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Pet | Celebridade »

No hall da fama

Brasília é farta de campeões, que podem chegar a cifras de R$ 50 mil, embora valores sejam mantidos sob sigilo. Alguns cães percorrem o país inteiro em exposições

Maria Fernanda Seixas - Redação Publicação:02/12/2013 14:53Atualização:02/12/2013 15:02

Joverson Pereira e Mariluci Gonçalves conduzem muitos campeões pelo Brasil: Sharlize, uma lhasa apso de 2 anos, é um exemplo (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Joverson Pereira e Mariluci Gonçalves conduzem muitos campeões pelo Brasil: Sharlize, uma lhasa apso de 2 anos, é um exemplo
 

Às 8h da manhã, ela começa a se preparar. Com a ajuda de um especialista, descolore alguns fios de cabelo para iluminar o rosto. Toma um banho quente e lança mão daquele hidratante capilar importado que só é usado em datas especiais. Seca as madeixas com um secador de cabelos, faz escova e finaliza o penteado com chapinha. Depois, usa silicone líquido nas pontas dos fios para garantir o brilho final e selar as pontas duplas. Um pouco de rímel, algum corretivo e, para finalizar, um café da manhã leve. Está pronta para a passarela e para saber se, no fim das contas, será a mais bonita do concurso.


A rotina, que combina perfeitamente com a de uma miss, porém, pertence a Sharlize, uma lhasa apso de 2 anos e muitos troféus no currículo. A cadelinha é a atual campeã brasileira em sua categoria e viaja pelo Brasil em busca de mais títulos. Assim como toda grande modelo, Sharlize conta com uma equipe especializada em deixá-la pronta para os desfiles e, quem sabe, levar o prêmio. Com um bom título no currículo, o cachorro passa a valer alguns milhares de reais e os filhotes, consequentemente, também custam pequenas fortunas. Os donos, porém, garantem que se alimentam mais do prazer do que da possibilidade de lucro.


O criador Saulo Lino, do Pride Cerrado Kennel, por exemplo, afirma que a brincadeira de manter os cães em exposição é, na realidade, um hobby sem retorno financeiro certo. “É muito mais provável que essa paixão gere prejuízo”, diz. Saulo explica que é preciso um investimento considerável para colocar um cachorro na rota dos campeões.


Primeiramente, é necessário ter um cão com pedigree reconhecido pela Confederação Brasileira de Cinofilia e com a aparência, o porte e o temperamento estipulados por ela. Detalhes que só se confirmam quando o animal completa entre 6 e 8 meses de idade. Ou seja, uma pessoa que investir em um filhotinho caro e com toda a pinta de bonito não tem nenhuma garantia de que, ao crescer, ele terá todos os atributos necessários. A estimativa é de que a cada quatro ninhadas de grandes canis nasça um possível campeão.


Superado o investimento inicial, é preciso pagar as inscrições, os produtos de beleza, uma alimentação impecável, as viagens e os serviços de um bom handler – profissional que adestra e apresenta o cão na pista de exposição. Um competidor em busca de um bom lugar no ranking nacional gasta, no mês de exposição, uma média de R$ 2 mil em investimentos. Há casos em que a cifra é muito maior. “São poucos os cães de exposição que, de fato, geram lucro. As pessoas estão nesse meio mais pelo hobby e pelo amor do que pelo dinheiro. Mas existem cães, sim, que dão retorno financeiro. Cuido de um cujo dono já recebeu uma oferta de R$ 50 mil, mas ele não vende de jeito nenhum”, conta Joverson Pereira, handler profissional e proprietário do Jovem Kennel, figura certa nas principais exposições brasileiras.


Joverson é responsável por transportar, adestrar, preparar e apresentar dezenas de cães em concursos, entre eles muitas pratas da casa. “Brasília tem tradição. Quando tem exposição aqui, muito criador de São Paulo prefere nem vir, porque sabe que a concorrência é forte”, conta. O handler entrou para esse universo quando estava no Exército e se tornou responsável pelos cães do quartel. São 20 anos de estrada e de muitos casos e causos em exposições. “Lembro-me de um cachorro que estava no processo de inseminação artificial, então ele estava, digamos, animado. No meio da pista da exposição, quando ele se apresentava, começou a simular a cópula na perna do handler”, conta.


Cães que brigam com outros também são comuns, porém, criador se estranhando com outro, ele garante, é ainda mais comum. A máxima se repete com os avaliadores. Tem cachorro que morde o juiz e tem criador que os xinga de injustos, incapazes e todos os adjetivos que surgem no calor da derrota. “Existe muita vaidade envolvida e tem gente que, quando vê o cachorro sem o título, perde a cabeça”, relata. O criador Saulo vai além: “Às vezes, o clima de rivalidade chega a ser desconfortável. Tem criador que acha que o prêmio é para ele, e não para o animal. Por outro lado, também existe um clima de camaradagem entre os que conseguem levar as exposições com tranquilidade. A maioria dos meus amigos, hoje, são criadores de akita ou de outras raças.”


