momento do diagnóstico. A maior parte dos tumores diagnosticados em estágios iniciais é curável. Em estágio avançado, a doença geralmente pode ser controlada, mas não curada, embora essa situação esteja melhorando. Os resultados de tratamento são cada vez melhores, apesar de ainda abaixo do que esperamos. Acho que o estigma tem de cair. Se o indivíduo tiver medo de checar se tem ou não câncer, pode deixar de encontrar o tumor no estágio inicial, quando ele é curável. Hoje, em São Paulo, metade dos casos é diagnosticada em estágio precoce e metade em estágio avançado. Temos de mudar esse quadro. E o medo e o preconceito são culpados por uma parte dos pacientes terem medo de procurar ajuda médica.

 

 ( Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
Quem é

 

Paulo Marcelo Gehm Hoff, 45 anos, casado, pai de três filhas


ORIGEM
Paranavaí, Paraná


FORMAÇÃO

Graduação em Medicina pela Universidade de Brasília (UnB), em 1991. Residência em medicina interna no Jackson Memorial Hospital da Universidade de Miami e fellowship em hematologia e oncologia na Universidade do Texas, M.D. Anderson Cancer Center, em Houston. Doutorado e livre-docência em oncologia pela Universidade de São Paulo (USP)


CARREIRA
Foi professor associado e vice-chefe de departamento na Universidade do Texas, M.D. Anderson Cancer Center. Atuou ainda como diretor do Grupo de Câncer Colorretal do National Surgical Adjuvant Bowel and Breast Project e do Southwest Oncology Group. Atualmente, é médico e diretor do Centro de Oncologia do Hospital Sírio- -Libanês, professor de oncologia da Faculdade de Medicina da USP e diretor do Instituto do Câncer de São Paulo Octávio Frias de Oliveira e da Faculdade de Medicina da USP

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017