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DEZ PERGUNTAS PARA | RECO DO BANDOLIM »

Ganho de causa

Como o baiano Henrique Lima Santos Filho, o Reco, contribuiu para transformar Brasília na capital do choro

Gustavo T. Falleiros - Redação Publicação:06/01/2014 17:06Atualização:06/01/2014 17:14

 (Minervino Júnior/ENCDF/D.A Press)
 

“O Brasil não é para principiantes”, dizia Tom Jobim. Brasília não fica atrás. Por isso, a trajetória de Henrique Lima Santos Filho, o Reco do Bandolim – presidente do Clube do Choro de Brasília desde 1993 e fundador da Escola Brasileira de Choro Raphael Rabello (1997), bandolinista, compositor e integrante do grupo Choro Livre –, impressiona tanto. O sujeito precisa ter muita firmeza e cuca fresca para se fiar num sonho e não esmorecer. E Reco fez a coisa exatamente do seu jeito, aparando as arestas com uma notória política de boa vizinhança. Assim, manteve o Clube do Choro funcionando na alegria e na tristeza do DF. Os governos passaram e o choro ficou, tornando-se um motivo de orgulho para a cidade. Em 2011, a façanha ficou completa com a inauguração da nova sede da Escola Brasileira de Choro Raphael Rabello, um dos últimos projetos assinados por Oscar Niemeyer. Nesta entrevista, ele recompõe passos fundamentais dessa história.

1 | ENCONTRO – Como é essa história de ser “embaixador do choro”?
RECO DO BANDOLIM – Somente depois de muitos anos, pude fazer a avaliação de por que Brasília – capital do Brasil, um país tão musical – terminou sendo colocada como a capital do rock. Eu aprecio os diversos gêneros de música, mas, nos anos 1970, estava envolvido com o rock – eu tinha até um grupo (o Carência Afetiva). Em 1969, acontecia o festival Woodstock, uma manifestação a favor da paz, contra a Guerra do Vietnã, pela liberação sexual, e nós aqui, na América do Sul, num período de ditaduras, com nossos grandes autores sob censura. Éramos jovens e essa linguagem da guitarra distorcida, da bateria estridente, era exatamente o que se precisava para protestar. A partir do momento em que experimentamos a redemocratização, tivemos a obrigação de rever isso... Quando Washington se considerará a capital do samba? Jamais. Os americanos têm uma noção muito aguda do valor da culturapara o país. Precisamos delimitar nosso território cultural. Hoje, depois de muita luta, somos a capital do choro.

2 | Você já esteve com o grupo Choro Livre em Cuba e em outros países...
Participamos, a convite da Embratur de um encontro internacional de turismo em Varadero. Fizemos palestra, apresentação musical, tocamos na embaixada (do Brasil). Muitas vezes, o palco é o divã sonoro da história. Pode-se compreender um povo pela música que ele faz. Também já fomos à China com a presidente Dilma Rousseff. O Ministério das Relações Exteriores (MRE) hoje apresenta a melhor imagem do Brasil para o mundo. Nos últimos anos, rodamos o mundo: desde a África às Américas, a Europa toda...

3 | E o brasileiro, precisa ser apresentado ao choro?
Acho que sim – e veementemente. As emissoras de rádio e tevê, que são concessões do governo, deveriam obedecer ao critério que a legislação impõe de percentuais de música brasileira. Isso não ocorre. Nada contra o entretenimento, mas deveria estar associado à cultura. Depois, estranhamos quando nos acusam de ser um país sem memória. Precisaríamos de uma política como a da época de Villa-Lobos, de música nas escolas. Por exemplo, quando você vê aquela juventude atrás do trio elétrico na Bahia, acontece o seguinte: tem um sol, um verão, cervejinha gelada, cheiro de acarajé e um ritmo contagiante. Reconheço até como forma de arte, porque sensibiliza os outros. Mas, naquele momento, se você quiser apresentar uma peça de Villa-Lobos, vai se dar mal.

4 | Mas não é isso que o (bandolinista) Armandinho Macêdo fazia quando tocava Jacob do Bandolim no trio elétrico?

Esse é o grande mérito do Armandinho. Tem ainda uma geração que sabe reconhecer, que valoriza, mas a grande massa nem conhece isso. Era preciso que houvesse uma política para inserir nas escolas nossa cultura, nossa fisionomia, como nós pulsamos, como nós sentimos, a mescla que foi a nossa colonização... O choro tem essa riqueza porque tem a sofisticação da valsa de Viena e o batuque do negro africano.

5 | O Clube do Choro é exemplo de longevidade, atravessou diversos governos. Qual é o segredo da boa relação?
Você conhece Maquiavel, não? (risos) Primeiro, eu não sou empresário – me coloquei na posição de alguém com um certo idealismo. Isso faz uma diferença muito grande. Na Radiobrás (atual Empresa Brasil de Comunicação), cheguei a dirigir 13 emissoras de rádio. Mas, quando vi que o Clube do Choro ia acabar, fui conversar com o então presidente da casa (Francisco de Assis Carvalho da Silva). Ele falou: “Reco, não posso fazer nada”. Daí, falei com a minha mulher que eu ficaria na Radiobrás como mero produtor. Fiquei cinco anos penando e bancando o Clube do Choro com o meu salário. Não tinha patrocínio. O GDF, por exemplo, falou para mim: “Se não funcionar uma vez por semana, nós tomamos a sede”.


