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CIDADES | HISTÓRIA »

Um lugar de sons e sonhos

A Escola de Música de Brasília já formou diversos talentos em meio século de história. Agora, prepara-se para implantar cursos superiores

Rodrigo Craveiro - Redação Publicação:29/11/2013 19:00Atualização:02/12/2013 14:44

Todos os anos, milhares de alunosdisputam as concorridas vagas da Escola de Música: tradição e qualidade na formação musical de Brasília (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Todos os anos, milhares de alunos
disputam as concorridas vagas da Escola
de Música: tradição e qualidade
na formação musical de Brasília
Violoncelo, flauta, violino, piano, violão e cigarras. Os sons se misturam, confundem, inebriam. A arte brota de cada uma das pequenas salas, enquanto estudantes dedilham o cavaquinho e dominam o violoncelo, sentados bem à vontade no corredor principal, em meio aos blocos. Lá no fundo, vozes afinadas ressoam em tom harmônico. Às margens da L2 Norte, a Escola de Música de Brasília (EMB) transpira meio século de formação e produção cultural. No início do semestre, a instituição recebeu 8,8 mil inscrições para 1,5 mil vagas, escolhidas por meio de sorteio e de teste.


Tayane de Souza Nery Almeida é uma das alunas que teve a sorte e a competência de ingressar na EMB. Apaixonou-se pelo som do violoncelo e, desde o início do ano passado, debruça-se sobre o instrumento. “Para mim, aqui é uma oportunidade. Tem gente que não tem condição de pagar uma escola, e a EMB é uma chance para essas pessoas entrarem no mundo da música”, diz. Apesar de reconhecer a dificuldade apresentada pelo violoncelo, Tayane não se arrepende da opção. “É um instrumento bonito. Ele tem um som muito lindo”, comenta ela, que sonha em tocar bem e ser admirada pelo público. Talvez até se exibir na Orquestra Sinfônica de Berlim.


Ao lado dela, um rapaz fricciona o violoncelo com paixão. Roale Romel Francisco de Araújo Pereira relata que optou pelo instrumento após ser contemplado em sorteio e aprovado em uma prova de teste. “Eu sinto muito o violoncelo, é o que mais se assemelha à voz humana. Pretendo seguir carreira”, comenta. Ele vê a EMB como um acesso público e de qualidade para o ensino de música em Brasília. Antes de aderir ao violoncelo, Roale foi musicalizado no trombone, no trompete e no piano.


Das salas da EMB, saíram grandes nomes da cultura brasiliense e brasileira, como Zélia Duncan, Lula Galvão, Nema Antunes, André Vasconcellos, Hamilton de Hollanda, Fernando César, entre outros. “A EMB contribui com a movimentação musical de Brasília”, lembra Luiz Alberto Tibana, que há 28 anos leciona violão erudito. “Pegamos alunos a partir dos 7 anos até os 70. A escola supre uma carência que a cidade tem”, acrescenta. Tibana também destaca o caráter democrático da instituição. “Temos alunos que moram na periferia e outros que moram no Lago Sul e vêm com motorista. Aqui, a grana não fala. O que fala é tocar. O talento iguala as pessoas”, diz.


Morador de Sobradinho, Marcos Souza Teixeira encara toda semana uma jornada de dois ônibus até chegar à EMB para a aula de violino. Segundo ele, a música lhe ensina a viver melhor. “Aprendo a ter concentração, a relaxar, além de ser uma forma de me divertir”, afirma. Ele considera o violino um desafio, mas se empolga com o som “bonito”. “Quero terminar meu curso básico, ir para o intermediário e, quem sabe, seguir a carreira de músico e, um dia, tocar numa orquestra.” A irmã dele, Ana Beatriz Souza Teixeira, está há quase um ano nas aulas de piano erudito. “Foi um dos primeiros instrumentos com que tive contato, além de ser o básico para a carreira de músico”, conta ela.


João Marinho de Mesquita Júnior leciona violão há 15 anos na EMB. Ensina a tocar choro, música popular e samba. “A escola é importante por ser um polo e um centro formador, que reúne não só alunos e professores, como a parte artística e musical”, afirma.


Iuri de Arruda Gules fez um roteiro pouco comum: da guitarra ao cavaquinho. Ele optou pelo cavaco porque pretendia entrar no Clube do Choro. “Eu achei que seria fácil, mas é outro instrumento. Tive de aprender do zero, apesar de algumas notas se repetirem”, diz. Já são cinco anos dedilhando as cordas, três anos passados no Clube do Choro. “O ensino é bom e o sistema funciona bem, mas faltam investimentos do governo.”

