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Doce Mila

Obras de arte e, ao mesmo tempo, registros documentais, as fotografias de Mila Petrillo representam o êxtase da beleza que transforma

Severino Francisco - Publicação:14/01/2014 16:18Atualização:14/01/2014 16:48

'É um êxtase fotografar a transformação dessas crianças', diz Mila Petrillo, 
na tranquilidade e beleza de seu ateliê, em Alto Paraíso (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
"É um êxtase fotografar a
transformação dessas crianças",
diz Mila Petrillo, na
tranquilidade e beleza de seu
ateliê, em Alto Paraíso
Alguém já disse, com muita perspicácia, que existe o Sebastião Salgado e a Mila doce. A fotógrafa carioca-brasiliense Mila Petrillo é uma espécie de entidade da beleza, da afirmação e da alegria. Imanta os ambientes com a sua simples presença. Armada por esse olhar, as suas fotos são, ao mesmo tempo, documentos e obras de arte. Se vistas em conjunto, evocam o fluxo cinematográfico de um documentário ou de um desfile de escola de samba. Se apreciadas em detalhe, parecem fotos multimídias. Algumas vezes, apresentam-se com o aspecto de esculturas, na acuidade para captar as curvas, os volumes, as saliências e a materialidade do corpo. Em outras, revelam-se quase como pinturas impressionistas, com os corpos se desintegrando nas cores e ganhando a leveza da luz.


A brincadeira com o fotógrafo Sebastião Salgado pode ser reveladora. Enquanto ele escolhe uma abordagem crua para denunciar as mazelas sociais, Mila encontrou nos projetos de arte-educação os tema e os personagens ideais para expressar a sua sensibilidade amorosa, terna, maternal e mística. Nas crianças e adolescentes em situação de risco, flertando com a cola ou o crack, ela vislumbrou a redenção e a reconquista da dignidade pela arte-educação e pela beleza. Mila registrou o trabalho de 52 projetos no livro Arte de Transformação (Ed. Sesc/São Paulo), com edição do artista plástico Bené Fontelles.

Registro do balé Duas Estações, da Escola de Dança e Integração Social para Crianças e Adolescentes (Fotos: Mila Petrillo)
Registro do balé Duas Estações, da Escola de Dança e Integração Social para Crianças e Adolescentes

Espetáculo Cartas de Um Sedutor, que teve a direção de Genilsom de Pulcinelli e Wiilliam Ferreira (Fotos: Mila Petrillo)
Espetáculo Cartas de Um Sedutor, que teve a direção de Genilsom de Pulcinelli e Wiilliam Ferreira

Balé Jangurussu, de Fortaleza (Fotos: Mila Petrillo)
Balé Jangurussu, de Fortaleza
Não é por acaso que ela tem um olhar de arte e uma sensibilidade para a beleza e a singularidade de cada rosto. A mãe é artista plástica, programadora visual e autora de desenhos animados, e o pai era cineasta e fotógrafo. Os dois tinham uma empresa de produção de propaganda e cinema, a Truca, sediada em Goiânia. Era uma festa permanente para os filhos. Desde pequenos, pegavam em câmeras, brincavam de filmar, tinham uma atenção com o enquadramento e com a luz. Havia um quarto imenso com todas as engenhocas do processo de produção. Mila revelava as fotos naqueles tanques químicos enormes. “Nós éramos cinco filhos e, quando nos perguntavam o que a gente queria ser quando crescer, a resposta recaía somente sobre profissões artísticas: cineasta, pintor, dançarina, cantor. Era uma coisa natural.”