'As emissoras de rádio e tevê, que são concessões do governo, deveriam obedecer ao critério que a legislação impõe de percentuais de música brasileira. Isso não ocorre' (Minervino Júnior/ENCDF/D.A Press)
"As emissoras de rádio e tevê, que são
concessões do governo, deveriam
obedecer ao critério que a legislação impõe
de percentuais de música brasileira.
Isso não ocorre"
6 | Isso foi quando?
Foi em 1993. O primeiro patrocínio só veio em 1997. O clube ficou fechado de 1983 a 1993, porque tinha sido vítima de roubos... E a forma que vinha funcionando até então, com um caráter mais de roda de choro, se esgotou. Qualquer pessoa podia chegar e tocar, e aquilo foi desmotivando. É até uma oportunidade que tenho para responder aos que dizem: “O Reco tirou aquele espírito espontâneo”. Eu digo: “Aquele espírito espontâneo, você deve fazer em casa. Reúne os amigos e faz uma roda”. Comecei a observar como os americanos faziam: eles têm escola de jazz. Então por que nós temos de tratar o choro assim, sem cachê, com os músicos tocando a troco de comida e bebida?

7 | E como se deu a retomada?
Tentei reunir os músicos. No primeiro mês, os grupos vieram; no segundo, ninguém apareceu. Daí, eu pensei: “Temos de fazer um grupo de amigos do choro”. E eu tenho de identificar, no governo, quem são as pessoas com representatividade, que tenham sensibilidade cultural. Isso foi na época do governo Fernando Henrique. O governador era o Cristovam Buarque, que me ajudou muito. Procurei me aproximar do ministro-chefe da Casa Civil, Clóvis Carvalho, que era pianista e tinha uma sensibilidade danada. Tinha o Zé Maria Guimarães Monteiro, coordenador de campanha do Mário Covas (então governador de São Paulo), que veio para Brasília com o FHC, era amigo de Tom Jobim, da Mangueira, do Chico Buarque. E esse cara se sensibilizou e me abriu portas. Então, no aniversário de Pixinguinha, 23 de abril, fizemos uma festa: estava montado um grupo de amigos, jornalistas, intelectuais.

8 | Essa independência se firmou com os grandes patrocínios?

Exatamente. Banco do Brasil, Correios, Petrobras, Terracap e BRB. E como fomos conquistando isso? Criamos a primeira escola de choro do Brasil. Foram seis anos debatendo com o Ministério da Cultura, um projeto que fiz com o Rui Fabiano, irmão de Raphael Rabello, e o Carlos Henrique, meu irmão. Os dois desistiram e eu fui para a Câmara Legislativa. Visitei, um a um, todos os deputados. Aí chega Oscar (Niemeyer), em 2004, fica encantado e entra em contato conosco.

9 | Como foi esse encontro?
O doutor Niemeyer me chamou ao Rio. Eu tinha sofrido um acidente de carro gravíssimo. Os médicos recomendaram que eu não viajasse. Mas pensei: “Se é para o cara fazer esse projeto, vale a pena”. Cheguei péssimo. Fomos eu, Fernando Andrade e Carlos Magalhães, ambos arquitetos do escritório do Niemeyer, e o Tadeu Filipelli (então deputado federal). O doutor Niemeyer estava empolgado, fumando, “humilhando” os presentes. Conversamos das 9h às 16h. O neto dele chegou ao meu ouvido e disse: “Reco, o vovô te convidou para ficar”. A minha situação de saúde era tão complicada que ele percebeu. Ele pegou o telefone: “Oi, Paulinho (Niemeyer, neurologista sobrinho-neto de Oscar), estou aqui com um novo velho amigo e gostaria que o atendesse imediatamente”. Fiquei com lágrimas nos olhos. Depois, ele andou tomando aulas de cavaquinho. E o choro, que sempre viveu de aluguel, tem casa própria.

10 | É verdade que os cariocas têm uma ciumeira do Clube do Choro?
Lá, eles criaram a Escola do Maurício Carrilho (violonista, sobrinho de Altamiro Carrilho) e da Luciana Rabello (cavaquinista, irmã do Raphael). Eu não estimulo essa ciumeira porque o choro é nosso, brasileiro. A escola leva o nome do violonista Raphael Rabello porque, poucos dias depois de conseguir aprovar o projeto no ministério, vi a notícia: “Morre Raphael Rabello...” Caí em prantos. Ele e o Armandinho tocaram de graça para arrecadar dinheiro para a reforma do clube. O show foi na Sala Villa-Lobos. No fim de semana, fizemos um almoço pra ele e para o Armandinho. Depois, fomos ao Piantella. Estava conosco o Alencar Sete Cordas (violonista, falecido em 2011). O dono, Marco Aurélio, fechou a casa. Era bem tarde quando o Raphael puxou minha cabeça, me deu um beijo e disse: “Eu te amo” (Reco emociona-se).

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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017