O fato é que os campeonatos funcionam mais ou menos como o Brasileirão de futebol. Não basta ganhar uma disputa. É preciso ganhar vários certificados de “o melhor da raça ou da exposição” para acumular pontos. No fim, quem tiver mais pontos é consagrado como o campeão nacional. E assim como os fanáticos por futebol estão sempre na internet nos fins de semana, acompanhando o resultado de todos os jogos, os criadores também batem ponto no site Dog Show aos domingos, checando como está a atualização das pontuações, torcendo e vibrando pelos seus cães e pelos favoritos das demais categorias.

 

 A bela Lugus, uma akita americana  de Brasília, é a número um da raça no Brasil: nem precisa de truques especiais (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
A bela Lugus, uma akita americana
de Brasília, é a número um da
raça no Brasil: nem
precisa de truques especiais
A número um do Brasil

 

Via de regra, vale quase tudo em um concurso para tornar o cão em um campeão da raça. Tudo desde que os juízes – famosos pela competência (no meio, brinca-se que é mais fácil concorrer ao Senado do que se tornar juiz Kennel Club) – não considerem o truque como uma trapaça.


A handler Mariluci Gonçalves conta que existem artimanhas comuns na rotina de cães: pintar ou descolorir os pelos amarelados, usar rímel, fixar o penteado com laquê... “Nós usamos produtos importados feitos para cães, mas muitos usam produtos comuns”, alerta Mariluci. Esses upgrades no visual são bem-vistos nas exposições, mas trapaças são condenadas e podem culminar em desclassificação. Por exemplo, apagar uma mancha que não é aceita no padrão da raça com tinta é proibido. Tal qual cirurgias corretivas para problemas estéticos, como orelhas em formato de “x”.


Nem todas as raças, porém, exigem tantos cuidados como a da campeã Sharlize. A bela Lugus, uma akita americana de Brasília que é número um da raça no Brasil, por exemplo, tem uma rotina de beleza bem mais tranquila. “Tem raças que são mais rústicas. O akita toma apenas um banho, seca o cabelo e faz tosa nas patas. Não precisa de produtos para pelo nem truques”, afirma Mariluci.


Ainda assim, Lugus vive na estrada e mal vê o dono em tempos de exposição. “Minhas filhas reclamam que ficam com saudades dos cachorros quando eles viajam, mas para alcançar um bom ranking, é preciso participar dos eventos”, conta Saulo. Lugus, também conhecida como Ursinha, foi a primeira akita do canil de Saulo. Mas ele garante que o currículo premiado não foi sorte de iniciante.
“Estava com meu rotweiller em uma exposição e conheci um akita de um colega. Me encantei pela raça. Como crio cães há 30 anos, já tenho olho treinado e sei onde procurar e comprar exemplares com potencial para exposição. Claro que teve um pouco de sorte, porque a Ursinha é realmente um destaque no Brasil. Tenho uma akita americana comprada na Espanha, que é irmã de um campeão mundial, que não vingou em competições e hoje é uma cachorra de companhia da família e matriz do canil”, explica.

 

Rotina de celebridade

O buldogue-campeiro Lambão já é celebridade: um dos cães com maior pontuação para alcançar o título de melhor do Brasil em 2013 (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
O buldogue-campeiro Lambão já é celebridade: um dos cães com maior pontuação para alcançar o título de melhor do Brasil em 2013

Lambão Molosso di Jerivá, um buldogue-campeiro candango de 2 anos, figura entre as principais estrelas do que eles chamam de hall da fama da Dog Show e segue como um dos cães com maior pontuação para alcançar o título de melhor do Brasil em 2013.


Com centenas de pontos no ranking de 2013, Lambão é celebridade no meio. Recebe carinho de adultos e de crianças sempre com o rabo afoito e os olhos fechados, como quem se deleita a cada afago. “Ele não é apenas muito bonito, mas também tem o temperamento ideal para exposições”, diz Joverson sobre o carismático amigo. Lambão segue em uma espécie de turnê. Viaja quase todos os fins de semana para exposições pelo Brasil na traseira do carro de carga de Joverson, seu handler contratado pelo canil Molosso di Jerivá. Um filhotinho de Lambão vale mais de R$ 5 mil. Os preços podem subir ainda mais se Lambão se sagrar campeão nacional de 2013.

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017