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Comportamento | Tendência »

Os sem-gravata

Por que tantos homens estão abolindo o acessório que já foi símbolo de status e glamour? Conforto e elegância ditam novas regras, até mesmo para os altos executivos

Diego Amorim - Redação Publicação:25/11/2013 14:36Atualização:25/11/2013 14:45

O advogado Sandro Brotherhood aboliu as gravatas do dia a dia: 'Não faz sentido ficar com a gravata apertando a gente com um calorão desses', diz (Raimundo Sampaio / Encontro / Da Press)
O advogado Sandro Brotherhood aboliu as gravatas do dia a dia: "Não faz sentido ficar com a gravata apertando a gente com um calorão desses", diz
 

Os homens desfizeram o nó da gravata. Símbolo de status e glamour máximos, um dos acessórios mais sofisticados da moda masculina saiu do colarinho até mesmo de grandes executivos. Nem no mundo dos negócios, tão apegado à aparência, exibe-se a gravata como até pouco tempo, quando ela era peça obrigatória.


De camisa – social ou não – e blazer acinturado, os homens têm transformado todos os dias da semana em casual day. Mais do que uma nova tendência da moda, avaliam os especialistas, há uma mudança de comportamento em curso. O desafio lançado é manter a pose com mais conforto e despojamento, sem perder a elegância.


Alheios às cartilhas de vestimenta das empresas, funcionários passaram a ousar, imitando, muitas vezes, os próprios chefes. Não se trata do fim da gravata, acredita-se. Mas a quebra de paradigmas é tão clara que há quem preveja, em breve, a não obrigatoriedade do acessório em lugares como tribunais superiores e nos plenários do Congresso Nacional.

O casal Felipe Lambertucci Bruna Neres aprova o 'pescoço livre': 'O mais elegante mesmo é o paletó', diz (Raimundo Sampaio / Encontro / Da Press)
O casal Felipe Lambertucci Bruna Neres aprova o "pescoço livre": "O mais elegante mesmo é o paletó", diz

Os sem-gravata estão soltos por aí: nas firmas, nos escritórios, andando pelos shoppings, trocando cartões de visita nas feiras de negócios. “A verdade é que os homens sempre odiaram a gravata”, diz a consultora de imagem Juliana Brito. Ela, pós-graduada em moda, garante que não há mais necessidade de usar o acessório com tanta frequência.


Na ânsia de passar uma imagem moderna e elegante, observa Juliana, muitos homens acabam se atrapalhando com o uso da gravata. “Se for para usá-la mal, aí é que é melhor aposentá-la mesmo”, comenta a consultora, citando o exemplo dos que, ainda durante o expediente, resolvem afrouxar o nó e abrir o primeiro botão da camisa.


Juliana acrescenta que modelos “cafonas” de gravata ou, no mínimo, destoantes do conjunto podem, diferentemente do que deseja o homem, transparecer, inclusive, deselegância. “Um homem sem gravata não perde a formalidade nem a credibilidade. Pelo contrário. Bem vestido, ele pode manter um visual ainda mais moderno e arrojado.”

Para Hamilton Júnior, e o pai, Hamilton de Almeida, a queda na venda das gravatas é considerável: 20% no último ano (Raimundo Sampaio / Encontro / Da Press)
Para Hamilton Júnior, e o pai, Hamilton de Almeida, a queda na venda das gravatas é considerável: 20% no último ano

No verão deste ano, o advogado Sandro Brotherhood tomou uma decisão adiada há tempos: aboliu as gravatas do dia a dia. Agora, ele recorre a elas somente nas audiências, quando ainda são exigidas por lei. “Não faz sentido ficar com a gravata apertando a gente com um calorão desses”, argumenta o doutor sem gravata.


O estudante de direito Felipe Lambertucci, estagiário em um escritório da capital federal, viu os superiores de “pescoço livre” e gostou da ideia. Agora, anda sempre com uma gravata de emergência na mochila, mas tem optado por desfilar sem aquilo que, antes, era considerado “instrumento de trabalho”. “A gravata, para mim, era uma como uma caneta, fazia parte do cotidiano do advogado.”


Felipe nunca aprendeu a dar nó em gravata. As que ocupam espaço no guarda-roupa foram compradas prontas para usar ou o pai o ajudou a deixá-las no ponto. “Sem gravata, é mais conforto e menos incômodo”, resume o futuro advogado. A namorada dele, Bruna Neres, também estudante de direito, aprova o novo visual. “O mais elegante mesmo é o paletó”, diz.


A gravata deixou de ser um código, uma imposição, analisa Akihito Hira, professor do curso de design de moda do Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb). “O homem está se libertando de amarras, com base em um pensamento que era quase generalizado: a gravata aperta e incomoda, sobretudo em um país de clima tropical”, argumenta.


Mesmo que os sem-gravata se proliferem – como é de se esperar –, Hira não crê que um acessório tão antigo e marcante para o universo masculino desapareça. Em bailes e em outras ocasiões especiais, a gravata lá estará, prevê ele. “Com uma diferença: as pessoas parecem ter percebido que o caráter e a identidade de alguém não se revelam pelo uso ou não da gravata”, pondera.


O engenheiro Francisco Drummond Júnior não tem mais receio de deixar a gravata em casa. “Ela se popularizou e perdeu aquela coisa de status. Deixou de ser algo relevante”, concorda o mineiro que, no mês passado, esteve em Brasília a trabalho e, nas reuniões de negócio, não usou o acessório que “fica incomodando”.


Na loja gerenciada por Hamilton de Almeida, a venda de gravatas caiu 20% no último ano, mesmo com o sucesso das mais finas, chamadas slim. Ele ainda atende os clientes de gravata e não faz planos de mudar o hábito, embora reconheça que ela tenha perdido força. “É a parte principal do conjunto. Ficar sem ela é como estar sem as partes íntimas”, compara. “Já eu sou o neoclássico da loja”, brinca, sem gravata, o filho e funcionário Hamilton Júnior.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017