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ESPORTE | INCLUSÃO »

Eu posso!

O esporte é o caminho mais fácil para pessoas com deficiência se integrarem à sociedade e se recuperarem de lesões. Em Brasília, há opções para todos os gostos: do futebol ao stand-up paddle adaptado

Matheus Teixeira - Redação Publicação:13/01/2014 14:47Atualização:13/01/2014 15:07

Leonardo Alencar com o instrutor Daniel Lino: depois da natação e da vela, paixão pelo stand-up (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Leonardo Alencar com o
instrutor Daniel Lino: depois
da natação e da vela,
paixão pelo stand-up
Aos 20 anos, curtindo um churrasco com os amigos e quase encerrando a faculdade, o auxiliar de livraria Leandro Amorim resolveu pular na piscina como fizera tantas outras vezes. Mas a piscina não estava cheia, e Leandro fez o cálculo errado. Bateu com a cabeça no fundo e perdeu os movimentos das pernas e dos braços. A impossibilidade de se movimentar o jogou para baixo. Desmotivado, não se dedicou aos exercícios e a recuperação não evoluiu. Oito anos após o acidente, ainda se locomovia com cadeira de rodas motorizada. Há três anos, essa história mudou: descobriu o quad rúgbi, como é chamado o rúgbi para deficientes. Sua recuperação deu um salto: “Não ando mais com cadeira motorizada. Eu me locomovo com minha própria energia. Tudo graças ao quad rúgbi”.


O time Bsb Quad Rugby, em que joga Leandro, é o único da modalidade em Brasília e o atual campeão sul-americano. Apesar de, hoje, ser atleta de alto rendimento, ele diz que os benefícios do esporte vão muito além da parte física. “Rimos, brincamos. Com o tempo, viramos amigos. Os treinos são intensos, mas é muito divertido encontrar o pessoal para jogar”, diz. No começo de 2013, a equipe se propôs a treinar muito para ganhar o campeonato brasileiro. Contudo, duas semanas antes da competição, o time sofreu um revés. “O técnico abandonou tudo, faltando 15 dias para o campeonato”, lembra o atual treinador, Paulo Higino. A equipe sentiu a perda e ficou em terceiro na competição. Dois meses depois, a redenção: o Bsb Quad Rugby sagrou-se campeão sul-americano, em competição realizada na Argentina, com vitória sobre o time que o havia derrotado na semifinal do brasileiro.

Leandro Amorim (com a placa na mão) e o time campeão sul-americano de quad rúgbi: o esporte mudou a vida dele (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Leandro Amorim (com a placa na mão) e o time campeão sul-americano de quad rúgbi: o esporte mudou a vida dele

Carlos Santos já jogou basquete, mas decidiu se dedicar ao tênis: participou de duas| paralimpíadas e hoje é o 29º do mundo (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Carlos Santos já jogou basquete,
mas decidiu se dedicar ao tênis:
participou de duas|
paralimpíadas e hoje é o
29º do mundo
Odiel Cavalcante, professor de educação física, trabalha com deficientes há mais de dez anos. “Praticando esporte, a vida deles melhora em todos os aspectos. Têm mais força e resistência para se deslocar, além de criar uma destreza para atividades do dia a dia que não são tão simples quanto parecem”, explica. Odiel afirma que as modalidades paralímpicas têm avançado muito, seja na prática, seja na teoria. “Há um vasto conhecimento na área e muitos cursos de mestrado e doutorado foram abertos recentemente sobre o assunto. O esporte é uma das principais, senão a principal forma de recuperar um ser humano física e emocionalmente”, continua. Por outro lado, o professor fala da necessidade de estender o acesso a essas atividades às classes mais baixas.


A prática de esporte para pessoas com deficiência é relativamente recente. Os primeiros registros de uma competição de uma modalidade voltada para atletas deficientes são de 1948. Naquele ano, veteranos da Segunda Guerra Mundial com lesão na medula espinhal decidiram se reunir para fazer um torneio esportivo. Poucos anos depois, os holandeses juntaram-se aos alemães e, em 1960, foi realizada a primeira paralimpíada. Em 1972, o campeonato já envolvia mais de 40 países. Hoje, são mais de 150 nações, entre elas, o Brasil, que é uma das potências. Levou o sétimo lugar em Londres, em 2012, com 21 medalhas de ouro.