 

 

 

 

Uma nova fase de expansão

Ataide de Mattos, presidente da Escola de Música de Brasília, planeja dois cursos superiores: 'Nós crescemos muito, para dentro, e não cabemos mais nesta escola, tanto pedagógica quanto artisticamente' (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
Ataide de Mattos, presidente da Escola de Música de Brasília, planeja dois cursos superiores: "Nós crescemos muito, para dentro, e não cabemos mais nesta escola, tanto pedagógica quanto artisticamente"

No começo da década de 1960, logo após a criação da capital, existiam dois polos musicais: um em Taguatinga, sob a batuta de Levino Ferreira de Alcântara, hoje com 92 anos, e outro no Centro Educacional Caseb, na Asa Sul. “O maestro Levino participou da organização desses movimentos e conseguiu que a EMB fosse oficializada como instituição autônoma, em 1971. Ele colocou um professor de música e um pianista em cada uma das escolas públicas de Brasília, à época”, conta o diretor Ataide de Mattos. Uma façanha que, nos dias de hoje, seria impossível – a capital soma 652 instituições da rede pública. Com a musicalização das escolas, Levino conseguiu reforçar o embrião da EMB.


O destaque à vocalização deu origem ao Madrigal de Brasília. A parte instrumental foi fomentada por músicos de outros estados. Com o curso de verão, vieram profissionais do exterior e do Rio de Janeiro. Estava formada a primeira leva de professores. A estrutura curricular contemplava o curso Crescendo com a Música, o pré-profissionalizante e o profissionalizante; além do Cultura Musical, à noite. Depois de duas sedes provisórias, a EMB assentou-se definitivamente na 602 Sul, em 1974.


Do foco inicial na música vocal e na produção sinfônica, a instituição enfrentou uma expansão sem precedentes desde 1985. Foi também na década de 1980 que a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional surgiu a partir de professores e alunos da EMB e da Universidade de Brasília (UnB). Além da música erudita, desenvolveu música popular, contemporânea e eletroacústica. Criou núcleos de musicalização e musicologia para deficientes visuais; e de música e tecnologia, com cursos de musicografia digital, gravação e iluminação cênica. “O trabalho do maestro Levino rendeu frutos. Nós crescemos muito, para dentro, e não cabemos mais nesta escola, tanto pedagógica quanto artisticamente”, comemora Mattos. A EMB se prepara para uma descentralização: vai implantar dois cursos superiores, de licenciatura em instrumento musical e de licenciatura em musicalização.


Hoje, a EMB oferece musicalização infantil, juvenil e adulta; iniciação instrumental; e cursos técnicos. São mais de 20 instrumentos, oferecidos em pelo menos oito grandes núcleos de estudos: orquestras, coro e bandas; musicografia braille; canto; música antiga; música popular; sopros; cordas dedilhadas; e cordas friccionadas.

O aluno de violino Marcos Souza, com a irmã, Ana Beatriz, ao piano: além de aprender o instrumento, a música ajuda a relaxar (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
O aluno de violino Marcos Souza, com a irmã, Ana Beatriz, ao piano: além de aprender o instrumento, a música ajuda a relaxar

Roale e Tayane, apaixonados pelo violoncelo: passaram por várias fases de seleção para conseguir a vaga na escola (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Roale e Tayane, apaixonados pelo violoncelo: passaram por várias fases de seleção para conseguir a vaga na escola

Luiz Alberto Tibana leciona violão erudito há 28 anos: 'A capital produz grandes músicos, e grande parte deles passou por aqui' (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Luiz Alberto Tibana leciona violão erudito há 28 anos: "A capital produz grandes músicos, e grande parte deles passou por aqui"
 

Iuri Gules passou da guitarra ao cavaquinho: 'Acho muito bom o ensino aqui', elogia (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Iuri Gules passou da guitarra ao cavaquinho: "Acho muito bom o ensino aqui", elogia

A EMB tem alunos que moram na periferia e outros que moram no Lago Sul e vêm com motorista: o talento iguala as pessoas (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
A EMB tem alunos que moram na periferia e outros que moram no Lago Sul e vêm com motorista: o talento iguala as pessoas

João Marinho de Mesquita Júnior é professor de violão popular há 15 anos na EMB: 'A escola é importante por ser um polo e um centro formador'
 (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
João Marinho de Mesquita Júnior é professor de violão popular há 15 anos na EMB: "A escola é importante por ser um polo e um centro formador"
 

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017