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ESPECIAL FESTAS | SOLIDARIEDADE »

Troca solidária

A doação de órgãos é um ato de amor incondicional. Quem recebe, às vezes, têm a sorte de agradecer o presente. Os doadores também ficam gratos e emocionados por ter a chance de devolver a vida a alguém

Cecília Garcia - Redação Publicação:17/01/2014 15:54Atualização:17/01/2014 16:29

Mariana já enfrentou dois transplantes de rim e se prepara para o terceiro: o pai, Miguel, e o namorado, André, hoje falecido, foram os doadores (Naiana Mendonça/Divulgação)
Mariana já enfrentou dois transplantes de rim e se prepara para o terceiro: o pai, Miguel, e o namorado, André, hoje falecido, foram os doadores
 

Ano a ano, as estatísticas sobre transplantes aumentam. Por trás de cada uma delas, há histórias emocionantes. Para quem precisou de um órgão doado, a felicidade é ter novamente a chance de viver com plenitude. Para quem doa, é a oportunidade de fazer o maior bem do qual o ser humano é capaz: proporcionar uma nova vida a alguém. Por vezes, essas pessoas têm a alegria de se encontrar, quando ocorre um transplante intervivos, e partilhar momentos que ficarão para sempre na memória.


Por lei, os transplantes intervivos só podem ser realizados em pessoas de até quarto grau de parentesco. Em Brasília, é preciso que o doador se apresente ao Ministério Público, que dará o aval para a realização do procedimento. Isso serve para evitar a venda de órgãos. Caso um receptor encontre alguém que não seja parente, mas seja compatível geneticamente e que possa fazer a doação sem prejudicar a própria saúde, a comissão de ética do hospital onde será feita a cirurgia julga se realmente é um ato de doação. Só então a solicitação é encaminhada ao Ministério Público, que dará a permissão judicial para o transplante.


A história de Mariana Vasconcelos Souza envolve um doador familiar em primeiro grau e outro sem parentesco. Ela nasceu com hipoplasia renal bilateral, ou seja, os seus rins tinham um tamanho diminuto e não funcionavam como deveriam. Aos 5 anos, foi submetida ao primeiro transplante. O doador foi o seu pai. Quinze anos depois, o órgão começou a atrofiar e, novamente, veio a busca por rim compatível. O segundo doador foi o então namorado, André, que tinha 97% de compatibilidade genética com Mariana. Em 2005, o procedimento foi realizado. Em janeiro do ano passado, André faleceu. Um mês depois, Mariana apresentou rejeição tardia ao órgão doado pelo ex-namorado. Agora, a moça está em fase de exames para realizar o terceiro transplante. Duas amigas já se ofereceram para doar.


Julio César (camisa listrada) recebeu o rim do irmão, Julio Marcos: 100% de compatibilidade e emoção mútua (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
Julio César (camisa listrada) recebeu o rim do irmão, Julio Marcos: 100% de compatibilidade e emoção mútua

Com 5 anos, Mariana não tinha noção da situação em que se encontrava. Mas, aos 20, no segundo transplante, sabia do que se tratava e pelo que passaria. Entre a falência do primeiro órgão e a recepção do segundo, a moça teve de começar a hemodiálise. “A primeira foi muito difícil, porque eu estava começando a faculdade, estava num momento de mudança na minha vida. Foi um baque psicológico, maior até que o físico.” Ela entrou em depressão. Depois do segundo transplante, a vida de Mariana voltou aos eixos. “Quando finalmente fui ao banheiro, comecei a chorar. Fazer xixi é normal, mas, para mim, foi emocionante. E quando a enfermeira chegou com um litro de água e falou que eu tinha de beber tudo, quase não acreditei.” O outro lado dessa trama quem compartilha é o aposentado Miguel Souza, pai de Mariana. Ele esteve ao lado de Mariana em todos os momentos. Em cada transferência de hospital, a cada vez que se suspeitava de um novo problema de saúde, a cada vez em que um médico indicava uma data-limite para a realização do transplante.


A angústia de pai só teve fim quando a opção do transplante foi oferecida por um médico de São Paulo. “Até então, eu achava que só pudesse ser feito com doador morto.” A reação de Miguel foi de puro alívio: “Eu ia poder fazer alguma coisa para salvá-la”.


Em 2013, foram realizados 64 transplantes de rim na capital. Um desses procedimentos uniu ainda mais os irmãos Julio Marcos Roque, doador, e Julio Cesar Roque, o receptor. Os dois são taxistas, compartilham o primeiro nome e o sobrenome, são canhotos e têm 100% de compatibilidade genética. Foi essa última coincidência que devolveu a esperança a Cesar.


Nathalia Saffi é doadora de sangue e de medula óssea: ela foi chamada a doar a medula para um paciente do Nordeste (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
Nathalia Saffi é doadora de
sangue e de medula óssea:
ela foi chamada a doar
a medula para um paciente
do Nordeste
Há três anos, o taxista teve uma crise de hipertensão arterial sem causa aparente. Era uma doença renal chamada nefropatia por IgA, também conhecida como doença de Berger. Por causa dela, Cesar perdeu 75% de sua função.renal. A única opção seria o transplante. Dos cinco irmãos, dois eram 100% compatíveis. Foi escolhido o mais velho, por ter a idade mais próxima de Cesar. A cirurgia foi marcada para 31 de agosto de 2013. Durou sete horas e contou com o apoio de 12 profissionais.


