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Mosaicos de cores e reflexos

Os vitrais espalhados por prédios de Brasília conferem ainda mais beleza à arquitetura monumental da capital tombada. Os turistas costumam se encantar com o trabalho de artistas como Marianne Peretti

Cecília Garcia - Redação Publicação:06/01/2014 15:50Atualização:06/01/2014 16:04

A artista plástica alemã Ula Haensell fez o vitral do Templo da Boa Vontade:  representação de um poder central, que seria o próprio Deus (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
A artista plástica alemã Ula
Haensell fez o vitral do Templo da
Boa Vontade: representação de um
poder central, que seria o próprio Deus
Uma cidade luminosa como Brasília, reduto da arquitetura moderna, é um ótimo lugar para a instalação de vitrais. Quem explica o porquê é a professora de arquitetura e urbanismo da Universidade Católica de Brasília Beatriz Melo. A técnica é um trabalho artístico artesanal que usa vidros multicoloridos, explorando a incidência da luz solar ou, em alguns casos, de luzes artificiais, para criar desenhos de diversas temáticas. O conceito original de vitral sempre empregava vidro, mas hoje outros materiais podem ser usados, como o cristal. Para soldar uma peça a outra era usada uma fita de cobre e chumbo. Juntas, as peças formam um painel de cores e texturas.


Para a professora e também vitralista, as obras de Oscar Niemeyer souberam explorar muito bem tanto os vitrais como a iluminação natural da cidade. “O arquiteto gostava muito desse tipo de arte”, conta. Um exemplo dessas obras é o edifício do Superior Tribunal de Justiça. No projeto inicial da corte, já constava a indicação do arquiteto para a colocação dos vitrais e quem deveria ser a artista plástica responsável. E foi assim que os desenhos de Marianne Peretti se integraram à arquitetura do tribunal.

Um dos mais famosos e visitados vitrais de Brasília é o da Catedral: as cores e os desenhos de Marianne Perretti. (Gustavo Moreno/CB/DA Press)
Um dos mais famosos e visitados vitrais de Brasília é o da Catedral: as cores e os desenhos de Marianne Perretti.

Um desses vitrais, um conjunto em concreto e vidro fumê, localiza-se na fachada do bloco dos Plenários, compondo o salão de recepções do local. Com dimensões de 64 m X 4 m, é considerada uma obra estrutural e artística, tanto que sua confecção foi a quatro mãos. Marianne fez o desenho e o engenheiro calculista Bruno Contarini ficou responsável pelas informações técnicas. Até por ser uma instituição laica, a obra não tem relação qualquer com a religião. “A artista quis que o vitral representasse uma floresta imaginária”, conta o arquiteto do STJ Joaquim Torreão Braz, que está no órgão desde o início das obras.


Outro vitral está na sala do Tribunal Pleno, local onde os ministros da casa se reúnem para realizar seus trabalhos. Nesse ponto, a artista Marianne construiu o painel com 5 m de diâmetro, com o desenho de uma mão com um olho à frente e nuvens ao fundo. “O olho seria uma testemunha dos trabalhos desenvolvidos no tribunal”, explica o arquiteto. “É uma visão bem poética da artista. Ela queria que o vitral fosse uma inspiração para os ministros.”

Na sala do Tribunal Pleno do Superior Tribunal de Justiça, o painel criado por Marianne Perretti: o olho como testemunha dos trabalhos (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Na sala do Tribunal Pleno do Superior Tribunal de Justiça, o painel criado por Marianne Perretti: o olho como testemunha dos trabalhos

Marianne Peretti também é a mente criadora de um dos vitrais mais conhecidos e visitados da cidade, o da Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida. Desenhados pela artista plástica, os originais foram fabricados de modo artesanal em vidro de sopro e foram instalados na igreja em 1998. Até então, havia no lugar vidros transparentes. Contudo, com as mudanças de temperatura na cidade, com dias quentes e noites frias, algumas partes dos vitrais começaram a quebrar espontaneamente. Adriana Rocha, funcionária do local, lembra que a situação estava ficando perigosa. “Foi então que a UnB e a Petrobras fizeram um estudo técnico e chegaram à conclusão que os vitrais precisavam ser substituídos.”


Com a reforma da catedral, concluída em dezembro de 2012, foi colocado um vitral mais resistente, preparado para suportar as condições climáticas de Brasília. As novas peças de vidro foram fabricadas industrialmente por uma empresa alemã, respeitando o desenho, as cores e a variação de tonalidades originais escolhidas por Marianne.

Na fachada do bloco dos plenários, conjunto em concreto e vidro fumê compõe o salão de recepções: com dimensões de 64 m X 4 m, é considerada uma obra estrutural e artística (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Na fachada do bloco dos plenários, conjunto em concreto e vidro fumê compõe o salão de recepções: com dimensões de 64 m X 4 m, é considerada uma obra estrutural e artística

Na Asa Sul, a artista plástica alemã Ula Haensell se ofereceu para elaborar um vitral que representasse a proposta do Templo da Boa Vontade. Simbolizando o ecumenismo, foi criada uma mandala que, em vez de vidro, foi confeccionada com cristal de rocha e inserida em um painel de mármore, com outras duas figuras também feitas com o cristal. A coloração da peça não usa nenhuma tinta, ela é conseguida por meio de uma técnica de fundição. O centro da peça é em amarelo-ouro, representando um poder central, que seria o próprio Deus, que se irradia para o mundo. “Chama a atenção que, pela arte, a artista demonstrou muito bem o propósito do templo“, ressalta o ministro do Templo da Boa Vontade, Enaildo Viana. A mandala tem 1,30 m de diâmetro e foi inaugurada em 1990.


Em 1978, o alemão naturalizado brasileiro Lorenz Heilmair recebeu a encomenda de fazer os vitrais para o novo edifício-sede da Caixa Econômica Federal, transferida do Rio de Janeiro para Brasília. No total, são 24 vitrais com 552 m². A matéria-prima usada para a produção da obra foi trazida pela família de Lorenz para o Brasil, que é tradicional nesse ramo. As peças do chamado átrio dos vitrais representam os estados com sua cultura, folclore e aspectos econômicos. “É o reflexo da realidade brasileira. É interessante ressaltar a aplicação da técnica de forma não simétrica, fora da tradição medieval dos vitrais”, comenta Allan de Lana Frutuoso, da Caixa Cultural. Os vitrais, no prédio, formam um elemento arquitetônico, uma obra de arte agregada à arquitetura.

No edifício-sede da Caixa Econômica Federal, o alemão naturalizado brasileiro Lorenz Heilmair criou 24 vitrais: átrio de 552 m2 representa os estados (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
No edifício-sede da Caixa Econômica Federal, o alemão naturalizado brasileiro Lorenz Heilmair criou 24 vitrais: átrio de 552 m2 representa os estados
 

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