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Compartilhando Brasília

Cenário de apaixonados por fotografia, a capital inspira amadores e profissionais, que adoram postar os cliques da cidade em redes sociais, como o Instagram e o Facebook. Alguns cartões-postais, como Congresso e catedral, são os preferidos

Maria Fernanda Seixas - Redação Publicação:10/01/2014 14:56Atualização:10/01/2014 15:55

O engenheiro Fred Schueler leva o hobby fotografia a sério: gosto por explorar lugares menos óbvios, como a praça dos Cristais (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
O engenheiro Fred Schueler
leva o hobby fotografia a sério:
gosto por explorar
lugares menos óbvios, como
a praça dos Cristais
Na rampa da Catedral de Brasília, dezenas de pessoas interrompem o embalo da descida que leva à nave principal da igreja. Sacam seus celulares e começam a disparar fotos do local. Em vez de continuarem a visita, porém, encurvam o corpo sobre os smartphones, deslizando os dedos freneticamente sobre a tela. Escolhem o filtro, a legenda e as hashtags para a imagem que, ali, ainda no meio da rampa, será postada na rede de compartilhamento de fotos Instagram.


A cena da Catedral se repete no Congresso, na Torre de TV e em qualquer outro ponto turístico de Brasília. É gente freando o carro no meio do trânsito para não perder o pôr do sol na Esplanada; grupos de desconhecidos fotografando o mesmo ipê amarelo carregado de flores, ou, em um dia de lua gigantesca, fila de carros parados no acostamento, com seus respectivos motoristas do lado de fora, clicando o céu.


A hashtag #brasília, por exemplo, tem quase meio milhão de fotos compartilhadas (somando a opção com e sem o acento no i), contra quase 2 milhões de fotos associadas à hashtag #riodejaneiro. Considerando que o fluxo de turistas das praias cariocas é incomparavelmente maior, Brasília é considerada, pelos usuários da rede, uma das queridinhas tupiniquins na hora de ser clicada, compartilhada e curtida.

O casal de turistas Carolina e Túlio se encantou com a mistura de verde, concreto e o céu: 'É muito diferente do que eu pensava', diz Carolina (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
O casal de turistas Carolina e Túlio se encantou com a mistura de verde, concreto e o céu: "É muito diferente do que eu pensava", diz Carolina

O motivo, dizem os que chegam aqui e se encantam com os traços dos mestres brasileiros da arquitetura, é a beleza única da cidade, que rende imagens inspiradoras e diferentes. “Qualquer clique aqui fica bonito. Tem esse céu, esses monumentos. Quem não entende nada de fotografia consegue fazer uma foto deslumbrante daqui sem muito esforço. Eu mesma me impressionei com as fotos que fiz aqui na Catedral. As cores do vitral nem parecem de verdade na imagem”, afirma a mineira Tatiana Nishioka (@tatiyukari), que alternava a entrevista com cliques da Catedral de Niemeyer.


Para Tatiana, o Lago Paranoá, a Catedral e o Museu Nacional são os lugares cuja visita e, consequentemente, as fotografias, são mais incríveis. “Não sei fazer foto artística. Mas aqui é tudo tão amplo e exagerado que as fotos ficam assim. Você joga um filtro e parece uma fotógrafa profissional”, diz. Entre os queridinhos dos instagramers estão o Congresso, a Catedral, a Torre de TV e a Ponte JK.

A mineira Tatiana Nishioka se deslumbrou com as possibilidades de fotografar Brasília: 'Qualquer clique fica bonito' (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
A mineira Tatiana Nishioka se deslumbrou com as possibilidades de fotografar Brasília: "Qualquer clique fica bonito"

Os turistas são apenas alguns dos que fomentam a mania de Brasília no Instagram. São os brasilienses e moradores da cidade os maiores fornecedores de imagens de tirar o fôlego. As cenas do cotidiano de Brasília, por exemplo, se tornaram hits na web.


O engenheiro brasiliense Fred Schueler (@fredschueler) é um fotógrafo amador com talento de profissional. Tem uma câmera de lentes cambiáveis e leva a sério o hobby fotografia. E é no Instagram que estão muitas das fotos mais sensacionais que ele já fez da cidade. Desde os clichês candangos – como as construções que rondam a região do Eixo Monumental – às belas fotos das entrequadras, jardins escondidos de Burle Marx e cenas da vida social de Brasília, como shows e manifestações.


“Lembro que, quando estava indo para a Marcha do Vinagre, aquela manifestação enorme que tivemos este ano em frente ao Congresso, lembrei de pegar minha câmera e fazer umas imagens. Rendeu boas fotos, que tiveram repercussão”, lembra. Fred, porém, não usa o Instagram como único meio de compartilhamento de fotos. Boa parte dos ensaios que já fez da cidade foi divulgada no Facebook.