Na noite do transplante, os irmãos dividiram o mesmo quarto. O doador, Marcos, saiu para o procedimento meia hora antes do irmão. O receptor, Cesar, só foi vê-lo uma semana depois. “Quando nos encontramos, foi emocionante. Na época em que fiquei internado, conheci um rapaz que tinha um irmão compatível com ele, mas que não aceitou doar… e ele vai morrer. O meu irmão resgatou minha qualidade de vida. Não é todo irmão que faria isso.”


Assim que Julio Marcos Roque soube que ele e o irmão eram 100% compatíveis e o médico sugeriu que fosse o doador, prontamente aceitou. Não sabia se ficaria dependente de alguma medicação, nem se teria de viver com alguma restrição. Estava convicto de que doaria.


Ficou internado por apenas um dia após a cirurgia. Por isso, a recepção em casa aconteceu antes de se encontrar com Cesar. “Eu já estava me sentindo muito bem pelo ato, por poder ajudar, por dar uma qualidade de vida melhor para o meu irmão. Mas chegar em casa e ver toda a minha família pronta para me acolher e cuidar de mim foi emocionante.”


Para os filhos, ele virou motivo de orgulho. Quando, finalmente, se encontrou com o irmão, Marcos não conteve a emoção. “Nós nos abraçamos, eu chorei. Foi muito gratificante.”


Ao contrário da doação de órgãos, a de sangue não dá a possibilidade de um encontro com o receptor. Pessoas como o aposentado Edgar José Carlos, que precisa de transfusão uma vez por semana, têm chances quase nulas de conhecer seus benfeitores. Há oito anos, ele descobriu ser portador de mielofibrose, enfermidade crônica que causa alteração na medula óssea e afeta a produção de células sanguíneas. Hoje, a única forma de manter o organismo em funcionamento são as transfusões de sangue. A cura para a situação de Edgar seria um transplante de medula óssea, mas ele passou da idade-limite para realizar o procedimento.

Graças a doadores conhecidos e anônimos, Edgar consegue se manter bem: precisa fazer transfusão de sangue uma vez por semana (Raimundo Sampaio/Encontro/D.A Press)
Graças a doadores conhecidos e anônimos, Edgar consegue se manter bem: precisa fazer transfusão de sangue uma vez por semana

A cada semana, o aposentado recebe 600 ml de sangue, volume doado por três pessoas. Toda quarta-feira, ele faz um hemograma para verificar o nível de hemoglobina no organismo. De acordo com o resultado, o médico estabelece a quantidade necessária de sangue a ser recebido. Edgar nem conhece a maioria dos doadores, mas ajuda na captação, pedindo a amigos. A filha dele também usa a internet para conseguir as doações. Desde a primeira transfusão, ele sentiu a melhora. “Cada vez que vou lá (na Hemoclínica), me sinto melhor. A disposição para fazer as coisas muda, mas vai caindo pouco a pouco. Vou ficando desanimado. Com mais vontade de deitar do que de levantar. O sangue reanima. É um remédio que funciona.”


A estudante Nathalia Saffi não pôde conhecer aquele para quem doou a medula óssea. Ela é doadora de sangue desde os 18 anos. Em 2010, resolveu se cadastrar como doadora de medula óssea. Em 2012, entraram em contato afirmando que havia uma pessoa que provavelmente era compatível e perguntando se ela queria doar.


Após a resposta positiva, iniciou-se uma bateria de exames. Na época, em Brasília, não se fazia esse tipo de procedimento pela rede pública e a estudante foi encaminhada para Goiânia. O Instituto Nacional de Câncer custeou a viagem. O procedimento envolvia tomar uma injeção na barriga duas vezes por dia, uma semana antes da doação, para estimular as células a saírem do osso e circularem na corrente sanguínea. Depois, o sangue de Nathalia saía por um cateter, passava por uma máquina que separa as células de medula e retornava ao corpo dela. Esse procedimento durou quatro horas e foi feito em duas sessões. Parece que o receptor pesava 90 kg.


Nathalia tinha 23 anos quando fez a doação. Colocou foto no Facebook contando a história e fez com que muita gente se interessasse em doar. Ela ainda não conheceu seu receptor. A única informação que tem é que ele fazia tratamento no Nordeste. Há uma lei que impede que doador e receptor de medula, que não sejam parentes, se conheçam, para evitar a comercialização do procedimento.

Apenas depois de um ano e meio é que eles poderão se encontrar – neste caso, em 2014. “Eu sabia que achar um compatível era muito raro, por isso eu me cadastrei. E aconteceu de ser 100% compatível com esse receptor. Perguntei ao médico quais eram as chances de isso acontecer: é de uma em um milhão”, conta a estudante, que tem alma de doadora. “Se eu morrer, pode doar tudo.”

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017