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Para formar um atleta

É na escola que, além de aprender a ler e escrever, a criança passa pela chamada "alfabetização motora". Ali ela pode desenvolver habilidades, descobrir a paixão por algum esporte e, quem sabe, tornar-se um atleta profissional

Matheus Teixeira - Redação Publicação:15/01/2014 14:49Atualização:15/01/2014 15:45

Aos 14 anos, Tyfane Rodrigues treina para as provas de atletismo e já foi campeã sul-americana escolar e brasileira mirim: 'Meu sonho é disputar uma Olimpíada', diz (Fotos: Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
Aos 14 anos, Tyfane Rodrigues
treina para as provas de
atletismo e já foi campeã
sul-americana escolar e brasileira mirim:
"Meu sonho é disputar uma
Olimpíada", diz
O estádio Mané Garrincha tem movimentado a vida esportiva de Brasília. E a maré boa vai além do futebol, o esporte que é paixão nacional – a formação de uma equipe feminina de ponta no vôlei, por exemplo, é uma das boas novidades do ano. Outra boa notícia, além desse profissionalismo, foi a vinda do Gymnasiade (Jogos Mundiais Escolares), o evento responsável por voltar os olhares do mundo para Brasília. Foi a primeira vez que a América Latina recebeu o campeonato, que reuniu estudantes de 35 países, entre 28 de novembro e 3 de dezembro.


A competição deixou um legado para a capital. Sete milhões de reais foram investidos na melhoria de complexos esportivos, como o Ginásio Nilson Nelson e o Aquático Cláudio Coutinho, para receber o torneio. A esperança é que o evento estimule outros jovens a começarem no mundo do esporte. Até porque, quando tem estrutura nova, futuros atletas tendem mesmo a se empolgar. Um exemplo é Tyfane Rodrigues. No começo de 2011, ela decidiu participar da seletiva que escolheria os representantes do colégio em que estuda para os Jogos Escolares do Gama e não parou mais. Ela nunca tinha pensado em disputar uma prova de atletismo, mas, como gostava de correr, resolveu arriscar. Tyfane passou na seletiva dos 800 metros livre e, mesmo sem nunca ter treinado a modalidade, bateu o recorde da competição, que existe há mais de 20 anos.

Registro da cerimônia de abertura dos Jogos Mundiais Escolares, no dia 28 de novembro: holofotes do esporte voltados para Brasília  (Monique Renne/CB/DA Press)
Registro da cerimônia de abertura dos Jogos Mundiais Escolares, no dia 28 de novembro: holofotes do esporte voltados para Brasília

O desempenho da menina chamou a atenção do técnico Ademir Ferreira. Ele é professor do Centro de Iniciação Desportiva (CID), projeto do governo do Distrito Federal que oferece aulas de diversos esportes no contra-turno escolar. Impressionado, ele convidou Tyfane para se dedicar ao atletismo. Em pouco mais de dois anos de treinamento, a atleta já foi campeã sul-americana escolar, campeã brasileira mirim e pretende ir muito além. “Meu sonho é disputar uma Olimpíada. Acredito que, se continuar me esforçando, posso chegar lá”, diz.


Ademir aposta no potencial da aluna: “Ela tem um talento extraordinário. Nasceu para isso”, exalta. Ele destaca a importância do ambiente escolar, das aulas de educação física e das atividades no turno inverso dos estudos, como local onde o jovem pode conhecer a paixão por algum esporte e, eventualmente, tornar-se profissional naquilo. “Na escola, os meninos se deparam com esportes que não praticam na rua. E muitas vezes eles se identificam com esses exercícios menos tradicionais”, explica.

Do handebol para o tênis de mesa: Luis Eduardo dos Anjos tem só 13 anos e foi vice-campeão brasileiro da sua categoria e é o segundo colocado no ranking profissional do DF (Fotos: Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
Do handebol para o tênis de mesa: Luis Eduardo dos Anjos tem só 13 anos e foi vice-campeão brasileiro da sua categoria e é o segundo colocado no ranking profissional do DF

Ronaldo Pacheco, mestre em educação física e professor da disciplina na Universidade Católica de Brasília, fala do papel fundamental das aulas de educação física como espaço em que as crianças passam pela chamada “alfabetização motora”: “Ali, eles ganham um repertório motor. Aprendem a correr, saltar, girar, rastejar. Após isso, podem pôr as habilidades em prática em algum esporte. Sem criar essa destreza, é impossível se tornar um atleta”, afirma.