Dulce Angelina, fotógrafa candanga, criou o perfil @mybrasiliacity: 'A primeira coisa que foco é sempre o céu'
 (Arquivo pessoal)
Dulce Angelina, fotógrafa candanga, criou o perfil @mybrasiliacity: "A primeira coisa que foco é sempre o céu"

“Estudei arquitetura por alguns anos, então acho que criei um olhar diferente na hora de fotografar. Existem pontos da cidade que muitas pessoas não conhecem, por exemplo, e que renderam algumas das melhores fotos que já fiz. A praça dos Cristais, o quartel-general do Exército e a igrejinha Rainha da Paz são alguns deles. Enquanto a Esplanada está repleta de turistas, esses lugares são mais vazios e rendem momentos mais agradáveis”, indica.


Maria Alice, com o Congresso Nacional ao fundo: 'A incidência de luz aqui é muito forte. Fica difícil tirar uma foto de si mesmo'
 (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Maria Alice, com o Congresso
Nacional ao fundo: "A incidência
de luz aqui é muito
forte. Fica difícil tirar uma
foto de si mesmo"
Dulce Angelina, fotógrafa candanga apaixonada por Brasília, leva tão sério a mania de clicar a cidade que criou uma conta no Instagram exclusivamente para isso. Em @mybrasiliacity, ela posta fotos de tudo o que a encanta na cidade. Em especial, o céu brasiliense, que, para Dulce, é indiscutivelmente o melhor cartão-postal da cidade. “Sempre foco primeiro no céu. Acredito que, para fazer boas fotos em Brasília, é preciso muita paciência ou muita agilidade. Ainda mais porque adoro fotografar nuvens dançantes e tempestades no horizonte. Em um segundo, a nuvem se desfaz, a tempestade se acalma e você perde a foto que queria. Aí vem a paciência para esperar um novo momento perfeito”, ensina.


Certa vez, pegando uma carona com o pai, Dulce o fez frear o carro na subida da Esplanada dos Ministérios para garantir um belo clique do Congresso. “Meu pai foi reduzindo a velocidade para eu fazer a foto com o celular e quase batemos o carro. Foi perigoso, mas a foto ficou bem bonita”, diverte-se. Incidentes do tipo são comuns na área: carros quase em câmera lenta repletos de turistas fotografando pelas janelas. Basta o dia oferecer um bom cenário natural, como um pôr do sol avermelhado, que o trânsito da região fica mais lento.


O casal mineiro Carolina Araújo (@mariacarolina1988) e Túlio César (@tuliocfp) acredita que essa exata mistura de céu, concreto e natureza seja o grande trunfo estético de Brasília. Sobre a torre do Panteão da Pátria, na praça dos Três Poderes, eles admiravam a vista e faziam suas fotos. “Acabamos de chegar de Juiz de Fora. É minha primeira vez em Brasília e é muito diferente do que eu imaginava. Tem muito mais verde e o céu é mesmo diferente. Não sei explicar por quê. Parece maior. As fotos que fizemos aqui parecem de profissionais”, diz a turista.


Ainda no Panteão da Pátria, a veterinária Maria Alice se autofotografava com certa dificuldade. “A incidência de luz aqui é muito forte. O céu é muito amplo e as construções, muito brancas. Tudo reflete luz, fica difícil tirar uma foto de si mesmo quando se está turistando sozinho”, diz. Em alguns minutos e com ensinamentos de turistas solidários, ela estreou sua conta no Instagram com uma foto, emoldurada pelo Congresso. “Pronto, agora estou na moda”, brinca. Apesar de encantada com as belezas da cidade, Maria Alice, natural de Natal, se disse surpresa com algumas características não tão positivas da cidade. Monumentos malcuidados, sinalização confusa. “Isso também devia ser divulgado no Instagram”, sugere.

 

Dois olhares sobre a capital

Por Dulce Angelina e Fred Schueler

A Catedral, um dos endereços mais retratados (Dulce Angelina/Divulgação)
A Catedral, um dos endereços mais retratados

A Esplanada dos Ministérios e um chapéu de nuvens negras (Dulce Angelina/Divulgação)
A Esplanada dos Ministérios e um chapéu de nuvens negras

A Torre de TV e a fonte luminosa (Dulce Angelina/Divulgação)
A Torre de TV e a fonte luminosa

Quartel-general do Exército (Fred Schueler/Divulgação)
Quartel-general do Exército

Pôr do sol no Congresso, um clássico (Fred Schueler/Divulgação)
Pôr do sol no Congresso, um clássico

 (Fred Schueler/Divulgação)

 

 

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017