O caso de Leandro Amorim é um exemplo entre tantos outros. Leonardo Alencar, estudante, lesionou a cervical, também ao pular de ponta em uma piscina. Como sempre gostou de esporte, a tetraplegia não o impediu de continuar se exercitando. Pratica natação, veleja e, há um mês, descobriu outra aventura: surfar no Lago Paranoá. André Garcez, do projeto Raia Norte, convidou-o para subir na prancha. A princípio, Leonardo ficou reticente. “Ele me chamou algumas vezes e fui enrolando, até que decidi me arriscar”, conta. Experimentou em um fim de semana e, no outro, já queria repetir. “Dá uma adrenalina muito boa”, descreve.


Rejane da Silva é profissional de tênis adaptado e está no ranking das 50 melhores atletas do mundo: 'O tênis só me trouxe coisas boas' (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Rejane da Silva é profissional
de tênis adaptado e está no
ranking das 50 melhores
atletas do mundo: "O tênis
só me trouxe coisas boas"
O projeto do stand-up paddle para cadeirantes surgiu quando um dos coordenadores do Raia Norte, Daniel Lino, recebeu uma ligação de um deficiente perguntando se eles ofereciam aulas da modalidade. Daniel disse que não, mas gostou da ideia e correu atrás para viabilizá-la. Não achou nada parecido em Brasília, mas encontrou na internet. Viu alguns vídeos e fez vários testes. Deu certo e ele pretende ampliar a iniciativa. “Amarramos a cadeira de rodas em uma prancha normal e os acompanhamos no lago. Não é uma prancha adaptada, feita para este fim, mas nos inscrevemos em um programa do Ministério do Esporte, com o objetivo de conseguir recurso para construir pranchas específicas para o uso de cadeirantes”, explica Daniel.


Em Brasília, o Centro de Treinamento de Educação Física Especial (Cetefe) é a principal referência na área. Lá, existe treinamento de mais de dez modalidades, de amador a profissional. Carlos Santos é um dos atletas do centro. Já foi da Seleção Brasileira de Basquete e hoje é o 29º do mundo no tênis adaptado. Ele largou o basquete em 2003 para se dedicar ao tênis e concorrer a uma vaga nas Paralimpíadas de Atenas, em 2004. A aposta deu certo. Tornou-se um dos melhores do planeta, conheceu o mundo participando das principais competições e teve a honra de disputar duas vezes a paralimpíada.


Aos 2 anos, Carlos recebeu o diagnóstico de poliomielite e foi perdendo os movimentos aos poucos. Na adolescência, ainda andava de muletas e praticava esportes sem adaptação. Quando o

convidaram para o basquete em cadeira de rodas, ele não gostou. “Tive um pouco de preconceito, admito. Achava que a cadeira iria me impor muitos limites”, lembra. Mas ele viu que não era bem assim: “A cadeira vira parte do corpo. Nem lembro que estou em cima dela”, diz.


Rejane da Silva também é profissional de tênis adaptado. Tinha 27 anos quando conheceu a modalidade. Dois anos depois, largou o emprego de secretária em uma clínica odontológica para se dedicar ao esporte. Hoje, está entre as 50 melhores do mundo. Rejane se arrepende de não ter começado antes. “Se tivesse começado mais nova, poderia estar entre as dez do mundo. Mas não tenho do que reclamar. O tênis só me trouxe coisas boas”, acredita. Já participou de sete campeonatos mundiais e diz ter conhecido lugares que nunca imaginou. “O tênis me proporcionou coisas que nunca passaram pela minha cabeça”, afirma.


Algumas modalidades contam com a ajuda de parceria privada para seguirem em frente ou até de governos estrangeiros. Recentemente, a Embaixada da Austrália doou oito velas adaptadas para a Federação Brasiliense de Vela Adaptada. Bruno Pohl, um dos coordenadores do projeto, afirma que essa é a melhor notícia possível para o esporte. “Agora, teremos estrutura para receber mais alunos”, alegra-se. Técnico judiciário e velejador há mais de 30 anos, Roberto Marques também comemora. “Agora que temos equipamento de primeira, temos de focar para vencer mais campeonatos”, espera.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017