Por acreditar na importância das competições escolares, como a que revelou Tyfane, o governo federal lançou, no começo deste ano, o programa Atleta na Escola. André Arantes, diretor de Esporte de Base e Alto Rendimento do Ministério do Esporte, explica que um dos objetivos do programa é fortalecer os jogos municipais. “Há 40 anos existem competições estaduais e os Jogos Escolares da Juventude, que é nacional. No entanto, menos de 40% dos municípios realizava campeonatos regionais. Queremos estimular, com auxílio financeiro, as escolas e municípios a fazerem esses torneios mais próximos da comunidade”, explica.


O professor Ronaldo Pacheco sonha com incentivos para além da escola. “Um dos problemas do Brasil é que o esporte como disciplina só vai até o ensino médio. Depois que o aluno se forma, ele não tem mais onde treinar e assim perdemos vários talentos”, critica.

O professor de tênis Ítalo  Magalhães treina crianças em escolas públicas de Ceilândia: 'Bem treinados, podem ter um belo futuro no esporte' (Fotos: Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
O professor de tênis Ítalo Magalhães treina crianças em escolas públicas de Ceilândia: "Bem treinados, podem ter um belo futuro no esporte"

O programa Atleta na Escola é um começo para que a prática esportiva seja disseminada na base da sociedade. Hoje, o Brasil ainda depende da boa vontade de apaixonados pelo que fazem para encontrar atletas em potencial. Adalberto Prieto é professor da rede distrital de ensino e foi técnico de handebol na Escola Classe 24, em Ceilândia. Seis anos atrás, ele teve um problema de coração e o médico determinou que não poderia seguir na atividade. “Eu não podia ficar sem fazer nada. Seria uma tortura”, lembra.


Ele resolveu, então, começar a dar aula de tênis de mesa. E influenciou Luis Eduardo dos Anjos, que jogava handebol, a começar também no esporte. O estudante de 13 anos se encantou pelo tênis de mesa e treina quase todos os dias há três anos. Já foi vice-campeão brasileiro da sua categoria. “Conheci o esporte por causa do Adalberto. Se não fosse ele, nunca teria pensando em pegar numa raquete”, diz.


Matheus de Sousa, de 10 anos, também não conhecia o esporte até ser aluno de Adalberto. “Eu me apaixonei pela modalidade. É muito legal”, diz. O professor acredita que o pupilo pode ir longe. “Tem tudo para, no futuro, ser um dos melhores mesa-tenistas do Brasil”, elogia. Mas, apesar do ritmo intenso de treinamento, os pais de Matheus não aliviam. “Só posso treinar se tiver com todas as notas acima da média”, conta.

'Na escola, os meninos se deparam com esportes que não praticam nas ruas. Eles se identificam com exercícios menos tradicionais', comenta o técnico Ademir Ferreira (Fotos: Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
"Na escola, os meninos
se deparam com esportes
que não praticam nas ruas.
Eles se identificam com
exercícios menos
tradicionais", comenta o
técnico Ademir Ferreira
Garimpando campeões

Para o país se tornar uma potência olímpica, não basta seguir investindo nos esportes tradicionais, como futebol, vôlei e basquete. Por isso, o projeto Jogue Tênis na Escola, desenvolvido em parceria pela Confederação Brasileira de Tênis, Federação Brasiliense de Tênis e pelos Correios, pretende iniciar de 2 mil a 3 mil crianças de escolas públicas de Ceilândia no esporte nos próximos meses. Ricardo Morais, um dos coordenadores do projeto, diz que o objetivo é massificar o tênis e desmitificar a pecha de que é um esporte para rico. “Queremos expandir. Se houvesse mais incentivos como este pelo país, poderíamos nos tornar uma potência”, acredita.


Para o próximo ano, antecipa Ricardo, o plano é levar os alunos que se destacarem para treinar no Centro Olímpico mais próximo. E o professor Ítalo Magalhães garante que dali podem surgir alguns talentos. “Tem dois alunos que – no primeiro dia de aula já vi – pegam de um jeito diferente na raquete. Bem treinados, podem ter um belo futuro”, diz. A aula é um sucesso entre os alunos. Débora Aline Melo, de 7 anos, adorou os primeiros treinos dos quais participou. “É muito divertido. Quero jogar todos os dias”, empolga-se.

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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017