Quando Mila teve a primeira filha, aos 19 anos, e precisou garantir a sobrevivência, o fluxo da vida a levou para a fotografia. Começou fazendo still para cinema e reproduções de pinturas para os artistas plásticos Siron Franco, Antonio Poteiro e DJ Oliveira. A parada seguinte seria Brasília. No início dos anos 1980, por acaso, encontrou-se, na casa de uma amiga, com o poeta Reynaldo Jardim, um dos mais inventivos jornalistas brasileiros, criador do alternativo O Sol e do Suplemento Dominical do Jornal de Brasil. A sintonia foi imediata, Reynaldo estava assumindo o cargo de editor de cultura no Correio Braziliense e logo pediu a contratação de Mila: “Ele disse, com aquela sua típica generosidade meio irresponsável, que eu era ‘maravilhosa’ e fui contratada para fazer cultura. Para mim, era o máximo, me achava privilegiada.”


Performance na feira de São Joaquim, em Salvador  (Fotos: Mila Petrillo)
Performance na feira de
São Joaquim, em Salvador
Mila chegou na virada inicial dos anos 1980, um momento efervescente da cultura brasileira e brasiliense, quando começaram a soprar os ventos da redemocratização do país, com a volta de Darcy Ribeiro, Glauber Rocha, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque e tantos outros exilados brilhantes. Athos Bulcão estava em plena produção, Renato Russo comandava a rebelião elétrica do rock, Cássia Éller arrebatava a plateia do bar Bom Demais, os concertos Cabeças ocupavam os gramados, os grupos de dança proliferavam, os jovens debatiam e se articulavam para as políticas culturais. Mila registrou toda esse movimento com um olho de arte e acumulou um acervo precioso de imagens ainda à espera de organização e de publicação em livro: “A cidade era quente e o jornalismo pulsava junto, não registrava apenas; era agente de cultura. Além disso, havia o privilégio de conviver com pessoas incríveis. O Reynaldo era genial, uma cachoeira de invenção e provocação permanentes.”


A década de 1990 seria marcada pelo desencanto com as promessas não cumpridas pela abertura política. Em um instante que passava por um momento pessoal de descrença, Mila foi convidada por Âmbar de Barros, da Andi, para fotografar o projeto Axé, uma organização não governamental que usa a arte como espinha dorsal da educação e ressocialização de crianças e adolescentes em situação de risco. A experiência teria um impacto positivo arrebatador na vida de Mila: “Eles conceberam uma

Espetáculo No Limite, da Trupe de Dança 108 (Fotos: Mila Petrillo)
Espetáculo No Limite, da Trupe
de Dança 108
pedagogia do desejo, que é um passo à frente da pedagogia do oprimido criada por Paulo Freyre. Subvertem aquela política de que, para os pobres, qualquer coisa serve. O Axé assume que só o melhor e o mais genial pode transformar os pobres. Crianças e adolescentes que flertam com a cola e o crack emergem com uma força impressionante.”


A partir da documentação do projeto Axé, Mila conheceu outras experiências, que resultaram no livro recém-lançado, magnífico painel de 50 projetos espalhados por vários pontos do país. Alguns deles alcançaram repercussão internacional. No momento, Mila mora em Alto Paraíso e continua fotografando os projetos: “Esses projetos fazem a diferença entre a vida e a morte para as crianças e os adolescentes. O Axé, o Cria, o Edisca e o Centro de Tradições Populares estão entre as experiências mais inventivas de educação no Brasil. É incrível como a beleza da arte transforma profundamente. Nesses projetos, conheci algumas pessoas mais gentis, generosas e geniais. Esses projetos deveriam ser incorporados ao sistema de ensino e transformados em políticas públicas. É um êxtase fotografar a transformação dessas crianças”, diz.

Projeto social de dança no Galpão das Artes, em Feira de Santana (Fotos: Mila Petrillo)
Projeto social de dança no Galpão das Artes, em Feira de Santana

Bastidores do circo do projeto Arte Educac%u0327a%u0303o Humanizarte (Fotos: Mila Petrillo)
Bastidores do circo do projeto Arte Educac%u0327a%u0303o Humanizarte

Márcia Duarte, da Cia. de Dança, atuando no espetáculo Movimentos do Desejo (Fotos: Mila Petrillo)
Márcia Duarte, da Cia. de Dança, atuando no espetáculo Movimentos do Desejo
 

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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017